CRIME NO CAMPO DE GOLFE

Agata Christie



edio

LIVROS DO BRASIL

Lisboa

Traduo de
FERNANDA FINTO RODRIGUES
Ttulo da edio original inglesa
MURDER ON THE LINKS
1923 by Dodd Mead and Company lae.


AO MEU MARIDO

CAPTULO I

Companheira de Viagem

Julgo haver uma anedota famosa segundo a qual um jovem escritor, 
decidido a iniciar a sua histria de uma maneira suficientemente enrgica e 
original para atrair e prender a ateno do mais blas dos editores, escreveu a 
seguinte frase: Diabo exclamou a duquesa. 

Por estranho que parea, esta minha histria abre de uma maneira muito 
semelhante, com a diferena de que a dama que soltou a exclamao no era 
duquesa! 

#
Foi em princpios de Junho. Eu estivera a tratar de uns assuntos em Paris 
e regressava no comboio da manh a Londres, onde ainda residia com o meu 
velho amigo belga, o ex-detective Hercule Poirot. 

O expresso de Calais estava singularmente vazio; no meu compartimento 
s viajava uma passageira, alm de mim. Partira do hotel com uma certa pressa e 
estava todo atarefado a verificar se no me esquecera de nada quando o 
comboio partiu. 

At ento, mal reparara na minha companheira de viagem, mas naquele 
momento fui violentamente recordado da sua existncia. Levantando-se, brusca, 
baixou a janela, deitou a cabea de fora e recolheu-a um momento depois, ao 
mesmo tempo que praguejava energicamente: Diabo! 

Confesso que sou bota-de-elstico. Acho que uma mulher deve ser feminil 
e no tenho pacincia nenhuma para aturar a moderna rapariga neurtica que 
dana de manh  noite, fuma como uma chamin e usa uma linguagem que faria 
corar uma peixeira de Billingsgate. 

Levantei a cabea, de testa levemente franzida, e deparou-se-me um 
rosto bonito e atrevido, coroado por um chapelinho vermelho no menos atrevido. 
Um denso cacho de caracis pretos cobria cada uma das orelhas. Calculei que 
teria pouco 

mais de dezassete anos. 

Retribuiu o meu olhar, sem o mnimo embarao, e fez uma 

careta expressiva. 

Valha-me Deus, escandalizei o amvel cavalheiro! 

observou dirigindo-se a uma audincia imaginria. Peo desculpa 

da minha linguagem.  muito pouco feminina e tudo o 

mais, sim senhor, mas, meu Deus, tenho motivos mais do que 

suficientes para a utilizar! Sabe que perdi a minha nica irm? 

Deveras? murmurei delicadamente. Que pouca sorte! 

Ele desaprova! exclamou a jovem. Desaprova-me 

totalmente, e  minha irm tambm o que  injusto no caso 

dela, pois no a viu! 

#
Abri a boca, mas ela antecipou-se-me: 

No diga mais nada! Ningum gosta de mim! Irei para o 
jardim e comerei vermes! Estou esmagada! 
Refugiou-se atrs de uma enorme revista francesa de banda 
desenhada. Passados um ou dois minutos vi os seus olhos espreitarem-

me 

sorrateiramente, por cima da revista. No pude deixar 
de sorrir, mau grado meu, e logo a seguir ela atirou com a 
revista para o lado e desatou a rir alegremente. 


Adivinhei logo que no era to trombudo como parecia! 

afirmou. 
O seu sorriso era to contagioso que dei comigo a fazer-lhe 
coro, embora no me agradasse nada a palavra trombudo. 
A rapariga era, sem dvida, tudo aquilo que mais me desa8 
gradava, mas isso no justificava que me tornasse ridculo com 
a minha atitude. Decidi ser menos severo. No fim de contas, 
ela era decididamente bonita. 

Pronto, j somos amigos! declarou a atrevida. Diga 

que lamenta por causa da minha irm... 
Sinto-me desolado. 
Assim  que  um menino bonito! 
Deixe-me acabar. Ia acrescentar que, embora me sinta 


desolado, resigno-me muito bem  sua ausncia afirmei, com 
uma veniazinha. 
Mas aquela donzela de reaces imprevisveis franziu a 
testa e abanou a cabea. 


Deixe-se disso! Prefiro o ar de digna desaprovao. 
Oh, a sua cara! No  das nossas, dizia. E com toda a razo... 
embora sempre lhe diga que hoje em dia  muito difcil distinguir. 


No  toda a gente que sabe diferenar entre uma 


#
mundana e uma duquesa... Pronto, estou a ver que j o escandalizei 


outra vez! Parece um inocente acabado de chegar da 
provncia. No que isso me desagrade, note. Mais alguns da sua 
espcie at nos fariam jeito. Detesto um indivduo, que arma 
em atrevido, fico furiosa! 
Abanou a cabea, veementemente. 


Como  voc quando est furiosa? perguntei, a sorrir. 


Um autntico diabinho! No tenho tento na lngua nem . 
nos actos! Uma vez quase mandei um tipo desta para melhor. 
Srio! Ele no estava a merecer outra coisa, alis. Tenho sangue 
italiano... Ainda um destes dias me meto em sarilhos. 


Bem, no fique furiosa comigo supliquei comicamente. 
Esteja descansado, no ficarei. Simpatizo consigo, simpatizei 
mal lhe pus os olhos em cima. Mas voc mostrou-me 


uma cara to desaprovadora que nem me passou pela cabea 


que travaramos amizade. 
Mas travmos. Fale-me de si. 
Sou actriz. No... no sou do tipo em que est a pensar, 


das que almoam no Savoy cobertas de jias e aparecem em 


todos os jornais a dizer que adoram o creme de beleza de 
Madame Beltrana. Piso o palco desde os seis anos... s cambalhotas. 


Perdo? murmurei, intrigado. 
Nunca viu crianas acrobatas? 
Ah, compreendo! 
Sou americana de nascimento, mas passei a maior parte 


da minha vida em Inglaterra. Agora temos um espectculo... 


Temos? 

A minha irm e eu. Uma mistura de canto e dana, um 
bocado de conversa e uns pozinhos dos nmeros de acrobacia 

#
antigos. Entusiasma-os sempre. H-de render dinheiro... 
A minha nova conhecida inclinou-se para a frente e tagarelou 

voluvelmente, em termos que, na sua maioria, me eram 
por completo desconhecidos. No entanto, dei comigo a sentir 
um interesse crescente por ela. Parecia uma mistura to curiosa 
de criana e mulher! Embora perfeitamente conhecedora do 
mundo e muito capaz, como dizia, de tomar conta de si mesma, 
havia um no-sei-qu de curiosamente ingnuo na sua atitude 
simplista para com a vida e na sua firme determinao de se 
safar. Aquele vislumbre de um mundo que me era desconhecido 

no deixava de ter os seus encantos, aos quais se juntava 

o prazer que me causava ver o seu pequeno rosto iluminar-se 
enquanto falava. 
Passmos Amiens. O nome despertou-me recordaes e a 
minha companheira pareceu possuir um conhecimento intuitivo 
do que me ia no esprito, pois perguntou: 
Est a pensar na guerra? 

Acenei afirmativamente. 
Foi combatente, suponho? 
Fiquei ferido duas vezes e acabaram por me considerar 

incapaz. Durante uns tempos deram-me um emprego meio 
militar. Agora sou uma espcie de secretrio particular de um 
membro do Parlamento. 

Jesus, deve ser preciso ser muito inteligente! 

No  nada. Por sinal, at h muito pouco que fazer. 
Em geral despacho-me em duas horas por dia. E ainda por cima 
 trabalho enfadonho. Confesso que no sei o que faria se no 
tivesse outros interesses. 


No me diga que colecciona insectos! 
No. Compartilho a casa de um homem muito interessante, 


#
um ex-detective belga. Estabeleceu-se como detective 
particular em Londres e est a sair-se extraordinariamente bem. 
 na verdade um homenzinho maravilhoso. J provou diversas 
vezes estar com a razo, em casos onde a Polcia oficial falhou. 
A minha companheira escutava-me de olhos arregalados. 

Que interessante, hem?! Adoro crimes! Vejo todas as 

fitas de detectives e quando h um assassnio devoro os jornais! 
Lembra-se do Caso Styles? (1) 
Deixe-me ver... A velhota que foi envenenada, algures 

no Essex, no foi? 
Acenei afirmativamente. 
Foi o primeiro grande caso de Poirot. Pode ter a certeza 
de que, se no fosse ele, o criminoso teria escapado sem castigo. 

Foi um trabalho detectivesco excepcional. 
Entusiasmado com o assunto, contei o caso do princpio, 
preparando o caminho para o desenlace triunfante e inesperado. 
A rapariga escutava-me fascinada. Efectivamente, amos to 
absortos que o comboio entrou na estao de Calais quase sem 
darmos por isso. 

Valha-me Deus! exclamou a minha companheira. 
Onde meti a borla do p? 
Tratou de empoar liberalmente o rosto e depois passou um 
baton pelos lbios, enquanto observava o efeito num espelhinho 

de bolso. Sorriu, aprovadora, e guardou o espelho e a 
caixinha do p na mala. 
Assim est melhor.  um bocado fatigante manter as apa


(1) A Primeira Investigao de Poirot, 1. volume desta coleco. 
rncias, mas se uma pequena se respeita tem para consigo 
mesma o dever de no se desleixar. 
Arranjei dois carregadores e descemos para o cais. A minha 

#
companheira estendeu a mo. 
Adeus. Prometo que de futuro terei mais cuidado com a 

lngua. 
Oh, certamente vai permitir-me que a ajude, no barco! 
Talvez no siga no barco. Tenho de descobrir se a minha 

irm sempre se meteu no comboio, em qualquer outro lado. 
Mas agradeo-lhe do mesmo modo. 

Voltaremos a encontrar-nos, no  verdade? Eu... 
hesitei ... quero conhecer a sua irm. 
Rimo-nos ambos. 

 muito simptico e eu transmitirei as suas palavras  
minha irm. Mas no creio que nos voltemos a encontrar. 
Foi muito amvel comigo durante a viagem, sobretudo tendo 
em conta a maneira como fui atrevida consigo. No entanto, 

o que o seu rosto exprimiu em primeiro lugar  absolutamente 
verdade: no sou da sua espcie. E isso causa sarilhos. Eu sei-o 
muito bem. 
O rosto da jovem modificou-se e, por momentos, desvaneceu-se 
dele toda a despreocupada alegria. Parecia zangado, vingativo. 
Portanto, adeus despediu-se, em tom mais ligeiro. 
Nem sequer me diz como se chama? perguntei, quando 


se virou e afastou. 
Olhou por cima do ombro, com uma covinha em cada face. 
Parecia uma encantadora pintura de Greuze. 


Cinderela! respondeu, a rir. 
Mal eu imaginava quando e em que circunstncias voltaria 
a ver Cinderela, 

CAPTULO II 

Um pedido de Socorro 

Eram nove horas e cinco minutos quando, na manh seguinte, 

#
entrei na nossa sala comum para tomar o pequeno-almoo. 

O meu amigo Poirot, como sempre a pontualidade 
em pessoa, partia a casca do seu segundo ovo. 
Sorriu, ao ver-me entrar. 

Dormiu bem, no  verdade? J se refez da terrvel travessia? 
 maravilhoso, esta manh foi quase pontual! Pardon, 
a sua gravata est assimtrica. Permita que a endireite. 
J disse, algures, que Hercule Poirot era um homenzinho 
extraordinrio. Altura, 1,60m; cabea, ovide e um pouco 
inclinada para o lado; olhos que despediam um brilho verde, 
quando estava agitado; bigode marcial, espetado, e um ar de 
imensa dignidade! Impecvel e janota, de aspecto. Tinha uma 
paixo absoluta pelo arranjo e pelo asseio. Ver um ornamento 
mal colocado, ou um gro de p, ou um leve desarranjo no 
vesturio de algum, era uma autntica tortura para o homenzinho, 

enquanto no remediava o mal e ficava,-ento, tranquilo. 
Ordem e Mtodo eram os seus deuses. Sentia um certo 
desdm pelas pistas tangveis, como pegadas e cinza de cigarro,  
e afirmava que, por si mesmas, jamais permitiriam a um 
detective resolver qualquer problema. Depois de tal afirmao 
dava umas palmadinhas na cabea ovide, com absurda complacncia, 

e observava, todo satisfeito: O verdadeiro trabalho 
 feito aqui dentro. As celulazinhas cinzentas... lembre-se 
sempre das celulazinhas cinzentas, mon ami. 
Sentei-me no meu lugar e observei ociosamente, em resposta 
s palavras de Poirot, que uma hora de travessia martima de 
Calais a Dover dificilmente mereceria o epteto de terrvel. 

Poirot agitou a colher do ovo, a refutar vigorosamente a 
minha observao: 
Du tout! Se, durante uma hora, uma pessoa experimenta 

#
sensaes e emoes das mais terrveis, essa pessoa viveu 
muitas horas! No diz um dos vossos poetas ingleses que o 
tempo se conta, no por horas, mas sim por pulsaes do 
corao? 


Suponho que Browning se queria referir a algo mais romntico 
do que o enjoo. 
Porque era um ingls, um insular para quem La Manche 


no significava nada. Ah, os Ingleses! com nous autres  
diferente. 
De sbito, empertigou-se e apontou dramaticamente um 
dedo ao prato das torradas. 


Ah, par exemple, cest trop fort! 
 demasiado forte o qu? 
Esta torrada. No v? Tirou, lesto, a transgressora do 


prato e estendeu-ma para que a examinasse.  quadrada? 
No.  triangular? Tambm no.  sequer redonda? To-pouco. 
Tem uma forma remotamente agradvel ao olhar? Que simetria 
temos aqui? Nenhuma! 


Foi cortada de um po caseiro, Poirot expliquei em 
tom brando, tentando acalm-lo. 
Mas Poirot lanou-me um olhar gelado. 


Que inteligncia a do meu amigo Hastings! exclamou, 
sarcstico. No compreende que proibi semelhante po, um 
po feito  toa, informe, que nenhum padeiro deveria permitir-se 


fazer! 
Tentei desviar-lhe o pensamento do assunto: 
O correio trouxe alguma coisa interessante? 
Poirot abanou a cabea, descontente. 
Ainda no li as cartas, mas hoje em dia no chega nada 
interessante. Os grandes criminosos, os criminosos que trabalham 
com mtodo, no existem. Os casos que ultimamente 

#
me confiaram eram de uma banalidade extrema. Na verdade, 
estou reduzido a procurar cezinhos de regao de damas da 
moda! O ltimo problema que apresentou algum interesse foi 
aquela historiazinha do diamante Yardly, mas isso foi... h 
quantos meses, meu amigo? 
Abanou de novo a cabea, desalentado. 


Anime-se, Poirot, a sorte h-de mudar! Abra as suas 
cartas, ande. Sabe-se l, talvez esteja uma grande investigao 
a espreitar no horizonte! 
Poirot sorriu e, pegando no bonito corta-papel com o qual 
abria a correspondncia, cortou a parte de cima dos diversos 
sobrescritos que tinha junto do prato. 
Uma conta. Outra conta. Parece que estou a tornar-me 
extravagante, na velhice. Ah, um bilhete do Japp! 


Sim? Arrebitei as orelhas; o inspector da Scotland 


Yard j nos apresentara mais de uma vez um caso interessante. 
Limita-se a agradecer-me,  sua maneira, um pormenorzinho 
do caso Aberystwyth, para o qual lhe chamei a ateno 


e que o lanou no bom caminho. Estou encantado por ter podido 
ser-lhe til. 
Como  que ele lhe agradece? perguntei, curioso, pois 


conhecia Japp. 
Tem a amabilidade de dizer que sou um excelente camarado, 
apesar da minha idade, e que foi um prazer para ele ter 


tido a oportunidade de me deixar colaborar na investigao. 


Aquilo era to tpico de Japp que no contive -uma gargalhada. 
Poirot continuou a ler placidamente a sua correspondncia. 
Uma sugesto para que faa uma palestra aos nossos 


escuteiros locais. A condessa de Forfanock ficar grata se 
puder ir visit-la. Outro cozinho de regao, sem dvida. 


#
E agora vamos  ltima. Ah!... 
Levantei a cabea, pois no me escapara a mudana de tom. 
Poirot lia atentamente. Pouco depois passou-me a carta. 


Isto  fora do vulgar, mon ami. Leia e veja. 


A carta estava escrita num tipo de papel estrangeiro e 
numa caligrafia ousada e firme: 
Vila Genevive 
Merlinville-sur-Mer 
France. 
Caro senhor: 
Estou precisado dos servios de um detective e, por razes 
que lhe exporei mais tarde, no desejo recorrer  Polcia local. 
Diversas pessoas me tm falado de si e todas as opinies demonstram 

que alm de ser um homem de franca competncia 
tambm sabe ser discreto. No desejo entrar em pormenores 
numa carta, mas, por causa de um segredo que possuo, temo 
diariamente pela minha vida. Estou convencido de que o perigo 
est iminente e, por isso, rogo-lhe que no perca tempo e 
venha a Frana. Mandarei um carro esper-lo a Calais, se me 
telegrafar a dizer quando chega. Ficar-lhe-ei grato se abandonar 
todos os casos que tiver em mos para se dedicar exclusivamente 

aos meus interesses. Estou disposto a pagar qualquer 
compensao necessria. Provavelmente precisarei dos seus 
servios durante um espao de tempo considervel, pois talvez 

o senhor tenha de ir a Santiago, onde passei vrios anos da 
minha vida. Deixo ao seu critrio a indicao dos honorrios 
que considerar convenientes. 
Garantindo-lhe mais uma vez que o assunto  urgente, 
sou, 
P. T. RENAULD 
#
Debaixo da assinatura havia mais uma linha garatujada  
pressa e quase ilegvel: Venha, pelo amor de Deus! 
Devolvi a carta a Poirot, com o corao a bater mais depressa. 


Finalmente! exclamei. A tem uma coisa que  com 
certeza fora do vulgar. 


Sem dvida concordou o detective, pensativo. 


Claro que vai... 
Poirot acenou afirmativamente, absorto numa meditao 
profunda. Por fim pareceu decidir-se e olhou para o relgio. 
O seu rosto tornara-se muito grave. 


No h tempo a perder, meu amigo. O expresso Continental 
parte da estao de Vitria s onze horas. No se enerve, 
h muito tempo. Podemos dispor de dez minutos para discutir 

o assunto. Acompanha-me, nest-ce ps? 
Bem... 
Voc mesmo me disse que o seu patro no precisaria 
de si nas prximas semanas. 
A esse respeito no h novidade. Mas Mr. Renauld d 
claramente a entender que o assunto  privado. 
Ora, ora! Eu c me encarregarei de Mr. Renauld. A propsito, 

o nome no me  estranho... 
H um famoso milionrio sul-americamo com esse nome. 
Apesar do apelido de Renauld creio que  ingls. No sei se se 
trata da mesma pessoa... 

Sem dvida que trata. Isso explica a aluso a Santiago, 
que fica no Chile, e o Chile fica na Amrica do Sul! Estamos a 
progredir maravilhosamente! 

Meu Deus, Poirot, cheira-me a umas boas massas... 
observei, com entusiasmo crescente. Se formos bem sucedidos 
faremos a nossa fortuna! 

#
No deite foguetes antes da festa, meu amigo. Um homem 
rico s com dificuldade se separa do seu dinheiro. Pessoalmente, 
j vi um famoso milionrio incomodar todos os passageiros de 
um elctrico para procurar uma pequena moeda que deixara 


cair. 


Admiti que tinha razo. 
De qualquer modo prosseguiu Poirot , no  o dinheiro 
que me atrai, neste caso. Evidentemente que  agradvel 


ter carte blanche nas nossas investigaes, pois assim temos a 
certeza de no desperdiar tempo. Contudo, neste problema 
2 -VAMP. G. 2 


h algo um tanto ou quanto estranho, que desperta o meu 
interesse. Reparou no post script? Que lhe pareceu? 
Pensei um momento, antes de responder: 


 evidente que ele se dominou enquanto escreveu a 
carta, mas no fim o auto domnio abandonou-o e, obedecendo a 
um impulso momentneo, Mr. Renauld rabiscou essa frase desesperada. 
Mas o meu amigo abanou vigorosamente a cabea. 


Est enganado. No reparou que enquanto a tinta da 


assinatura  quase preta a do post script  muito clara? 
E ento? perguntei, intrigado. 
Mon Dieu, mon ami, sirva-se das celulazinhas cinzentas! 


No salta aos olhos? Mr. Renauld escreveu a carta e, sem a 
enxugar com o mata-borro, releu-a cuidadosamente. Depois, 
no em obedincia a um impulso, mas sim deliberadamente, 
acrescentou as ltimas palavras e enxugou a folha toda com o 
mata-borro. 
Mas porqu? 


Parbleu! Para que produzisse em mim o efeito que produziu 
em si. 


#
O qu? 

Mais oui... Para ter a certeza de que eu iria! Releu a 
carta e no ficou satisfeito, no a achou suficientemente forte. 
Fez uma pausa e depois acrescentou em tom suave, tendo 
no olhar aquela cintilao verde que era sempre sinal de agitao 

interior: 

Por isso, mon ami, porque o post script foi acrescentado 
conscientemente, a sangue-frio, e no impulsivamente, estou 
certo de que a urgncia  muito grande. Devemos, pois, ir ter 
com ele o mais depressa possvel. 

Merlinville... murmurei, pensativo. Creio que j 
ouvi falar... 
 um lugarzinho sossegado, mas elegante. Fica a meio 
caminho entre Bolonha e Calais e est na moda. Ingleses ricos 

que desejam sossego .. Suponho que M. Renauld tem uma casa 
em Inglaterra? 
Sim, em Rutland Gate, se a memria no me atraioa. 
E tambm tem uma grande propriedade no campo, algures no 
Hertfordshire. Na realidade, pouco sei a seu respeito; no faz 
grande vida social. Suponho que tem grandes interesses sul-americanos 


na City e que passou a maior parte da vida no Chile 
e na Argentina. 


Bem, tomaremos conhecimento de todos os pormenores 
pela sua prpria boca. Vamos fazer as malas. Uma pequena 
maleta para cada um e depois, toca, metemo-nos num txi 
para Vitria. 


E a condessa? indaguei, a sorrir. 
Ora, je men fiche! No deve ser nada de interesse. 
Porque est to certo disso? 
Porque se fosse coisa grave ela viria, em vez de escrever. 


#
As mulheres no sabem esperar, Hastings. Lembre-se sempre 
disso. 
s onze horas partimos de Vitria a caminho de Dover. 
Antes de partir, Poirot telegrafara a Mr. Renauld, a inform-lo 
das horas a que chegaramos a Calais. 


Admira-me que no tenha investido nalguns frascos de 
remdio para o enjoo, Poirot observei maliciosamente, ao 
recordar a nossa conversa do pequeno-almoo. 
O meu amigo, que observava ansiosamente o tempo, voltou 
para mim o rosto carregado de censura. 


Esqueceu o mui excelente mtodo de Laverguier? Pratico 
sempre o seu sistema. Segundo ele, devemos oscilar, virando 
a cabea da esquerda para a direita, respirando compassadamente 


e contando at seis entre cada respirao. 


Ah! murmurei, irnico. Calculo que estar muito 
cansado de oscilar e de contar at seis quando chegarmos a 
Santiago, ou a Buenos Aires, ou aonde quer que seja que 
acabemos por ir parar. 


Quells ide! No se lhe meteu na cabea que vou a 


Santiago, pois no? 
Mr. Renauld insinua-o na sua carta. 
Ele desconhece os mtodos de Hercule Poirot. Eu no sou 


dos que corro para trs e para diante, a fazer viagens e a excitar-me 


todo. O meu trabalho  feito no interior, aqui bateu 
significativamente na testa. 
Como de costume, a observao excitou a minha faculdade 
argumenta tiva: 


Tudo isso est muito bem, Poirot, mas parece-me que 
comea a adquirir o hbito de desprezar excessivamente certas 
coisas. Uma impresso digital j tem levado  priso e  conde-< 


#
nao de um assassino, e no to poucas vezes como isso. 
E tambm j levou, sem dvida, ao enforcamento de 

mais de um inocente redarguiu-me, secamente. 
Mas certamente que o estudo de impresses digitais, pegadas 
e diferentes tipos de lama, assim como outras pistas que 

compreendem a observao minuciosa de pormenores, certamente 
que isso  de importncia vital, no acha? 
Oh, certamente! Nunca disse o contrrio. Claro que o 

observador experiente, o perito, , sem dvida, til. Mas os 
outros, os Hercules Poirot, esto acima dos peritos!  a eles que 
os peritos levam os factos. A eles compete estudar o mtodo 
do crime, a sua deduo lgica, a sequncia e a ordem apropriadas 

dos factos... e, acima de tudo, a verdadeira psicologia 
do caso. J caou raposas, no  verdade? 
Sim, cacei um bocado, umas vezes por outras admiti, 

intrigado com a brusca mudana de assunto. Porqu? 
Eh bien, para caar raposas precisa de ces, no precisa? 
Ces de caa corrigi, suavemente. Sim, claro. 
No entanto prosseguiu Poirot, de dedo em riste , 

no desce do seu cavalo e no corre pelo cho a farejar e a 
soltar sonoros o-os, pois no? 
No pude deixar de me rir descontroladamente. Poirot acenou 

com a cabea, satisfeito. 

Portanto, deixa o trabalho dos ces... dos ces de caa 
aos ces de caa. Contudo, exige que eu, Hercule Poirot, me 
torne ridculo deitando-me (possivelmente em cima de erva 
molhada) e estudando hipotticas pegadas! Lembre-se do mistrio 

do expresso de Plymouth. O bom do Japp partiu, para 
observar a via frrea, e quando voltou eu, que no sara de 
casa, fui capaz de lhe dizer exactamente o que descobrira. 

#
Isso quer dizer que, na sua opinio, Japp desperdiou o 


seu tempo. 
De modo nenhum, uma vez que as suas provas confirmaram 
a minha teoria. Mas eu, teria desperdiado o meu 


tempo, se tivesse ido. Acontece o mesmo com os chamados 
peritos. Lembre-se do que aconteceu com o perito caligrfico, 
no processo do Cavendish. Do interrogatrio do advogado de 
acusao resultou um depoimento segundo o qual havia semelhanas; 


do interrogatrio do advogado de defesa resultou um 
depoimento segundo o qual havia dissemelhamas. Tudo numa 
linguagem muito tcnica. E quais foram os resultados? O que 
todos j sabamos de antemo: a caligrafia era muito parecida 
com a de John Cavendish.  mente psicolgica suscita-se a 
pergunta: Porqu? Porque era realmente a caligrafia dele? 
Ou porque algum desejou que pensssemos que era a dele?. 
Respondi a essa pergunta, mon ami, e respondi-lhe correctamente. 
E, tendo me silenciado, se no convencido, Poirot recostou-se 
no lugar, com ar satisfeito. 
No barco tive o bom-senso de no perturbar a solido do 
meu amigo. O tempo estava delicioso e o mar liso como o proverbial 


espelho. Por isso no me surpreendeu o facto de ouvir 
dizer que o mtodo de Laverguier dera mais uma vez boas 
provas, quando Poirot se me reuniu, todo sorridente, ao desembarcarmos 


em Calais. Esperava-nos uma decepo, pois no 
tinham mandado nenhum automvel buscar-nos. Mas Poirot 
atribuiu isso  possibilidade de o seu telegrama se ter atrasado 
em trnsito. 


J que temos carte blanche, alugamos um automvel 
decidiu, alegremente. 
Poucos minutos depois l amos aos solavancos, na maior 


#
chocolateira de aluguer jamais vista, direitos a Merlinville. 
Sentia-me com excelente disposio. 

Que delicioso ar! Promete ser uma viagem maravilhosa. 
Para si, talvez. Quanto a mim, lembre-se de que me 
espera trabalho, no fim da viagem. 

Ora! exclamei, depreciativamente. Descobrir tudo 
num instante, assegurar a segurana do tal Mr. Renauld, desmascarar 
os assassinos potenciais e chegaremos ao fim em 

glria. 
 um sanguneo, meu amigo. 
Estou absolutamente certo do xito. No  voc o nico 


Hercule Poirot? 


Mas o meu amiguinho no mordeu a isca. Observou-me gravemente 
e disse: 
Os Escoceses chamam ley a uma pessoa com a sua disposio, 
Hastings: pressagia tragdia. 
Disparate! Pelo menos voc no compartilha os meus 


sentimentos. 
Pois no, mas tenho medo. 
Tem medo de qu? 


No sei... Tenho um pressentimento, um je ne sais quoi... 
Falava em tom to grave que me senti impressionado, 
apesar da minha boa disposio. 


Tenho a impresso de que este caso vai ser importante... 
um problema longo e inquietante, que no ser fcil deslindar 
acrescentou, devagar. 
Tive vontade de o interrogar, mas acabvamos de entrar na 
cidadezinha de Merlinville e o motorista abrandou, a fim de se 
informar do caminho para a Villa Genevive. 


 sempre a direito atravs da cidade. A Villa Genevive 
fica cerca de quinhentos metros do outro lado. No se pode 


#
enganar.  uma grande moradia sobranceira ao mar. 


Agradecemos ao informador e seguimos o nosso caminho, 
deixando a cidade para trs. Uma encruzilhada obrigou-nos a 
segunda paragem. Vinha um campons em sentido contrrio 
e espermos que se aproximasse, para perguntarmos de novo o 
caminho. Do lado direito havia uma moradiazinha, mas era to 
pequena e estava em to mau estado que no podia ser a que 
pretendamos. Enquanto espervamos, a cancela abriu-se e saiu 
uma rapariga. 


O campons alcanou-nos e o motorista debruou-se e pediu-lhe 
a informao desejada. 
A Villa Genevive? Fica apenas uns passos mais acima, 
nesta estrada, monsieur. Se no fosse a curva, j a via daqui. 
O motorista agradeceu-lhe e arrancou. Os meus olhos estavam 
francamente fascinados pela rapariga, que parara com a 


mo na cancela, a observar-nos. Sou um admirador da beleza 
e a jovem possua-a em to elevado grau que ningum poderia 
passar por ela sem o notar. Muito alta, com as propores de 
uma jovem deusa e a descoberta cabea dourada a brilhar ao 
sol... Jurei a mim mesmo que era uma das mais belas raparigas 
que jamais vira. Enquanto subamos pela estrada irregular, 
virei a cabea, para um ltimo olhar. 


Meu Deus, Poirot, viu aquela jovem deusa? 
a commence! exclamou o detective, arqueando as 


sobrancelhas. J viu uma deusa e ainda mal comemos! 
Mas, com a breca, no era? 
Talvez. No reparei. 
No pode ter deixado de reparar nela! 
Mon ami, duas pessoas raramente vem a mesma coisa. 


Voc, por exemplo, viu uma deusa, eu... calou-se, hesitante. 


#
Voc? 
Eu vi apenas uma rapariga com olhos ansiosos respondeu-me, 
gravemente. 


Mas nesse momento parmos defronte de um grande porto 
verde e soltmos uma exclamao, em unssono: junto do 


porto encontrava-se um imponente sergent de ville que levantou 
a mo para nos barrar o caminho. 
No podem passar, messieurs. 
Mas desejamos falar com Mr. Renauld! protestei. 


Temos uma entrevista...  a moradia dele, no ? 
, sim, monsieur, mas... 
Poirot inclinou-se para a frente e perguntou por seu turno: 
Mas o qu? 

M. Renauld foi assassinado esta manh. 
CAPTULO III 
Na Villa Genevive 

Num pice, Poirot saltou do carro, de olhos cintilantes de 
excitao. Agarrou no ombro do homem e perguntou: 
Que disse? Assassinado? Quando? Como? 
O sergent de ville empertigouHse. 
No posso responder a perguntas nenhumas, monsieur. 


Tem razo, compreendo. Poirot pensou uns momentos 
e por fim inquiriu: O comissrio da Polcia est l dentro, 
sem dvida? 


Est, sim, monsieur. 
O detective tirou um carto, no qual garatujou algumas 
palavras. 


Voil! Quer ter a bondade de mandar este carto ao 
comissrio, imediatamente? 
O homem pegou no carto, virou a cabea e assobiou. Em. 


#
poucos segundos acorreu um camarada seu, a quem ele entregou 

o recado de Poirot. Seguiu-se uma espera de alguns minutos e 
depois aproximou-se, todo apressado, um homem baixo e forte, 
de enorme bigode. O sergent de ville fez a continncia e desviou-se 
para o lado. 

Meu caro Mr. Poirot! exclamou o recm-chegado. 
Encanta-me v-lo, creia. A sua chegada  muito oportuna. 
O rosto de Poirot iluminara-se. 

M. Bex! Que grande prazer! Virou-se para mim e procedeu 
s apresentaes: Um amigo meu ingls, capito 
Hastings, e M. Lucien Bex. 
O comissrio e eu inclinmos a cabea um ao outro, cerimoniosamente, 


e M. Bex voltou-se de novo para Poirot: 
Mon vieux, no o vejo desde aquela vez, em Ostenda. 


Constou-me que saiu da Fora,  verdade? 
. Trabalho particularmente, em Londres. 
E diz que tem informaes que nos podem ajudar? 
Provavelmente j est ao corrente... Sabia que me tinham 


mandado chamar? 
No. Quem? 
A vtima. Parecia saber que iam atentar contra a sua vida. 


Infelizmente chamou-me demasiado tarde. 


Sacr tonnerre! praguejou o francs. com que ento, 
ele previu o seu prprio assassnio? Isso transtorna muito as 
nossas teorias. Mas entrem. 
Segurou o porto, entrmos e seguimos na direco da moradia. 

M. Bex continuou a falar: 
O juiz de instruo, M. Hautet, tem de ser imediatamente 
informado. Acabou de examinar o cenrio do crime e vai 
iniciar os interrogatrios.  um homem encantador, gostar 

#
dele. Muito compreensivo. Original nos seus mtodos, mas 

excelente juiz. 

Quando foi cometido o crime? perguntou Poirot. 

O corpo foi descoberto esta manh, cerca das nove horas. 
Os testemunhos de Madame Renauld e dos mdicos indicam 
que a morte deve ter ocorrido cerca das duas da manh. Mas 
entrem, por favor. 
Chegramos aos degraus de acesso  porta principal da 
moradia. Estava sentado no vestbulo outro sergent de ville, 
que se levantou ao ver o comissrio. 

Onde est M. Hautet? perguntou-lhe o nosso acompanhante. 

Na sala, monsieur. 

M. Bex abriu uma porta do lado esquerdo do vestbulo e 
entrmos. M. Hautet e o seu escrivo, sentados a uma grande 
mesa redonda, levantaram a cabea quando entrmos e o 
comissrio apresentou-nos e explicou a razo da nossa presena 
M. Hautet, o juiz de instruo, era um homem alto e magro, 
de penetrantes olhos escuros e barba grisalha muito bem aparada, 
que costumava acariciar enquanto falava De p junto 
da chamin encontrava-se um indivduo idoso, ligeiramente 
curvado, que nos apresentaram como Dr. Durand. 

Extraordinrio! exclamou M. Hautet, quando o comissrio 

acabou de falar. Trouxe a carta, monsieur? 
Poirot entregou-lha e o magistrado leu-a. 

Hum... fala de um segredo. Que pena no ter sido mais 
explcito! Estamos-lhe muito gratos, M. Poirot. Espero que nos 
d a honra de nos auxiliar nas nossas investigaes. Ou tem de 
regressar a Londres? 

Tenciono ficar, Sr. Juiz. No cheguei a tempo de impedir 
a morte do meu cliente, mas sinto-me obrigado a descobrir o 

#
seu assassino. 

O magistrado inclinou a cabea e afirmou: 
Esses sentimentos honram-no. Alm disso, Madame Renauld 
desejar, sem dvida, assegurar-se dos seus servios. Estamos 
 espera, de um momento para o outro, de M. Giraud, da 

Sret de Paris, e estou certo de que se podero ajudar mutuamente 

nas investigaes. Entretanto, espero que me d a honra 
de assistir aos interrogatrios a que vou proceder. Escusado ser 
dizer que, se precisar de alguma coisa, estou ao seu dispor. 

Obrigado, monsieur. Como deve compreender, por enquanto 
estou completamente s escuras, no sei absolutamente 
nada. 

M. Hautet fez um sinal ao comissrio, que contou a 
histria: 
Esta manh, quando desceu para iniciar o seu trabalho, 
Franoise, a velha criada da casa, encontrou a porta principal 
aberta. Sentiu-se momentaneamente assustada, receando que 
tivessem sido ladres, mas como as pratas continuavam no 
seu lugar, na sala de jantar, no pensou mais no assunto e disse 
para consigo que o patro se devia ter levantado cedo e ido dar 
um passeio. 

Desculpe interromper, monsieur, mas era hbito dele fazer 
isso? 

No, no era. Mas a velha Franoise pensa, como muita 
gente, que os Ingleses so doidos e capazes de fazer as coisas 
mais inesperadas, em qualquer altura. Quando uma criada 
mais nova, Lonide, foi chamar a patroa, como de costume, 
ficou horrorizada ao encontr-la amordaada e amarrada. Quase 
ao mesmo tempo chegou a notcia de que fora encontrado 

o corpo de M. Renauld, apunhalado nas costas. 
#
Onde? 
Esse pormenor  uma das caractersticas mais extraordinrias 
do caso. M. Poirot, o corpo estava cado de bruos numa 

sepultura aberta.  
O qu?! 
Exactamente. A cova tinha sido aberta de fresco, poucos 

metros fora dos terrenos da vila. 
E h quanto tempo estava ele morto? 
Foi o Dr. Durand quem respondeu: 

Examinei o corpo esta manh, s dez horas. A morte 
devia ter ocorrido pelo menos sete, e possivelmente dez, horas 
antes. 

Isso situa a hora da morte entre a meia-noite e as trs 
da manh. 

Exacto. O depoimento de Madame Renauld situa-a depois 
das duas da manh, o que reduz ainda mais a margem. A morte 
deve ter sido instantnea e, naturalmente, no pde ser auto-infligida, 

Poirot acenou com a cabea e o comissrio retomou a 
palavra: 

As aterrorizadas criadas libertaram imediatamente Madame 
Renauld das cordas que a imobilizavam. Estava num 
estado de grande exausto e quase inconsciente, devido  dor 
que as cordas lhe causavam. Parece que entraram no quarto 
dois mascarados que a amordaaram e amarraram, enquanto 
lhe levavam o marido  fora. Soubemos tudo isto indirectamente, 

pelas criadas, pois ao ouvir a trgica notcia a senhora 
caiu imediatamente num alarmante estado de agitao. Quando 

o Dr. Durand chegou administrou-lhe um sedativo e ainda no 
nos foi possvel interrog-la. Cremos, no entanto, que acordar 
mais calma e poder suportar a tenso do interrogatrio. 
#
O comissrio calou-se e Poirot perguntou-lhe: 
E os habitantes da casa, monsieur? 
H a velha Franoise, a governanta, que serviu durante 


muitos anos os antigos proprietrios da Villa Genevive, e duas 


raparigas novas e irms, Denise e Lonie Oulard. So de Merlinville 
e filhas de pais muito responsveis. H tambm o motorista, 
que M. Renauld trouxe de Inglaterra, mas que est de 


folga, e, finalmente, Madame Renauld e o filho, M. Jack 
Renauld, o qual tambm se encontra ausente de casa, presentemente. 
Poirot agradeceu, com uma inclinao de cabea. 


Marchand! chamou M. Hautet, e acrescentou, quando 


o sergent de ville acorreu: Traga a Franoise. 
O homem fez a continncia e saiu, para voltar momentos 
depois com a assustada governanta. 
Chama-se Franoise Arrichet? 
Sim, monsieur. 
Serve h muito tempo na Villa Genevive? 
Estive onze anos com Madame la Vicomtesse. Depois, 


quando ela vendeu a moradia na Primavera passada, acedi a 
ficar com o milorde ingls. Nunca me passou pela cabea... 
O magistrado no a deixou continuar: 

Sem dvida, sem dvida. Olhe, Framoise, quanto  questo 
da porta principal, a quem incumbia fech-la,  noite? 
A mim, monsieur. Encarreguei-me sempre disso. 
E a noite passada? 
Fechei-a como de costume. 
Tem a certeza? 
Juro pelos benditos santos, monsieur. . 
Que horas eram quando a fechou? 
As do costume, monsieur, dez e meia. 


#
E as restantes pessoas da casa, tinham-se deitado? 
Madame recolhera-se pouco antes. A Denise e a Lonie 
subiram comigo. Monsieur ainda estava no escritrio. 

Ento, se algum voltou a abrir a porta, deve ter sido o 
prprio M. Renauld? 
Franoise encolheu os ombros largos. 


Porque faria ele semelhante coisa? com ladres e assassinos 


por a, a toda a hora! Monsieur no era idiota. Ainda se 
tivesse de abrir a porta para cette dame sair... 
O magistrado interrompeu-a vivamente: 


Cette dame? A que senhora se refere? 
Bem, a senhora que vinha visit-lo. 
Veio uma senhora visit-lo ontem  noite? 
com certeza que veio, monsieur... ontenr  noite e em 


muitas outras noites. 
Quem era ela? Voc conhecia-a? 
Alastrou no rosto da mulher uma expresso manhosa. 
Como havia de a conhecer? resmungou. No fui eu 
que lhe abri a porta, ontem  noite. 

Atreve-se a brincar com a Polcia? gritou o magistrado, 
ao mesmo tempo que dava uma forte palmada na mesa. Exijo 
que me diga imediatamente o nome dessa mulher que vinha 
visitar M. Renauld  noite. 

A Polcia, a Polcia...resmungou Franoise. Nunca 
imaginei que me veria envolvida com a Polcia. Mas sei muito 
bem quem ela era: Madame Daubreuil. 

O comissrio soltou uma exclamao e inclinou-se para a 
frente, estupefacto. 
Madame Daubreuil... da Villa Marguerite, logo a seguir, 
na estrada? 

#
Foi o que eu disse, monsieur. Oh,  uma bela prenda, 
celle-l! exclamou a velha, e abanou desdenhosamente a 
cabea. 

Madame Daubreuil... murmurou o comissrio. Impossvel! 
Voil! resmungou Franoise. A est o que se ganha 
em dizer a verdade. 

Longe disso interveio o juiz de instruo, apaziguador. 
Estamos apenas surpreendidos, mais nada. Ento Madame 
Daubreuil e Monsieur Renauld eram...deixou a frase por 
acabar, delicadamente. Tem a certeza de que era isso? 

Como posso ter a certeza? Mas que havia de ser? Monsieur 

era milord anglais, trs rche, e Madame Daubreuil  
pobre, pobre mas trs chic, embora viva pacatamente com a 
filha. No h dvida, deve ter tido a sua histria! J no  
nova, mas, ma foi, eu que lhes estou a falar tenho visto muitos 
homens virarem a cabea para a olhar, quando ela desce a rua! 
Alm disso, ultimamente tem tido mais dinheiro para gastar, 
toda a cidade o sabe. E as economiazinhas estavam no fim... 

Franoise acenou com a cabea, num gesto de inabalvel 
certeza. 

M. Hautet afagou a barba, pensativamente. 
E Madame Renauld? perguntou, por fim. Como aceitava 
ela essa .. amizade? 
Franoise encolheu os ombros. 

Mostrou-se sempre muito simptica, muito delicada. 
Dir-se-ia que no suspeitava de nada. Mas mesmo assim o 
corao sofre, no  verdade, monsieur? Dia a dia vi Madame 
tornar-se mais plida e mais magra. J no  a mesma mulher 
que chegou aqui h um ms. Monsieur tambm tinha mudado, 
tinha as suas preocupaes. Via-se que estava  beira de uma 

#
crise de nervos. E sem caso para admirar, com um romance 
conduzido de tal modo? Sem reticncia, sem discrio... Estilo 
ingls, sem dvida! 
Dei um pulo na cadeira, indignado, mas o magistrado continuou 

com o interrogatrio, sem se deixar perturbar por 
ninharias: 

Disse que M. Renauld no precisou de abrir a porta a 
Madaime Daubreuil, no  verdade? Isso significa que ela j 
tinha sado? 

J, sim, monsieur. Ouvi-os sair do escritrio e dirigirem-se 

para a porta. Monsieur deu as boas-noites e fechou a porta. 
Que horas eram? 
Umas dez horas e vinte e cinco minutos, monsieur. 
Sabe que horas eram quando M. Renauld se foi deitar? 
Ouvi-o subir a escada dez minutos depois de ns. A escada 

estala tanto que se ouve quando algum sobe ou desce. 
No ouviu nenhum rudo estranho durante a noite? 
Absolutamente nada, monsieur. 
Qual das criadas desceu primeiro, de manh? 
Eu, monsieur. Vi logo a porta aberta. 
E quanto s janelas do rs-do-cho, estavam todas fechadas? 

Todas! No havia nada de suspeito ou fora do seu lugar 
em lado nenhum. 

Muito bem, Franoise, pode ir. 
A velha dirigiu-se vagarosa, para a porta mas ao chegar 
olhou para trs e acrescentou: 

Digo-lhe uma coisa, monsieur: a tal Madame Daubreuil 
 m pea! Oh, sim, as mulheres conhecem-se! Lembre-se das 
minhas palavras! E Franoise saiu finalmente da sala, a 
acenar com a cabea, sensatamente. 

#
Lonie Oulard chamou o magistrado. 
Lonie apareceu lavada em lgrimas e um pouco histrica. 

M. Hautet soube lidar com ela. O depoimento da rapariga relacionou-
se principalmente com o facto de ter encontrado a 
patroa amordaada e amarrada, descoberta que relatou com 
grande exagero de pormenores. Como Franoise, tambm no 
ouvira nada durante a noite. 
Seguiu-se-lhe a irm, Denise, a qual confirmou que o patro 
mudara muito, ultimamente. 


Tornava-se dia a dia mais preocupado. Comia menos, 
estava sempre deprimido... Mas Denise tinha a sua teoria 
pessoal: Era com certeza a Mafia que lhe andava no encalo! 
Dois mascarados... que outra coisa poderia ser?  um bando 
terrvel! 


 possvel, claro admitiu o magistrado, benevolamente. 
Agora, minha filha, diga-mme quem abriu a porta a 


Madame Daubreuil, ontem  noite? 
Ontem  noite, no, monsieur, anteontem. 
Mas a Franoise acabou de nos dizer que Madame Daubreuil 
esteve aqui a noite passada... 
No, monsieur. A noite passada veio realmente uma senhora 
visitar M. Renauld, mas no era Madame Daubreuil. 


Surpreendido, o magistrado insistiu, mas a rapariga aguentou 


firme. Conhecia Madame Daubreuil perfeitamente, de vista. 
A senhora que l estivera na vspera tambm era morena, mas 
mais baixa e muito mais nova. Nada conseguiu demov-la das 
suas afirmaes. 


Alguma vez vira essa senhora, antes? 
Nunca, monsieur. E a rapariga acrescentou, timidamente:Mas 
creio que era inglesa. 


#
Inglesa? 

Sim, monsieur. Perguntou por M. Renauld num francs 
muito bom, mas o sotaque... enfim, percebe-se sempre, nest-ce 
ps? Alm disso, quando saram do escritrio vinham a falar 
ingls. 

Ouviu o que disseram? Isto , compreendeu o que disseram? 
Falo muito bem ingls informou Denise, toda orgulhosa. 
A senhora falava demasiado depressa e no consegui 

apanhar o que dizia, mas ouvi as palavras de monsieur, quando 
ele lhe abriu a porta. Fez uma pausa e depois repetiu, cuidadosamente 
e macarronicamente, as palavras ouvidas: Yes... 

yes... butt for Gods saike go nauw! 

Sim, sim, mas pelo amor de Deus agora v-se embora! 
traduziu o magistrado. 
Mandou Denise embora e, depois de reflectir um momento, 
chamou de novo Framoise. Perguntou-lhe se no seria possvel 
ter-se enganado na noite da visita de Madame Daubreuil. Mas 
Franoise mostrou-se inesperadamente obstinada: tinha sido 
na noite anterior! Era ela, sem dvida nenhuma.. A Denise 
quisera parecer interessante, voil tout! Por isso inventara a 
histria da senhora desconhecida. Quisera alardear os seus 
conhecimentos de ingls! Provavelmente Monsieur no dissera 
semelhante frase em ingls, e mesmo que tivesse dito no prvava 
nada, pois Madame Daubreuil falava ingls na perfeio 
e geralmente empregava essa lngua quando falava com M. e 
Madame Renauld. 

Compreende, M. Jack, o filho de Monsieur, estava geralmente 
presente e ele fala muito mal francs. 
O magistrado no insistiu. Fez perguntas acerca S motorista 
e foi informado de que, na vspera, M. Renauld dissera-,, 

#
que no tencionava utilizar o carro e que Masters pddia gozar 
uma folga. 
Vi uma ruga de perplexidade surgir entre os olhos de Poirot 
e perguntei-lhe; baixinho: 


Que ? 
Abanou a cabea, impacientemente, e perguntou por sua 
vez: 


Desculpe, M. Bex, mas M. Renauld sabia guiar o carro, 
pessoalmente? 
O comissrio olhou para Franoise, que respondeu sem 
hesitar: 


No, Monsieur no guiava. 
2-VAMP. G. 2 


#
A ruga de Poirot acentuou-se. 
Gostava que me dissesse o que o preocupa insisti, por 
meu turno impaciente. 
Ento no v? Na carta que me escreveu M. Renauld 


dizia que mandaria o carro buscar-me a Calais. 
Talvez se quisesse referir a um carro alugado sugeri. 
Sim, sem dvida era isso. Mas para qu alugar um carro 


quando se tem um? E porqu escolher o dia de ontem para dar 
folga ao motorista, repentinamente? Desejaria, por qualquer 
motivo, t-lo fora daqui, antes de chegarmos? 
CAPTULO IV 

A Carta Assinada Bella 

Franoise sara da sala e o magistrado tamborilava com os 
dedos no tampo da mesa, pensativamente. 

M. Bex, estamos perante depoimentos directamente 
contraditriosobservou, 
por fim. Em quem devemos acreditar, 
na Franoise ou na Denise? 
Na Denise respondeu o comissrio, decidido. Foi ela 

que abriu a porta  visitante e, alm disso, Franoise  velha e 
teimosa, alm de ser evidente que antipatiza com Madame 
Daubreuil. Alis, aquilo que ns prprios sabemos indica que 
Renauld andava metido com outra mulher. 

Tiens! exclamou o juiz de instruo. Esquecemo-nos 
de informar M. Poirot disso. Procurou entre os papis que 
estavam em cima da mesa e por fim estendeu um deles ao meu 
amigo. Encontrmos esta carta na algibeira do sobretudo 
do morto. 
Poirot pegou no papel e desdobrou-o. A carta estava um 
tanto ou quanto amarrotada e com sinais de uso e fora escrita 
em ingls numa caligrafia ainda um pouco imatura: 

#
Queridssimo: 

Porque no escreves h tanto tempo? Continuas a amar-me, 
no continuas? Ultimamente as tuas cartas tm sido to diferentes, 

frias e estranhas, e agora este longo silncio. Assusta-me. 
Ah, se deixasses de amar-me! Mas isso  impossvel. Que garota 
pateta eu sou, sempre a imaginar coisas! Mas se deixasses realmente 

de amar-me no sei que faria. Talvez me matasse. No 
poderia viver sem ti. s vezes receio que outra mulher se tenha 
atravessado entre ns. Ela que se acautele... e tu tambm! Mais 
depressa te mataria do que consentiria que fosses dela. Falo 
a srio. 
Mas c estou eu a escrever patetices, fantasias! Tu amas-me 
e eu amo-te... sim, amo-te, amo-te, amo-te! 
Da que te adora, 
Bella 

A carta no tinha endereo nem. morada. Poirot devolveuHa, 
com um ar muito grave. 
Daqui deduziram, Sr. Juiz...? . 
O juiz de instruo encolheu os ombros, ao responder: 

 evidente que M. Renauld tinha um romance com esta 
inglesa, com esta Bella. Mas veio para c, conheceu Madame 
Daubreuil e iniciou outro romance com ela. Arrefeceu em relao 

 outra que, acto contnuo, desconfiou de qualquer coisa. 
Esta carta contm uma ameaa clara.  primeira vista, o caso 
pareceu-nos de uma simplicidade extraordinria. Cime! O facto 
de M. Renauld ter sido apunhalado nas costas indicava claramente 

tratar-se de um crime de mulher. 
Poirot acenou afirmativamente. 
A punhalada nas costas, sim... mas a sepultura, no! 
Isso foi trabalho aturado, trabalho duro. No foi uma mulher 

#
que abriu a sepultura;  trabalho de homem. 

Claro, claro, tem razo! exclamou o comissrio, todo 

agitado. No tnhamos pensado nisso. 
Como estava a dizer prosseguiu M. Hautet ,  primeira 
vista o caso pareceu simples, mas os mascarados e a 

carta que o senhor recebeu de M. Renauld complicam as coisas. 
Parece estarmos perante um conjunto de circunstncias inteiramente 

diferentes, sem qualquer relao com as que primeiro 
se nos depararam. Quanto  carta que lhe foi dirigida, acha 
possvel que se relacionasse em qualquer sentido com a tal 
Bella e as suas ameaas? 

Dificilmente respondeu o detective, a abanar a cabea. 
Um homem como M. Renauld, que levou uma vida aventurosa 
em estranhos lugares, no pediria que o protegessem de 

uma mulher. 

O juiz de instruo acenou com a cabea, enfaticamente. 
Tal qual o que eu penso. Ento devemos procurar a explicao 
da carta... 
... em Santiago concluiu o comissrio. Telegrafarei 

sem demora  Polcia dessa cidade, pedindo pormenores completos 
da vida que a vtima l levava, dos seus romances amorosos, 
dos seus negcios, das suas amizades e das inimizades 

que porventura tivesse. Ser estranho se, depois disso, no ficarmos 

com uma pista para deslindar este misterioso homicdio. 
O comissrio olhou em seu redor, para ver se os outros 
aprovavam a sua ideia. 

Excelente disse Poirot, em tom apreciador. 
A mulher dele talvez nos possa dar tambm alguma 
pista sugeriu o magistrado. 
No encontraram outras cartas da tal Bella entre as coisas 

#
de M. Renauld? perguntou Poirot. 

No, Claro que uma das primeiras coisas que fizemos foi 
passar revista aos seus papis particulares, no escritrio. Mas 
no encontrmos nada de interesse, pareceu-nos tudo correcto 
e insuspeito. A nica coisa invulgar, digamos,  o seu testamento. 

Aqui o tem. 

Poirot leu o documento. 

Compreendo. Um legado de mil libras a favor de Mr. 
Stonor... A propsito, quem ? 

O secretrio de M. Renauld. Ficou em Inglaterra, mas 
veio c passar um ou dois fins-de-semana. 

E tudo o mais deixado incondicionalmente  sua querida 
esposa, Eloise. Redigido com simplicidade, mas perfeitamente 
em ordem do ponto de vista jurdico. Testemunhado por duas 
criadas, Denise e Franoise. No encontro nada de muito invulgar 

comentou o detective, e devolveu o documento. 

Talvez no tenha reparado... comeou Bex. 

Na data? interrompeu-o Poirot. Claro que reparei. 
Foi redigido h quinze dias. Possivelmente foi nessa altura que 
teve o primeiro pressentimento de perigo. Muitos homens ricos 
morrem intestados por nunca pensarem na possibilidade de 
falecerem. No entanto,  perigoso tirar concluses prematuramente. 
Quanto a mim, porm, o testamento indica sincera 
estima e afeio pela esposa, apesar das intrigas amorosas de 

M. Renauld. 
Sim concordou M. Hautet, duvidoso. Mas talvez 
seja um pouco injusto para com o filho, uma vez que o deixa 
completamente dependente da me. Se esta voltasse a casar e. 

o segundo marido tivesse ascendente sobre ela, o rapaz airriscava-se 
a no tocar num centavo, sequer, da fortuna do pai. 
#
Poirot encolheu os ombros. 
O homem  um animal vaidoso. M. Renauld pensou, 
sem dvida, que a mulher no voltaria a casar. Quanto ao filho, 
talvez tenha sido uma precauo sensata deixar o dinheiro 
nas mos da me. Os filhos dos homens ricos so proverbialmente 


desmiolados. 


Talvez seja como o senhor diz. Suponho que gostaria de 
ver o cenrio do crime, M. Poirot. Infelizmente o corpo j foi 
removido, mas, claro, tiraram-se fotografias de todos os ngulos 
possveis e imaginveis, as quais estaro ao seu dispor assim 
que estiverem prontas. 


Agradeo-lhe todas as demonstraes de cortesia. 
O comissrio levantou-se e convidou: 


Acompanhem-me, messieurs. 
Abriu a; porta e inclinounse cerimoniosamente, para que 
Poirot o precedesse. com igual cortesia, o detective recuou e 
inclinou-se por sua vez. 


Monsieur. 


Monsieur. 

Saram, por fim. 
Aquela sala ali  o escritrio, no ? perguntou Poirot, 
de sbito, inclinando a cabea na direco da porta oposta. 

. Gostaria de o ver?Sem esperar pela resposta, o 
comissrio abriu a porta e ns entrmos. 
O aposento que M. Renauld escolhera para seu uso particular 

era pequeno, mas estava mobilado com bom gosto e conforto. 

Junto da janela encontrava-se uma escrivaninha de tipo 
comercial, com muitos cacifos. Viradas para a lareira havia 
duas grandes poltronas forradas de couro e, entre elas, uma 
mesa redonda com os livros e as revistas mais recentes. Duas 

#
das paredes estavam cobertas por estantes e ao fundo da sala, 
defronte da janela, havia um bonito aparador de carvalho 
com um armrio de bebidas em cima. Os cortinados eram de 
um suave verde-bao, tom com o qual a carpete se harmonizava. 
Poirot deteve-se um momento a olhar e depois avanou, 
passou ao de leve a mo pelas costas das poltronas, pegou numa 
das revistas da mesa e passou hesitantemente um dedo pela 
superfcie de carvalho do aparador. O seu rosto exprimiu aprovao 

total. 

No h p? perguntei, a sorrir. 
Sorriu-me tambm, encantado com o meu conhecimento 
das suas maniazinhas. 
. Nem uma partcula, mon ami! E, para variar, talvez seja 
uma pena! 
Os seus olhos vivos, de pssaro, iam pousando aqui e ali, 
sem descanso. 

Ah! exclamou, de sbito, em tom de alvio. O tapete 
da lareira est torcido e, juntando o gesto  palavra, baixou-se 
para o endireitar. 
Nisto, soltou nova exclamao e levantou-se: tinha na 
mo um pequeno fragmento de papel. 

Em Frana como em Inglaterra, as criadas esquecem-se 
de varrer debaixo dos tapetes! comentou. 
Bex pegou no fragmento de papel e eu aproximei-me, para 
o observar. 

Sabe o que , no sabe, Hastings? 
Abanei a cabea, intrigado... embora aquele tom rosado 
no me fosse estranho. 
Os processos mentais do comissrio eram mais rpidos do 
que os meus, pois exclamou: 

#
Um bocadinho de um cheque! 
O pedacinho de papel teria uns 6 cm de superfcie e nele 
Lia-se, escrita a tinta, a palavra Duveen. 


Bien prosseguiu o comissrio >, este cheque era pagvel 
a um tal Duveen, ou foi sacado por ele. 
Inclino-me para a primeira hiptese declarou Poirot , 


pois se no me engano a caligrafia  de M. Renauld. 
Tirmos depressa as dvidas a esse respeito, comparando 
a letra do papel com a de um memorando da escrivaninha. 


Meu Deus murmurou o comissrio, um pouco desanimado 
, no percebo como deixei escapar isto! 
Poirot riu-se. 


Moral da histria: procure sempre debaixo dos tapetes! 
O meu amigo Hastings dir-lhe- que tudo quanto se encontra 
torto ou fora do lugar  um tormento para mim. Mal vi que 


o tapete no estava direito, disse para comigo: Tens! A perna 
da cadeira prendeu-se no tapete, ao ser puxada para trs. 
Talvez haja qualquer coisa debaixo do tapete que tenha passado 
despercebida  boa Franoise. 
Franoise? 
Ou Denise, ou Lonie, ou/ quem quer que arrumou esta 


sala. Como no h poeira, a sala deve ter sido arrumada esta 
manh. Reconstituo o incidente do seguinte modo: ontem, 
possivelmente  noite, M. Renauld passou um cheque  ordem 
de algum com o apelido de Duveen. Depois o cheque foi rasgado 

e atirado para o cho. Esta manh... 
Mas M. Bex puxava j impacientemente o cordo da campainha. 
Framoise atendeu. Sim, havia uma quantidade de bocadinhos 

de papel no cho. Que lhes fizera? Metera-os no fogo 
da cozinha, evidentemente! Que queriam que lhes tivesse feito? 

#
Bex mandou-a embora, com um gesto de desespero. Depois 

o seu rosto iluminou-se e correu para a escrivaninha. Pegou no 
livro de cheques da vtima e comeou a folhe-lo. Repetiu o 
gesto de desespero: o talo estava em branco. 
Coragem! aconselhou Poirot, dando-lhe uma palmada 
nas costas. Madame Renauld saber, sem dvida, esclarecer-nos 
acerca desta misteriosa pessoa de apelido Duveen. 
O rosto do comissrio animou-se. 
Tem razo. Prossigamos. 

Quando nos virvamos para sair do aposento, Poirot observou., 
em tom casual: 
Foi aqui que M. Renauld recebeu a visitante, ontem  

noite, hem? 
Foi... mas como soube? 
Disse-mo isto. Encontrei-o nas costas de uma das poltronas. 
E mostrou, seguro entre o polegar e o indicador, un 
comprido cabelo preto, um cabelo de mulher. 

M. Bex levou-nos pelas traseiras a um pequeno barraco, 
que se erguia encostado  casa. Tirou uma chave da algibeira 
e abriu-o. 
O corpo est aqui. Removemo-lo do cenrio do crime 
pouco antes de os senhores chegarem, em virtude de os fotgrafos 

terem acabado o seu trabalho. 
Abriu a porta e entrmos. O assassinado jazia no cho, 
tapado com um lenol. M. Bex destapou-o, com um movimento 

rpido. Renauld era um homem de altura mediana e esguio 
de figura. Aparentava uns cinquenta anos e tinha muitas madeixas 
grisalhas entre os cabelos escuros. Usava a cara rapada, 
tinha nariz comprido e delgado, olhos um pouco juntos e pele 
profundamente bronzeada, como a de um homem que passara 

#
a maior parte da vida sob cus tropicais. Os lbios arreganhados 
deixavam ver os dentes e nas feies lvidas estampara-se uma 
expresso de absoluto espanto e terror. 

V-se pelo rosto que foi apunhalado pelas costas observou 
Poirot. 
Cuidadosamente, virou o morto. Entre as omoplatas, manchando 

o sobretudo castanho-claro, via-se uma ndoa escura 
e redonda, no meio da qual a fazenda estava cortada. Poirot 
examinou atentamente a mancha. 
Faz alguma ideia de qual foi a arma do crime? perguntou. 

Ficou na ferida. 
O comissrio tirou de uma prateleira um grande frasco de 
vidro dentro do qual estava um pequeno objecto que me pareceu 

mais um abre-cartas do que outra coisa. Tinha cabo 
preto e lmina estreita e brilhante. Ao todo, no media mais 
de 25 cm de comprimento. Poirot tocou cautelosamente na 
ponta manchada, com a polpa do dedo. 

Ma foi, que afiado! exclamou. Um instrumentozinho 
prtico para matar! 
Infelizmente, no encontrmos nele quaisquer vestgios 

de impresses digitais informou Bex, pesaroso. O assassino 

deve ter usado luvas. 
Claro que usou comentou Poirot, com certo desdm. 
At em Santiago sabem o suficiente destas coisas para tomarem 
tal precauo. No entanto, interessa-me muito o facto 

de no ter impresses digitais nenhumas.  to extraordinria-
mente simples deixar as impresses digitais de qualquer outra 
pessoa! E quando isso acontece a Polcia fica feliz. Abanou 

a cabea. Receio muito que o nosso criminoso no seja um 
homem de mtodo... ou ento estava com pressa. Mas veremos. 

#
Reps o corpo na! posio primitiva. 
Reparo que s usava roupa interior debaixo do sobretudo... 
 verdade, e o juiz de instruo considera esse pormenor 

muito curioso. 
Nesse momento bateram  porta, que Bex fechara. O comissrio 
Apressou-se a abrir. Era Franoise, que tentou espreitar 

para o interior, com mrbida curiosidade. 
Que se passa? perguntou-lhe Bex, impaciente. 
Madame manda dizer que se sente muito melhor e que 


est pronta para receber o juiz de instruo. 

Muito bem. Informe M. Hautet e diga-lhe que vamos 
imediatamente. 
Poirot demorou-se um momento, a olhar para o corpo. 
Cheguei a pensar que ia apostrof-lo, declarar alto e bom som 
a sua. determinao de no descansar enquanto no descobrisse 

o assassino. Mas quando o meu amigo falou foi serena e 
desajeitadamente 
e o seu comentrio pareceu-me singularmente 
imprprio da solenidade do momento: 
Usava o sobretudo muito comprido disse, constramgido. 
CAPTULO V 


A Histria de Mrs. Renauld 

Encontrmos M. Hautet  nossa espera no vestbulo e dirigimo-nos 

todos para o andar de cima, com Franoise  nossa 
frente, a indicar o caminho. Poirot subiu aos ziguezagues, de 
uma maneira que me intrigou at que o ouvi dizer, com uma 
careta: 
No admira que as criadas ouvissem M. Renauld subir 
42 
a escada. No h uma nica tbua que no gema tamto que 
seria capaz de acordar os mortos! 

#
No cimo da escada havia um corredor, que bifurcava. 

As instalaes das criadas informou Bex, apontando 
para um dos lados. 
Seguimos pelo corredor principal e Framoise bateu  
ltima porta da direita. 
Uma voz fraca convidou-nos a entrar e penetrmos num 
aposento cheio de sol e com vista para o mar, que cintilava, 
azul, a cerca de 500 metros de distncia. 
Num sof, amparada por almofadas e entregue aos cuidados 
do Dr. Durand, encontrava-se uma mulher alta e de aspecto 
impressionante. Era uma senhora de meia-idade, cujo cabelo, 
que fora escuro, estava quase completamente grisalho; mas a 
sua intensa vitalidade e a fora da sua personalidade far-se-iam 
sentir fosse onde fosse. Compreendia-se imediatamente que se 
estava na presena daquilo a que os Franceses chamam une 

maitresse femme. 

Cumprimentou-nos com uma inclinao de cabea muito 
grave. 

Queiram sentar-se, messieurs. 
Sentmo-nos e o escrivo do juiz de instruo instalou-se 
a uma mesa redonda. 

Espero, madame comeou o magistrado, que no 
a transtorne demasiado relatar-nos o que aconteceu a noite 

De modo nenhum, monsieur. Compreendo que o tempo 
urge, se queremos que os malditos assassinos sejam apanhados 
e punidos. 

Muito bem, madame. Creio que se fatigar menos se eu 
lhe fizer perguntas e a senhora se limitar a responder. A que 
horas se deitou a noite passada? 
s nove e meia. Estava fatigada. 

E o seu marido? 

#
Cerca de uma hora depois, creio. 


Pareceu-lhe agitado... perturbado? 
No, no mais do que o usual. 
Que aconteceu depois? 
Adormecemos. Acordei quando uma mo me tapou a 


boca. Tentei gritar, mas a mo no me deixou. Estavam dois 


homens no quarto, ambos mascarados. 
 capaz de os descrever, madame? 
Um era muito alto e tinha uma comprida barba preta; 


o outro era baixo e forte, com uma barba arruivada Usavam 
ambos chapu puxado para os olhos. 
Hum... barbas a mais, receio murmurou o magistrado, 

pensativo. 
Quer dizer que eram postias? 
Exactamente, madame. Mas prossiga. 
Era o homem baixo que me segurava. Amordaou-me e 

depois atou-me com cordas, de ps e mos. O outro homem 
inclinava-se para o meu marido. Tirara o meu abre-cartas de 
cima do toucador e segurava-o, com o bico apontado ao corao. 

Quando o baixo acabou de me amarrar, juntou-se ao outro 
e obrigaram o meu marido a levantar-se e a acompanhrlo ao 
quarto de vestir contguo. Estava quase a desmaiar de terror, 
mas mesmo assim apurei desesperadamente o ouvido. 
Falavam em voz baixa, que no me permitia distinguir 

o que diziam. No entanto, reconheci a lngua, um espanhol 
macarrnico falado em certos lugares da Amrica do Sul. 
Pareciam exigir qualquer coisa ao meu marido e pouco depois 
irritaram-se e falaram um pouco mais alto. Creio que era o 
homem alto que falava: Sabe o que queremos!, declarou. 
O segredo! Onde est? No sei que lhe respondeu o meu 
#
marido, mas o outro replicou, furioso: Mente! Sabemos que o 
tem. Onde esto as suas chaves? 
Depois ouvi-os abrir gavetas. H um cofre de parede no 
quarto de vestir do meu marido, onde ele costumava guardar 
uma importncia relativamente grande em dinheiro. A Lonie 
disse-me que o cofre foi revolvido e o dinheiro tirado, mas  

evidente que no estava l o que procuravam, pois pouco depois 
ouvi o homem alto praguejar e ordenar ao meu marido que se 
vestisse. A seguir, creio que qualquer rudo da casa os assustou, 
pois empurraram o meu marido para o meu quarto, apenas 
meio vestido. 

Pardon interveio Poirot , mas no h outra sada 
do quarto de vestir? 
No, monsieur, h apenas uma porta de comunicao 
con o meu quarto. Empurraram o meu marido apressadamente, 

o homem baixo  frente e o alto atrs, ainda com o abre-cartas 
na mo. Paul tentou libertar-se e correr para mim. Vi-lhe os ] 
olhos angustiados. Virou-se para os captores e disse-lhes: Pr-< 
ciso de falar com ela. Depois aproximou-se da cama e disse-me: 
No h novidade, Eloise, no te assustes. Voltarei antes de 
amanhecer. Mas, embora se esforasse por falar em tom confiante, 
no me escapou o terror dos seus olhos. Em seguida 
empurraram-no pela porta fora, enquanto o alto ameaava: 
Uma palavra e ser um homem morto, no se esquea. 
Depois disso, devo ter desmaiado. S me lembro da Lonie a 
massajar-me os pulsos e a dar-me brande. 

Madame Renauld, faz alguma ideia do que os assassinos 
procuravam? perguntou o magistrado. . 
> Absolutamente nenhuma. 

Sabia se o seu marido receava alguma coisa? 

#
Sim, no me escapara a mudana que se operara nele. 
H quanto tempo foi isso? 

Mrs. Renauld pensou, amtes de responder: 
H uns dez dias, talvez. 
No ter sido h mais tempo? 
 possvel, mas eu s reparei nessa altura. 
Interrogou o seu marido acerca da causa de tal mudana? 
Uma vez, mas ele respondeu-me com evasivas. No entanto, 
eu estava convencida de que o atormentava qualquer 

ansiedade terrvel. Mas, como era evidente que desejava ocultar-me 

o facto, tentei fingir que no reparava em nada. 
Sabia que ele solicitara os servios de um detective? 
De um detective? repetiu Mrs. Renauld, muito surpreendida. 
Sim, deste cavalheiro: M. Hercule Poirot. O meu amigo 


inclinou-se, cerimonioso. Chegou hoje, em resposta a um 
apelo do seu marido. E, tirando a carta escrita por M. Renauld 
da algibeira, estendeu-a  senhora. 
Ela leu-a com um espanto aparentemente sincero. 
No fazia ideia nenhuma disto.  evidente que ele tinha 
perfeita conscincia do perigo que corria. 

Agora, minha senhora, rogo-lhe que seja franca comigo. 
Existe, no passado do seu marido na Amrica do Sul, algum 
incidente que possa lanar alguma luz sobre este crime? 
Mrs. Renauld meditou profundamente, mas acabou por 
abanar a cabea. 

No me lembro de nenhum. Claro que o meu marido 
tinha muitos inimigos, pessoas sobre as quais levara a melhor, 
de uma maneira ou doutra, mas no me lembro de nenhum 
caso isolado. No digo que no tenha havido o incidente a que 
aludiu, digo apenas que no estou ao corrente. 

#
O juiz de instruo afagou a barba, desconsoladamente. 
Sabe a que horas se deu esta afronta, agora? 
Sim, lembro-me perfeitamente de ouvir o relgio da chamin 
bater duas horas. Inclinou a cabea na direco de um 


relgio de viagem com estojo de cabedal, que se encontrava 
no centro da prateleira da chamin. 
Poirot levantou-se, observou o relgio com cuidado e acenou 
com a cabea, satisfeito. 


Temos aqui tambm um relgio de pulso observou 


M. Bex, certamente derrubado da mesa-de-cabeceira pelos 
assassinos e todo partido. Mal sabiam que serviria de prova 
contra eles! 
Cuidadosamente, retirou os fragmentos de vidro partido. De 
sbito, estampou-se-lhe no rosto uma expresso de absoluto 
espanto e exclamou: 
Ah, mon Dieu! 


Que ? 
Os ponteiros do relgio marcam sete horas! 
O qu?! gritou o juiz de instruo, perplexo. 


Mas Poirot, com a agilidade habitual, tirou o relgio das 
mos do pasmado comissrio e encostou-o ao ouvido. Depois 
sorriu. 


O vidro est partido, sem dvida, mas o relgio continua 
a trabalhar esclareceu. 
A explicao do mistrio foi acolhida com um sorriso aliviado. 


No entanto, o magistrado lembrou-se de outro pormenor: 
Mas agora no so sete horas, pois no? 
No, respondeu Poirot, suavemente. Passam alguns 


minutos das cinco. Talvez o relgio se adiante.  isso, madame? 
Adianta-se, de facto, mas nunca dei por que se adiantasse 


#
tanto! admitiu Mrs. Renauld, de testa franzida de perplexidade. 
com um gesto de impacincia, o magistrado ps de parte 
a questo do relgio e retomou o interrogatrio: 

Madame, a porta principal foi encontrada aberta. Parece 
quase certo que os assassinos entraram por l, embora no a 
tenham arrombado ou forado. Pode sugerir uma explicao? 

Talvez o meu marido tenha dado um passeio antes de 

se deitar e se esquecesse de a fechar, quando entrou. 
Acha isso provvel? 
Muito. O meu marido era o mais distrado dos homens. 

Franziu ligeiramente as sobrancelhas, ao falar, como se 
aquela caracterstica do defunto lhe tivesse causado algumas 
contrariedades. 

Creio que podemos deduzir uma coisa declarou, de 
sbito, o comissrio. Como os homens insistiram em que 

M. Renauld se vestisse, parece que o lugar aonde tencionavam 
lev-lo, o stio onde o segredo estava escondido, ficava a 
certa distncia. 
O magistrado acenou afirmativamente com a cabea: 
Sim, longe, mas no muito, visto ele ter falado em 
regressar de manh. 
A que horas parte o ltimo comboio da estao de Merliniville? 

perguntou Poirot. 
s onze e cinquenta num sentido e  meia-noite e dezassete 
no outro, mas  mais provvel que tivessem um automvel 

 espera 
Claro concordou Poirot, um pouco desanimado. 
Parece-me at que talvez haja uma maneira de lhes 

seguir a pista acrescentou o magistrado, com certo entusiasmo. 
Um automvel com dois desconhecidos no passou 

#
com certeza despercebido. Excelente ideia, M. Bex. 
Sorriu para consigo e depois, reassumindo o ar grave, disse 
a Mrs. Renauld: 

Desejo fazer-lhe ainda outra pergunta: conhece algum 
com o apelido de Duveen? 
Duveen? repetiu a senhora, pensativamente. No, 
de momento, no me lembro de ningum. 
Nunca ouviu o seu marido referir-se a algum com 

esse apelido? 
Nunca). 
Conhece algum cujo nome prprio seja Bella? 


Enquanto falava observava atentamente Mrs. Renauld, na 
esperana de surpreender quaisquer sinais de clera ou conhecimento, 


mas ela limitou-se a abanar a cabea, com naturalidade. 
Tem conhecimento de que o seu marido recebeu uma 
visita, a noite passada? prosseguiu o magistrado. 
Desta vez, vi um leve rubor subir s faces de Mrs. Renauld, 
que no entanto respondeu serenamente: 


No. Quem foi? 
Uma senhora. 
Deveras? 


Mas, de momento, o juiz de instruo no estava disposto 


a acrescentar mais nada. Parecia-lhe improvvel que Madame 
Daubreuil tivesse qualquer relao com o crime e no desejava 
transtornar Mrs. Renauld mais do que o indispensvel. 
Fez um sinal ao comissrio, que respondeu com um aceno 
de cabea. Depois levantou-se, atravessou o aposento e voltou 
com o frasco de vidro que vramos no barraco e do qual tirou 


o abre-cartas. 
Reconhece isto, madame? perguntou delicadamente. 
#
Ela soltou um gritinho. 


Sim,  o meu punhalzinho... viu a ponta e recuou, 
com os olhos dilatados de horror. Isso ... sangue? 


, sim, madame. O seu marido foi morto com esta arma. 
Afastou-a rapidamente do olhar da senhora. Tem a certeza 


absoluta de que se trata da que estava no seu toucador, 
ontem  noite? 


Oh, tenho! Foi um presente do meu filho, que prestou 
servio na Fora Area, durante a guerra. Mentiu na idade, 
disse que era mais velho explicou, com uma nota de orgulho 
maternal na voz. Mandou-a fazer do arame de um avio e 
ofereceu-ma como recordao.  


Compreendo. Isso conduz-nos a outro assunto: onde se ,__ 
encontra agora o seu filho?  necessrio telegrafar-lhe sem 
demora. 


Jack? Vai a caminho de Buenos Aires. 


O qu? 


 verdade. O meu marido telegrafou-lhe, ontem. Mandara-o 


tratar de negcios em Paris, mas ontem chegou  concluso 


de que era necessrio que seguisse sem demora para a 
Amrica do Sul. Partia um navio de Cherbourg para Buenos 
Aires, ontem  noite, e ele telegrafou-lhe para que embarcasse 


nele. 


Faz alguma ideia dos negcios de que o seu filho dever 
tratar em Buenos Aires? 


No, monsieur, a esse respeito no sei nada. Mas Buenos 
4 -VAMP. G. 2 


Aires no  o destino final do meu filho, que da dever seguir, 
por terra, para Santiago. 
O juiz e o comissrio exclamaram, em unssono: 


#
Santiago! Outra vez Santiago! 
Foi nessa altura em que estvamos todos atordoados com 
a meno da palavra que Poirot se acercou de Mrs. Renauld. 
At ento estivera de p junto da janela, como que absorto 
num sonho, e eu duvido que tenha prestado ateno a tudo 
quanto se passara. Deteve-se ao lado da senhora, inclinou a 
cabea e pediu: 

Pardon, madame, permite que lhe veja os pulsos? 
Embora ligeiramente surpreendida com o pedido, Mrs. Renauld 

estendeu-lhos.  volta de cada um havia um grande 
vergo encarnado, onde as cordas se tinham enterrado na carne. 
Enquanto Poirot lhe examinava os pulsos, pareceu-me ver 
extinguir-se um brilho de excitao que momentaneamente 
iluminara os olhos do meu amigo. 

Deve ter muitas dores observou, e mais uma vez me 
pareceu perplexo. 
Mas o juiz voltou a falar, agitadamente: 

 necessrio comunicar imediatamente, pela telegrafia 
sem fios, com o jovem M. Renauld!  de importncia fundamental 
para ns sabermos tudo quanto ele nos possa dizer 
acerca desta viagem a Santiago. Hesitou e acrescentou: 
Acalentara a esperana de que ele estivesse perto, para lhe 
evitarmos sofrimento, madame... 

Refere-se  identificao do corpo do meu marido? 
perguntou Mrs. Renauld, em voz baixa. 
O juiz baixou a cabea. 

Sou uma mulher forte, monsieur. Poderei suportar tudo 

quanto for necessrio. Estou pronta... j. 
Oh, amanh teremos tempo, asseguro-lhe! 
Prefiro tratar desse assunto sem demora insistiu Mrs. 

Renauld, com o rosto contrado por um espasmo de dor. 

#
Quer ter a bondade de me dar o brao, doutor? 

O mdico apressou-se a obedecer, Mrs. Renauld ps uma 
capa pelos ombros e um lento cortejo desceu a escada. M. Bex 
foi  frente, mais depressa, para abrir a porta do barraco. Um 
ou dois minutos depois Mrs. Renauld chegou  porta, muito 
plida, mas resoluta. Atrs dela, M. Hautet desfazia-se em desculpas 

e palavras de comiserao, como uma galinha choca. 
Ela levou a mo ao rosto e pediu: 
Um momento, messieurs, para me encher de coragem. 
Tirou a mo do rosto e olhou para o morto. Ento abamdonou-a 
todo o maravilhoso auto domnio de que at ali dera 
provas. 

Paul! gritou. Marido! Oh, meu Deus! E caiu para 
a frente, inconsciente. 
Poirot correu, lesto, para seu lado, levamtou-lhe uma plpebra 

e auscultou-lhe o pulso. Quando se convenceu de que ela 
desmaiara mesmo, afastou-se e agarrou-me no brao. 

Sou um imbecil, meu amigo! Se alguma vez a voz de 
uma mulher exprimiu amor e sofrimento, foi agora. A minha 
ideiazinha estava errada. Eh bien, tenho de recomear! 
CAPTULO VI 
O Cenrio do Crime 
O mdico e M. Hautet transportaram a senhora inconsciente 

para casa. O comissrio seguiu-os com o olhar, a abanar 
a cabea. 

Pauvre femme! murmurou. O choque foi de mais 
para ela. Enfim, no podemos fazer nada. M. Poirot, deseja 
ver o local onde o crime foi cometido? 

Se quiser ter a bondade, M. Bex... 
Atravessmos a casa e samos pela porta principal. Poirot 

#
olhou para a escada, ao passar, e abanou a cabea, descontente. 
Parece-me incrvel que as criadas no tenham ouvido 

nada. O estalar daquela escada, com trs pessoas a desc-la, 
chegaria para acordar os mortos! ;| 

Lembre-se de que foi no meio da -noite. Dormiam pr-fundamente, 
nessa altura. 
Mas Poirot continuou a abanar a cabea, como se a explicao 
no o convencesse por completo. Parou no caminho dos 
carros e olhou para a moradia. 

Que os ter levado, antes de mais nada, a experimentar 
a porta da frente, para ver se estava aberta? Seria muitssimo 
improvvel que estivesse. O mais natural teria sido tentarem 
imediatamente forar a janela. 

Mas todas as janelas do rs-do-cho tm barras de 
ferro lembrou o comissrio. 
Poirot apontou para uma janela do primeiro andar: 

Aquela  a janela do quarto onde estivemos, no ? 
Repare, h uma rvore pela qual seria faclimo trepar. 

Talvez admitiu o outro , mas no o poderiam ter 
feito sem deixarem pegadas no canteiro. 
Compreendi a lgica das suas palavras. Havia efectivamente 
dois grandes canteiros ovais com gernios escarlates, um de 
cada lado dos degraus de acesso  porta principal. A rvore 
em questo tinha as razes ao fundo do prprio canteiro e 
teria sido impossvel alcan-la sem pisar a terra. 

Devido ao tempo quente prosseguiu o comissrio ; 
no ficaram pegadas nos caminhos, mas na terra fofa do canteiro 

seria muito diferente. 
Poirot aproximou-se do canteiro e observou-o com ateno. 
Como Bex dissera, a terra estava perfeitamente lisa. No se 

#
via qualquer pegada. 
O meu amigo acenou com a cabea, como se estivesse convencido, 
e virmo-nos para seguir o nosso caminho, mas, de 
repente, ele voltou atrs e foi examinar o outro canteiro. 

M. Bex! chamou. Veja isto! Aqui tem pegadas com 
fartura. 
O comissrio juntou-se-lhe e sorriu. , 
Meu caro M. Poirot, essas impresses foram sem dvida 
deixadas pelas grandes botas cardadas do jardineiro. De qualquer 

modo, no teria importncia, pois como deste lado no 
h nenhuma rvore tambm no h nenhum acesso ao andar 
de cima. 

Tem razo admitiu o detective, visivelmente desanimado. 
Acha, portanto, que estas pegadas no tm importncia? 

Absolutamente nenhuma. 
Foi ento que, para meu espanto, Poirot pronunciou as 
seguintes palavras: 

No concordo consigo. Tenho c a impresso de que elas 
so as coisas mais importantes que j vimos, at agora. 

M. Bex limitou-se a encolher os ombros, sem responder. 
A sua grande delicadeza impedia-o de exprimir a sua verdadeira 
opinio. 
Prosseguimos? perguntou. 

com certeza. Posso investigar esta questo das pegadas 
mais tarde redarguiu Poirot, alegremente. 
Em vez de seguir pelo caminho de carros at ao porto, 

M. Bex meteu por um carreiro que dele partia, em ngulo 
recto. Levava, por uma ladeirazinha, ao lado direito da casa e 
era marginado por arbustos de ambos os lados. Inesperadamente, 
desembocava numa pequena clareira de onde se via o mar. 
#
Havia ali um banco e, a pouca distncia, uma barraca em 
runas. Mais alguns passos adiante, uma sebe de arbustos bem 
tratados assinalava os limites do terreno da moradia. M. Bex 
passou por entre os arbustos e encontrmo-nos num grande 
prado. Olhei  minha volta e vi algo que me surpreendeu. 

Mas isto  um campo de golfe! exclamei. 

As marcaes ainda no esto feitas explicou Bex, a 
acenar afirmativamente. Espera-se poder inaugur-lo para 

o ms que vem. Foram uns homens que c trabalham que descobriram 
o corpo, esta manh. 
Soltei uma exclamao abafada. Un pouco  minha esquerda 
havia uma cova estreita e comprida e, junto dela, de 
bruos, estava o corpo de um homem! O meu corao deu um 
pulo tremendo e por momentos tive a ideia louca de que a 
tragdia se repetira. Mas o comissrio dissipou a minha iluso 
ao avanar para a cova e dizer, irritado: 

Que tem andado a minha Polcia a fazer? Dei ordens 
rigorosas para que no deixassem aproximar-se ningum sem 
as necessrias credenciais! 
O homem deitado no cho olhou para trs, por cima do 
ombro, e replicou: 

Mas eu tenho as necessrias credenciais. E levantou-se, 
devagar. 

Meu caro M. Giraud, nem sequer sabia que j tinha 
chegado! exclamou o comissrio. O juiz de instruo tem 
estado  sua espera com a maior impacincia. 
Enquanto M. Bex falava, observei o desconhecido com a 
mxima curiosidade. Conhecia de nome o famoso detective da 
Sret de Paris e interessava-me muitssimo conhec-lo em 
carne e osso. Era muito alto, devia andar pelos trinta anos, 

#
tinha cabelo e bigode arruivados e porte marcial. Havia na 
sua altitude uma certa arrogncia denunciadora de que tinha 
plena conscincia da sua importncia. M. Bex procedeu s 
apresentaes e referiu-se a Poirot como a um colega. Brilhou 
uma chama de interesse nos olhos do detective francs. 

Conheo-o de nome, M. Poirot. Teve uma grande fama 
noutros tempos, no teve? Mas agora os mtodos so muito 
diferentes. 

Os crimes, porm, continuam a ser muito semelhantes 
redarguiu Poirot, suavemente. 
Compreendi logo que Giraud estava inclinado a mostrar-se 
hostil. Desagradava-lhe que o nome de Poirot se associasse ao 
seu e se descobrisse alguma pista importante o mais certo seria 
guard-la para si. 

O juiz de instruo...recomeou Bex, mas Giraud 
interrompeu-o grosseiramente: 

Estou-me nas tintas para o juiz de instruo! A luz  o 
importante, agora, e daqui a cerca de meia hora desaparecer. 
Sei tudo acerca do caso e a gente da casa pode esperar muito 
bem at amanh. Se h alguma pista a encontrar, para deteco 
dos criminosos,  aqui que deve ser procurada. Foram os seus 
polcias que andaram por a a pisar tudo? Supunha que, presentemente, 

j estavam melhor informados... 

E esto, sem dvida. As marcas de que se queixa foram 
feitas pelos trabalhadores que descobriram o corpo. 
O outro resmungou, irritado. 

Consigo ver os rastos dos trs, no ponto onde passaram 
pela sebe, mas os tipos foram espertos... As pegadas do centro 
podem-se identificar como as de M. Renauld, mas as dos lados 
foram cuidadosamente obliteradas. Claro que neste terreno 

#
duro pouco se veria, mas eles no quiseram correr riscos. 
E os sinais externos observou Poirot.  isso que procura, 
hem? 

O outro detective fitou-o, muito srio, e replicou: 

Evidentemente. 
Um leve sorriso entreabriu os lbios de Poirot. Pareceu 
prestes a falar, mas desistiu. Inclinou-se para uma p, cada 
no cho. 

Foi com isso que abriram a cova, sem dvida declarou 
Giraud. Mas no lhe dir nada. Pertencia ao prprio Renauld 
e o homem que a manejou usou luvas. Aqui esto. Apontou 
com o p um par de luvas sujas de terra. Tambm so do 
Renauld... ou pelo menos do seu jardineiro. J lhe disse que os 
homens que planearam este crime no correram riscos. A vtima 
foi apunhalada com o seu prprio punhal e teria sido enterrada 
com a sua prpria p. Estavam decididos a no deixar quaisquer 
vestgios, mas eu venc-los-ei. H sempre qualquer coisa! E eu 
estou decidido a encontr-la. 
Mas, entretanto, Poirot parecera interessar-se por outra 
coisa: um bocado de cano de chumbo manchado, que se encon


trava cado ao lado da p. Tocou-lhe delicadamente, com um 
dedo. 

E isto tambm pertence ao assassinado? perguntou, e 
eu tive a impresso de detectar uma subtil ironia na pergunta. 
Giraud encolheu os ombros, dando a entender que no sabia 
nem lhe interessava. 

Pode estar a cado h semanas. De qualquer modo, no 
me interessa. 
Eu, pelo contrrio, acho-o muito interessante disse 
Poirot, brandamente. 

#
Calculei que pretendia apenas irritar o detective parisiense, 
e se assim era conseguiu-o. O outro virou-lhe grosseiramente 
as costas, declarando que no podia perder tempo, baixou-se 
e reatou o exame minucioso do solo. 
Entretanto, como se lhe acudisse uma ideia sbita, Poirot 
transps a sebe e experimentou a porta da pequena barraca. 


Isso est fechado  chave informou Giraud, por cima 
do ombro. Mas  apenas um lugar onde o jardineiro guarda 
a sua tralha. A p no veio da e, sim, do barraco de ferramentas 


existentes atrs da casa. 
Maravilhoso! disse-me M. Bex, num murmrio extasiado. 
Chegou apenas h meia hora e j sabe tudo! Extraordinrio! 

No h dvida de que Giraud  o maior detective vivo! 
Embora antipatizasse vivamente com o detective francs, a 
verdade  que me sentia secretamente impressionado. O indivduo 

parecia irradiar eficincia. No pude deixar de pensar 
que, at ento, Poirot no fizera nada de excepcional, e isso 
humilhava-me. Parecia empenhado em concentrar a ateno 
em toda a espcie de pormenores estpidos e pueris, que no 
tinham nada a ver com o caso. Como que a dar razo aos meus 

pensamentos, 
ouvi-o perguntar, nesse momento: 

M. Bex, quer ter a bondade de me explicar o significado 
deste trao a cal que contorna toda a sepultura?  obra da 
Polcia? 
56 
No, M. Poirot,  obra do campo de golfe. Indica que 

haver aqui um bunker, como vocs dizem. 
Um bunker? perguntou Poirot, virando-se para mim. 
 aquele buraco irregular cheio de areia e com um aterro a 

um lado, no ? 

#
Confirmei. 
No joga golfe, M. Poirot? inquiriu Bex. 
Eu? Nunca! Que jogo! exclamou, todo agitado. Im


gine, cada buraco tem um tamanho diferente, os obstculos 
no esto simetricamente dispostos e at a relva costuma ser 
s por um lado acima! H apenas uma coisa agradvel: os 
montinhos... como  que vocs lhes chamam? J sei, as tee 
boxes! Essas pelo menos so simtricas. 
No pude deixar de me rir da maneira como Poirot via o 
jogo, e o meu amigo sorriu-me afectuosamente, sem levar a 
mal. Depois perguntou: 

Mas M. Renauld jogava golfe, sem dvida? 

Sim, era um entusiasta. Foi at em grande parte devido 
a ele e s suas generosas contribuies que este trabalho andou 
para a frente. At participou na sua concepo. 
Poirot acenou com a cabea, pensativamente, e depois 
observou: 

No fizeram uma boa escolha... refiro-m ao lugar para 

enterrar o corpo. Quando os homens comeassem a cavar descobrir-se-ia 
tudo. 
Exactamente! exclamou Giraud, triunfante. E isso 

prova que desconheciam a localidade, no eram de c. A tem 
uma excelente prova indirecta. 

Sim... concordou Poirot, duvidoso. Uma pessoa que 
conhecesse o local no enterraria um corpo a... a no ser... 
a no ser que quisesse que fosse descoberto. E isso  claramente 

absurdo, no ? 
Giraud nem sequer se deu ao trabalho de lhe responder. 
Sim... murmurou Poirot, em tom de desagrado. Sim, 
indubitavelmente absurdo! 

#
CAPTULO VII 

A Misteriosa Madame Daubreuil 

Ao regressarmos a casa, M. Bex desculpou-se por ter de nos 
deixar e explicou que tinha de informar imediatamente o juiz 
de instruo da chegada de Giraud. Quanto a este, ficara visivelmente 

encantado quando Poirot declarara que vira tudo 
quanto queria. A ltima coisa que vramos, ao abandonar o 
local, fora Giraud de gatas, a prosseguir a busca com uma 
mincia que eu no podia deixar de admirar. Poirot adivinhou 
os meus pensamentos, pois assim que ficmos ss observou, 
irnico: 

Viu finalmente o detective dos seus sonhos, o co de caa 
humano! No  verdade, meu amigo? 

Pelo menos ele est a fazer alguma coisa repliquei, 
spero. Se h algo para encontrar, ele encontr-lo-, ao passo 
que voc... 

Eh bien, eu tambm encontrei alguma coisa! Um bocado 
de cano de chumbo! 

Que disparate, Poirot! Sabe muito bem que isso no tem 
nada a ver com o caso. Refiro-me a pequenas coisas, pistas que 
nos podero conduzir infalivelmente aos assassinos. 

Mon ami, uma pista de sessenta centmetros vale tanto 
como uma de seis milmetros. Mas existe a romntica ideia de 
que todas as pistas importantes devem ser infinitesimais! 
Quanto ao cano de chumbo no ter nada a ver com o crime, 
diz isso porque Giraud o disse. No interrompeu-me, quando 
eu ia a fazer uma pergunta , no diremos mais nada. Deixe o 
Giraud com as suas buscas e a mim com as minhas ideias. 
O caso parece simples, e no entanto... e no entanto, mon ami, 
no estou satisfeito! E sabe porqu? Por causa do relgio de 
pulso adiantado duas horas. E depois h diversos outros pormenorzinhos 

#
curiosos, que no me parecem ajustar-se... Por exem


plo, se o mbil dos assassinos era a vingana, porque no apunhalaram 

Renauld enquanto dormia e pronto? 
Queriam o segredo recordei-lhe. 
Poirot sacudiu um grozinho de p da manga, com ar de 
descontentamento. 

Bem, mas onde estava esse segredo? Presumivelmente 
longe, pois quiseram que Renauld se vestisse. Contudo, foi encontrado 

assassinado aqui perto, to perto que se gritasse 
talvez o tivessem ouvido em casa. H ainda o puro acaso de 
uma arma como o punhal abre-cartas estar a,  mo... Fez 
uma pausa, de testa franzida, e depois prosseguiu: Porque 
no ouviram as criadas nada? Tinham sido drogadas? Havia um 
cmplice que se encarregou de abrir a porta principal? Pergunto 

a mim mesmo se... 
Calou-se, bruscamente. Chegramos ao caminho de carros, 
defronte da casa. Poirot virou-se para mim e declarou: 


Meu amigo, vou surpreend-lo... para lhe agradar! Levei 


as suas censuras a peito! Vamos examinar algumas pegadas! 
Onde? 
Ali naquele canteiro do lado direito. M. Bex diz que so 


pegadas do jardineiro. Vejamos se assim . A vem ele, com o 
seu carrinho de mo. 
Efectivamente, um homem idoso atravessava o caminho, 
com um carrinho de mo cheio de plantas. Poirot chamou-o 
e o homem largou o carro e manquejou direito, a ns. 


Vai-lhe pedir uma das botas, para comparar com as 
pegadas? perguntei, ofegante. 
A minha f em Poirot reanimou-se um pouco. Se ele dizia 
que as pegadas do canteiro do lado direito eram importantes, 


#
presumivelmente eram mesmo. 
Exactamente respondeu-me. 
Ele no achar muito estranho? 
Nem sequer dar por isso. 
No pude dizer nada, pois o velho alcanara-nos. 
Deseja alguma coisa de mim, monsieur? 


Desejo, sim. H muito tempo que  jardineiro nesta casa, 


no  verdade? 
H vinte e quatro anos, monsieur. 
Como se chama? 
Auguste, monsieur. 
Estive a admirar estes magnficos gernios. So verdadeiramente 
soberbos! Foram plantados h muito tempo? 
H algum, monsieur. Mas, claro, para manter os canteiros 
bonitos  preciso ir sempre pondo plantas novas, tirando 


as murchas e apanhando as flores velhas. 
Ontem plantou alguns ps novos, no plantou? Aqueles 
ali do meio e os do outro canteiro tambm. 
O senhor tem um olhar a que no escapa nada! So 
sempre precisos um ou dois dias para elas arrebitarem.  verdade, 

plantei dez ps novos em cada canteiro, a noite passada. 
Como o senhor sabe, com certeza, no se devem colocar plantas 
novas quando o sol est quente. 
Auguste estava encantado com o interesse de Poirot e disposto 


a tagarelar. 
Aquele ali  um belo espcime elogiou Poirot, apontando. 


No me pode dar um rebento? 
Mas com certeza, monsieur. O velho entrou no canteiro 
e, cuidadosamente, cortou um rebento da planta que 


Poirot admirara. 


#
O detective desfez-se em agradecimentos e Auguste voltou 
para o seu carro de mo. 


Est a ver? perguntou-me o meu amigo, inclinando-se 
para o canteiro a fim de examinar a impresso deixada pela 
bota cardada do jardineiro.  muito simples. 


No imaginei... 
Que o p estaria dentro da bota? No utiliza suficientemente 
as suas excelentes faculdades mentais. Ento, que me 


diz da pegada? 
Examinei o canteiro cuidadosamente. 


Todas as pegadas que esto aqui foram deixadas pela 
mesma bota disse, por fim. 
Acha? Eh bien, concordo consigo. 

Poirot parecia completamente desinteressado, como se estivesse 
a pensar noutra coisa qualquer. 
Pelo menos agora fica com menos uma abelha no bon 

comentei. 
Ah, mon Dieu, que idioma o vosso! Que significa isso? 
O que quis dizer foi que, depois disto, j pode abandonar 

o seu interesse por aquelas pegadas. 
Mas, para minha surpresa, Poirot abanou a cabea. 
No, no, mon ami! Encontro-me finalmente no bom 
caminho. Ainda estou s escuras, como se costuma dizer, mas, 
como observei h pouco a M. Bex, aquelas pegadas so a coisa 
mais importante e interessante do caso! Aquele pobre Giraud... 
no me admiraria nada se nem reparasse nelas. 
Nesse momento a porta principal abriu-se e M. Hautet e o 
comissrio desceram os degraus. 

amos procur-lo, M. Poirot informou o magistrado. 
Est a fazer-se tarde, mas desejo visitar Madame Daubreuil. 

#
Deve estar muito transtornada com a morte de M. Renauld e 
talvez tenhamos a sorte de obter alguma indicao, atravs-. 
dela.  possvel que ele tenha confiado  mulher cujo amor 

o escravizava o segredo que no confiou  esposa. Sabemos 
onde reside a fraqueza dos nossos Sanses, no  verdade? 
Admirei o pitoresco da linguagem de M. Hautet e desconfiei 
de que o juiz de instruo estava a saborear agradavelmente o 
seu papel no misterioso drama. 
M. Giraud no nos acompanha? perguntou Poirot. 
M. Giraud deu claramente a entender que prefere conduzir 
as investigaes  sua maneira respondeu M. Hautet, 
secamente. 
Era fcil ver que o tratamento grosseiro de Giraud, em 
relao ao juiz de instruo, no dispusera este a seu favor. 
No dissemos mais nada e pusemo-nos a caminho. Poirot ia 

com o magistrado e o comissrio e eu fechvamos a marcha, 
alguns passos atrs. 

No h dvida de que a histria da Franoise est 
substancialmente correcta disse-me o comissrio, em tom 
confidencial. Telefonei para a sede e parece que, nas ltimas 
seis semanas (isto , desde que M. Renauld chegou a Merlinville), 

Madame Daubreuil depositou por trs vezes avultadas 
importncias em notas na sua conta bancria. Ao todo, a 
bonita quantia de duzentos mil francos! 

Meu Deus! exclamei, enquanto fazia contas de cabea. 

Isso deve rondar pelas quatro mil libras! 

Exactamente. No h dvida de que ele estava absolutamente 

apaixonado. O que resta saber  se lhe confiou o seu 
segredo. O juiz de instruo tem esperanas disso, mas eu 
confesso que no compartilho a sua opinio. 

#
Enquanto conversvamos descamos a alameda que levava 

 encruzilhada da estrada onde o nosso carro parara ao princpio 
da tarde. No tardei a compreender que a Villa Marguerite, 
a residncia da misteriosa Madame Daubreuil, era a casinha 

de onde vira sair a bonita jovem. 

Ela mora aqui h muitos anos informou o comissrio, 
inclinando a cabea na direco da casa. Muito sossegada e 
pacatamente, diga-se. Parece no ter amigos nem parentes, ningum 

tirando os conhecimentos que travou em Merlinville. 
Nunca se refere ao passado nem ao marido. Nem sequer sabemos 

se ainda vive ou se j morreu. Envolve-a uma aura de 
mistrio, compreende? 
Acenei afirmativamente, com interesse crescente. 

E... a filha? arrisquei. 

Uma jovem deveras bonita... modesta, devota, tudo 
quanto convm. Causa pena, pois embora ela possa no saber 
nada do passado da me, um homem que deseje pedir a sua 
mo tem necessariamente de se informar e ento... O comissrio 

encolheu os ombros, cinicamente. 

Mas ela no tem culpa nenhuma! exclamei, com 

grande indignao. 
Pois no, mas que quer? Um homem  exigente no tocante 
aos antecedentes da mulher. 

A chegada  porta impediu-me de continuar a protestar. 

M. Hautet tocou  campainha. Decorreram alguns minutos e 
depois ouvimos passos no interior e a porta abriu-se. No limiar 
apareceu a minha jovem deusa daquela tarde. Quando nos viu 
a cor desapareceu-lhe das faces, deixando-a mortalmente plida, 
e os seus olhos dilataram-se, apreensivos. No podiam restar 
dvidas, tinha medo. 
#
Mademoiselle Daubreuil comeou M. Hautet, tirando 
galantemente o chapu , lamentamos muitssimo incomod-la, 
mas as exigncias do ofcio... compreende, no  verdade? 
Apresente os meus cumprimentos  senhora sua me e pergunte-lhe 

se quer ter a bondade de me conceder alguns minutos 
de ateno. 
A rapariga permaneceu imvel, por momentos, com a mo 
esquerda comprimida contra o peito, como se quisesse dominar 
a sbita e imperiosa agitao do seu corao. Mas logo a 
seguir controlou-se e disse, em voz baixa:  

Vou ver. Faam o favor de entrar. 
Entrou numa sala do lado esquerdo do vestbulo -e ouvimos 

o murmrio abafado da sua voz. Seguiu-se outra voz de timbre 
muito semelhante, mas com uma inflexo ligeiramente mais 
dura: 
com certeza. Manda-os entrar. 
No minuto seguinte estvamos cara a cara com a misteriosa 
Madame Daubreuil. 
No era to alta como a filha e as curvas arredondadas da 
sua figura tinham toda a graa da maturidade plena. O cabelo, 
tambm diferente do da filha, era escuro e penteado com 
risco ao meio, no estilo madona, e os olhos, semiocultos pelas 
plpebras descidas, eram azuis. Tinha uma covinha no queixo 
arredondado e os lbios entreabertos pareciam pairar eterna


mente na iminncia de um sorriso misterioso, Havia nela um 
nonsei-qu de quase exageradamente feminino, ao mesmo 
tempo submisso e sedutor. Embora muito bem conservada, 
via-se perfeitamente que j no era jovem, mas o seu encanto 
pertencia ao tipo que no tem nada a ver com a idade. 
Ali parada, de vestido preto suavizado pela frescura da 

#
gola e dos punhos brancos, e com as mos apertadas uma na 

outra, parecia subtilmente cativante e desamparada. 
Deseja falar comigo, monsieur? 
Sim, madame. M. Hautet pigarreou. Estou a investigar 
a morte de M. Renauld. Certamente j ouviu falar? 

A mulher inclinou a cabea, em silncio, e a sua expresso  
no se modificou. 

Viemos perguntar-lhe se poder... enfim... se poder 
lanar alguma luz sobre as circunstncias que rodearam o 
crime. 

Eu? O tom de surpresa da sua voz era excelente. 
Sim, madame. Talvez fosse melhor se pudssemos falar 
consigo a ss... M. Hautet olhou significativamente na direco 
da rapariga, 
Madame Hautet virou-se para ela e murmurou: 
Marthe, minha querida... 
Mas a jovem abanou a cabea. 

No, maman, fico. No sou uma criana, tenho vinte e 
dois anos. Fico. 
Madame Daubreuil voltou-se de novo para o juiz de instruo 


e comentou apenas: 
Bem v, monsieur... 
Preferia falar sem que Mademoiselle Daubreuil estivesse 


presente. 


Como ela prpria disse, a minha filha no  uma criana. 
O magistrado hesitou momentaneamente, sem saber que 
fazer. 


Muito bem, madame, como queira declarou por fim. 


Temos motivos para crer que era seu hbito visitar a vtima 
 noite, na moradia dele.  verdade? 


#
A cor inundou as faces plidas da mulher, que respondeu 

calmamente: 

Nego-lhe o direito de me fazer tal pergunta! 

Madame, estamos a investigar um assassnio. 

E depois? Eu no tive nada a ver com isso. 

No dissemos semelhante coisa, madame. Mas conhecia 
bem a vtima e por isso aqui estamos. Ele fez-lhe confidncias 
acerca de qualquer perigo que o ameaava? 

Nunca. 

Falou-lhe alguma vez da sua vida em Santiago e de quaisquer 

inimigos que porventura l tivesse? 

No. 

Ento no nos pode dar nenhuma ajuda? 

Receio bem que no. Francamente, nem compreendo 
porque vieram procurar-Mme. A mulher dele no sabe dizer-lhes 

o que pretendem saber? Desta vez havia na sua voz uma 
leve inflexo de ironia. 

Madame Renauld disse-nos tudo quanto sabia. -

Ah! AdmiraHme... 

Admira-a o qu, madame! 

Nada. 

O juiz de instruo fitou-a. Tinha perfeita conscincia de 

que travava um duelo e de que a adversria era de respeito. 
Persiste na afirmao de que M. Renauld no lhe fez 
nenhumas confidncias? 
Porque pensa que seria provvel ele fazer-me confidncias? 

M. Hautet respondeu com calculada brutalidade: 
Porque, madame, um homem diz  amante o que nem 
sempre diz  esposa. 
Oh! A mulher saltou para a frente, com os olhos a 
despedirem fogo. Insultar-me, monsieur! E diante da minha 

#
5 -VAMP. G. 2 


filha! No lhe sei dizer nada. Tenha a bondade de sair da minha 
casa!! 
As honras do combate pertenceram, sem dvida,  mulher. 
Samos da Villa Marguerite como um grupo de colegiais envergonhados. 


O magistrado resmungava entre dentes, furioso, e 
Poirot parecia perdido nos seus pensamentos. De sbito, despertou 
do seu devaneio com um sobressalto e perguntou a 

M. Hautet se havia um bom hotel nas imediaes. 
H um pequeno, o Hotel ds Bains, deste lado da cidade. 
Fica na estrada, a poucas centenas de metros. Est bem situado, 
para as suas investigaes. Presumo que voltaremos a v-lo 
de manh? 

Sem dvida. Obrigado, M. Hautet. 
SeparmoHnos com uma troca de palavras corteses, Poirot 
e eu na direco de Merlinvilte e os outros de regresso  Villa 
Genevive. 

O sistema da Polcia francesa  uma maravilha comentou 

Poirot, seguindo-os com o olhar.  extraordinrio como 
conseguem possuir informaes acerca da vida de toda a gente, 
at aos pormenores mais corriqueiros. Embora ele s tenha 
vindo para c h pouco mais de seis semanas, esto perfeitamente 

informados dos gostos e das actividades de M. Renauld 
e, a bem dizer do p para a mo, obtiveram informaes quanto 
 conta bancria de Madame Daubreuil e s importncias ultimamente 

nela depositadas! No h dvida, o dossier  uma 
grande instituio. Mas... que  aquilo? perguntou, virando-se 
bruscamente. 
Um vulto sem chapu corria pela estrada abaixo, ao nosso 
encontro. Era Marthe Daubreuil. 

#
Peo desculpa... murmurou, ofegante, quando nos alcanou. 

No devia fazer isto, bem sei... e peo-lhe que no 
diga nada  minha me. Mas  verdade o que as pessoas dizem, 
que M. Renauld mandou chamar um detective amtes de morrer 
e que... e que o detective  o senhor? 

 verdade, mademoiselle, respondeu Poirot, delicadamente. 
Mas como soube? 
>A Franoise contou  nossa Amlie explicou Marthe, 
corando. 
Poirot fez uma careta. 


O sigilo  impossvel num caso desta natureza! No 
importa, alis. Bem, mademoiselle, que deseja saber? 
A rapariga hesitou. Parecia simultaneamente desejosa e 
receosa de falar. Por fim perguntou, quase num sussurro. 


Suspeitam de algum? 


Poirot fitou-a demoradamente e, por fim, respondeu, evasivo: 
Presentemente a suspeita anda no ar, mademoiselle. 
Sim, bem sei... mas.algum em particular?... 
Porque deseja saber? 


A pergunta pareceu assust-la. Vieram-me de sbito  memria 
as palavras que Poirot dissera a seu respeito, horas amtes: 
a rapariga dos olhos ansiosos! 

M. Renauld foi sempre muito amvel comigo respondeu, 
por fim.  natural que sinta interesse .. 
Compreendo. Bem, mademoiselle, presentemente a suspeita 
paira sobre duas pessoas. 
Duas? 
Juraria que havia uma nota de surpresa e alvio na sua voz. 
Ignora-se como se chamam, mas presume-se que sejam 
chilenas, de Santiago. Est a ver o resultado de ser jovem e 

#
bonita? Revelei-lhe segredos profissionais! 
A rapariga riwse, alegre, e depois agradeceu-lhe, com certa 
timidez. 


Tenho de regressar. A maman dar pela minha falta. 
Virou-nos as costas e desatou a correr pela estrada acima, 
como uma moderna Atlanta. Segui-a com o olhar. 


Mon ami perguntou Poirot, em tom suave e irnico , 
vamos ficar aqui especados toda a noite, s porque viu uma 
bonita rapariga e tem a cabea a andar  roda? 
Ri-me e pedi desculpa. 


Mas l bonita  ela, Poirot!  compreensvel que qualquer 
homem fique boquiaberto por sua causa. 
Mon Dieu! gemeu o meu amigo. Mas que corao 


susceptvel o seu! 
Poirot, lembra-se, depois do caso de Styles, quando... 
Quando ficou apaixonado por duas mulheres ao mesmo 


tempo, sem que nenhuma delas fosse para si? Lembro-me, sim. 
Voc consolou-me dizendo que talvez um dia voltssemos 
a caar juntos e ento... 
Eh bien? 

Enfim, estamos novamente a caar jumtos e... Calei-me 
e dei uma gargalhada, constrangido. 
Mas, para minha surpresa, Poirot abanou a cabea, veementemente. 

Ah, mon ami, no prenda o corao a Marthe Daiubreudl! 
Ela no  para si. Acredite,  o pap Poirot quem lho diz! 
Porqu? O comissrio afirmou-me que ela  to boa 
quanto bonita! Um verdadeiro anjo! 
Alguns dos maiores criminosos que tenho conhecido 
tinham cara de anjos observou Poirot, risonho. Uma malformao 
das clulas cinzentas pode coincidir perfeitamente 

#
com um rosto de madona. 
Poirot, com certeza no suspeita de uma criana inocente 
como ela! protestei, horrorizado. 
Ora, ora! No se excite, pois eu no disse que suspeitava 

dela. Deve admitir, no entanto, que a sua ansiedade em saber 

o que se passa  um tanto ou quanto estranha. 
Para variar, vejo mais longe do que o senhor. A ansiedade 
no  por ela, mas sim pela me. 
Meu amigo, como de costume no v nada. Madame 
Daubreuil  muito capaz de olhar por si prpria, sem que a 
filha precise de se preocupar a esse respeito. Confesso que h 
pouco pretendi arreli-lo, mas mesmo assim repito o que disse 
antes: no prenda o corao quela rapariga. Ela no  para si! 

Eu, Hercule Poirot, sei que no . Sacr, se ao menos me conseguisse 
lembrar onde j vi aquela cara! 
Que cara? perguntei, surpreendido. A da filha? 
No, a da me. 

Reparando na minha surpresa, acenou enfaticamente com 
a cabea e acrescentou: 

Sim,  como lhe digo. Foi h muito tempo, quando eu 
ainda pertencia  Polcia, na Blgica. Nunca vi, realmente, a 
mulher, antes, mas vi a sua fotografia... e em relao com um 
processo qualquer. Tenho a impresso... 

Tem a impresso de qu? 

Posso estar enganado, mas tenho a impresso de que se 
tratava de um caso de assassnio! 
CAPTULO VIII 
Um Encontro Inesperado 
Na manh seguinte apresentmo-nos cedo na moradia. Desta 
vez, o homem que guardava o porto no nos barrou o ca


#
minho. Pelo contrrio, saudou-nos respeitosamente e deixou-nos, 
entrar. A criada Lonie descia a escada e no pareceu desagradar-lhe 


a ideia de uma conversazinha. 
Poirot perguntou-lhe pela sade de Mrs. Renauld. 
Lone abanou a cabea. 


Est transtornadssima, la pauvre dame No come nada, 
nada! E est plida como um fantasma! Corta o corao v-la, 
coitadinha. Ah, par example, no seria eu que choraria daquela 
maneira por um homem que me tivesse enganado com outra 
mulher! 
Poirot acenou com a cabea, compreensivamente. 
O que diz est muito certo, mas que quer? O corao da 
mulher que ama esquece muitas feridas. com certeza no faltaram 


cenas de recriminao entre eles, nos ltimos meses? 


Lonie voltou a abanar a cabea: 


Nunca, monsieur. Nunca ouvi a senhora soltar uma 
palavra de protesto ou sequer de censura! Tem o gnio e o 
feitio de um anjo,  muito diferente do marido. 
Monsieur Renauld no tinha o feitio de um anjo? 


Longe disso! Quando se zangava toda a casa sabia. No 
dia em que discutiu com M. Jack... ma foi, gritaram tanto que 
devem t-los ouvido no mercado! 


E quamdo foi essa discusso? perguntou PoirOt. 
Pouco antes de M. Jack partir para Paris. At ia perdendo 


o comboio! Saiu da biblioteca e pegou na mala, que deixara no 
vestbulo. O automvel estava a reparar e ele teve de correr 
para a estao. Eu estava a limpar o p, na sala, e vi-o passar. 
Tinha a cara muito branca e com duas rosetas encarnadas. Ah, 
como estava furioso! 
Lonie parecia encantada com o que contava. 
#
Porque discutiriam? 

Isso no sei.  verdade que gritavam, mas falavam to 
alto e to depressa que s uma pessoa que soubesse muito bem 
ingls os teria conseguido compreender. Mas o senhor era como 
um trovo todo o dia. Impossvel agradar-lhe! 
O barulho de uma porta a fechar-se, no andar de cima, ps 
fim brusco  loquacidade de Lonie. 

Oh,  a Franoise que me espera! exclamou, lembrando-se 
tardiamente dos seus deveres. > Aquela velha tem sempre 

que ralhar! 
Um momento, mademoiselle. Onde est o juiz de instruo? 
Foram ver o automvel,  garaigem. O Sr. Comissrio 

pensa que pode ter sido utilizado na noite do crime. 
Quelle ideei murmurou Poirot, quando a rapariga desapareceu. 
Vai ter com eles? 
No. Esper-los-ei na sala, onde est fresco nesta manh 

escaldante. 

Aquela maneira plcida de proceder no me agradava muito. 
Se no se importa...calei-me, hesitante. 
De modo nenhum! Deseja investigar por sua conta, no 
 verdade? 

Bem, gostaria de dar uma olhadela ao Giraud, se ele 
estivesse por a, para ver o que anda a fazer. 
O co de caa humano, murmurou Poirot, ao mesmo 
tempo que se recostava numa confortvel poltrona e fechava 
os olhos. No se prenda comigo, meu amigo. Au revor. 
Sa pela porta principal. Estava realmente calor. Meti pelo 
caminho por onde framos na vspera. Apetecia-me observar 
pessoalmente o cenrio do crime. No entanto, no me dirigi 
l directamente; desviei-me para os arbustos, para desembocar no 

#
campo de golfe uns centos de metros mais:  direita. Se 
Giraud ainda l estivesse, queria poder observar os seus mtodos 
sem ele dar pela minha presena. Mas naquele ponto os arbustos 


eram muito mais densos e tive uma certa dificuldade em 
abrir caminho atravs deles Quando desemboquei, finalmente, 
no campo, foi to inesperadamente e com tal mpeto que choquei 


com uma jovem que estava parada, de costas para o 
matagal. 
Ela abafou um grito, coisa natural nas circunstncias, e eusoltei 
uma exclamao de surpresa: tratava-se da minha amiga 
do comboio, de Cinderela! 
A surpresa foi mtua. 


Voc, exclammos, simultaneamente. 


A jovem foi a primeira a refazer-se da surpresa. 
Minha rica tia! Que faz o senhor aqui? 
O mesmo lhe pergunto eu. 
Quando o vi pela ltima vez, anteontem, trotava para 


casa, em Inglaterra, como um menino bonito. Deram-lhe um 
bilhete de ida e volta, para a poca, por influncia do seu 
membro do Parlamento? 
Ignorei a ltima parte do discurso. 


Quando a vi pela ltima vez, trotava para casa com a 


sua irm, como uma menina bonita. A propsito, como est a 
sua irm? 
Recompensou-me um fulgor de dentes brancos. 


Que amabilidade a sua, perguntar por ela! A minha irm 


est bem, obrigada 
Encontra-se aqui consigo? 
Ficou na cidade respondeu a atrevida, com um ar 


muito digno. 


#
No acredito que tenha uma irm afirmei, a rir. Se 

tem, chama-se Harris! 
E eu, como me chamo, lembra-se do meu nome? perguntou, 
sorridente. 
Cinderela. Mas agora vai dizer-me o seu nome verdadeiro, 

no vai? 

Abanou a cabea, com uma expresso maliciosa. 
Nem me diz, ao menos, porque est aqui? 
Oh, isso!... Suponho que deve ter ouvido dizer que os 

membros da minha profisso descansam. 
Em dispendiosas estncias balneares francesas? 
Baratssimas, quando se sabe para onde ir. 

Fitei-a atentamente. 
No entanto, voc no tinha nenhuma inteno de vir 

para aqui quando a encontrei h dois dias... 
Todos ns temos as nossas decepes redarguiu Cinderela, 
sentenciosamente. E agora j lhe disse praticamente 

tudo quanto lhe convm saber. Os rapazinhos no devem ser 
perguntadores,  feio. Mas ainda no me disse o que est aqui 
a fazer. Suponho que trouxe o M. P. a reboque, para se divertir 
na praia? 
Abanei a cabea. 

Engana-se. Lembra-se de lhe dizer que tinha um grande 
amigo detective? 

Lembro. 
E talvez tenha ouvido falar do crime... aqui, na Villa 
Genevive! 

Fitou-me muito sria. Os seus seios arfavam e tinha os 
olhos arregalados. 
No quer dizer... que est metido nisso? 

#
Acenei afirmativamente. No havia dvida de que marcara 
pontos, e muitos. A emoo dela, ao fitar-me, era mais do 
que evidente. Durante segundos permaneceu calada, a olhar-me, 
e depois acenou com a cabea enfaticamente. 


Por essa  que eu no esperava! Acompanhe-me, quero 


ver todos os horrores! 
Que quer dizer? 
O que disse. Deus o abenoe, meu filho, no lhe confessei 
que era doida por crimes? Porque julga que estou a pr 


em perigo os meus tornozelos, com estes sapatos de saltos altos 
neste terreno? H horas que ando a farejar por aqui! Tentei 
entrar pela frente, mas o pachorrento do gendarme francs que 
, l est de guarda no foi nisso. Desconfio que Helena de Tria, 


Cleopatra e Maria Stuart, misturadas e transformadas numa s, 
no conseguiriam nada dele! Foi uma grandssima sorte encontr-
lo desta maneira! Vamos, mostre-me as vistas! 
Mas, espere l... no posso.  proibida a entrada a toda 


a gente, so rigorosssimos a esse respeito.  
Voc e o seu amigo no so figures importantes? 
Custou-me abandonar a minha importante posio... 
Mas porque est to interessada? perguntei, j quase 
vencido. E que quer ver? 

Oh, tudo! O lugar onde aconteceu, e a arma, e o corpo, 
e quaisquer impresses digitais ou coisas importantes desse 
gnero...  a primeira vez que tenho oportunidade de estar 
mesmo no centro de um homicdio. Dar-me- para o resto 
da vida. 
O entusiasmo mrbido da rapariga nauseou-me. J lera umas 
coisas acerca das multides de mulheres que cercavam os tribunais 

quando algum desgraado estava a ser julgado e se 
arriscava a apanhar a pena de morte. s vezes perguntava a 

#
mim mesmo que gnero de mulheres seriam essas. Agora sabia. 

Eram do gnero de Cinderela: jovens, mas cegas por uma nsia 
de excitao mrbida, de sensao a todo o preo, sem respeito 
pela decncia nem pelos bons sentimentos. A beleza viva da 
rapariga atrara-me, mau grado meu, mas no fundo conservava 
a minha primeira impresso de desaprovao e antipatia. Uma 
cara bonita a ocultar uma mente que se deleitava com horrores. 

Desa do alto da sua importncia e no se d ares 
Ordenou-me, de sbito, a rapariga. Quando o chamaram para 
este trabalho ps o nariz no ar e disse que era desagradvel, 
cheirava mal, e no se meteria nele? 
No, mas... 

Se estivesse c de frias no estaria aqui a farejar como 
eu? Claro que estaria! 

Mas eu sou um homem e voc  uma mulher! 

Para si, uma mulher  uma criatura que salta para cima 
de uma cadeira e grita quando v um rato. Tudo isso  pr-histrico. 

Mas vai mostrar-me tudo, no vai? Faria uma grande 
diferena para mim, se mostrasse... 

Em que sentido? 

Esto a manter todos os jornalistas afastados e eu podia 
fazer um excelente negcio com um dos jornais. No imagina 
quanto pagam por informaes de quem esteve no meio da 
aco! 
Hesitei. Enfiou a mo pequenina e macia na minha e 
suplicou: 
Por favor seja um querido! 
Capitulei. Secretamente, sabia que me agradaria o papel de 
cicerone. No fim de contas, a atitude moral revelada pela 
rapariga no era da minha conta. Senti um certo receio do que 

#
o juiz de instruo poderia dizer, mas tranquilizei-me pensando 
que no havia mal nenhum naquilo. 
Seguimos primeiro para o local onde o corpo fora encontrado. 
O homem que estava de guarda saudou-me respeitosamente, 
pois conhecia-me de vista, e no levantou qualquer 
questo quanto  minha companheira. Presumivelmente pensou 

que eu me responsabilizava por ela. Expliquei a Cinderela como 

o corpo fora descoberto e ela ouviu-me com ateno e fez uma 
ou duas perguntas inteligentes. Depois retrocedamos na direco 
da moradia. Confesso que avancei com todas as cautelas, 
pois no me agradava nada a ideia de encontrar algum. Levei 
a rapariga pelo meio dos arbustos at s traseiras da casa, onde 
se erguia o pequeno barraco. Lembrei-me de que na vspera, 
depois de fechar a porta  chave, M. Bex deixara a chave ao 
sergent de ville Marchaud, no caso de M. Giraud precisar dela 
enquanto estivermos l em cima. Pareceu-me natural que, 
depois de a utilizar, o detective da Sret a tivesse devolvido a 
Marchaud. Deixei a rapariga oculta nos arbustos e entrei em 
casa. Marchaud estava de sentinela do lado de fora da porta da 
sala, de cujo interior vinha um murmrio de vozes. 

Deseja falar com M. Hautet? Est l dentro, a interrogar 
de novo a Franoise. 
No apressei-me a responder, no desejo falar 
com ele. Mas agradecia que me emprestasse a chave do barraco, 

se no fosse contra as ordens que recebeu. 

com certeza, aqui est. O Sr. Juiz deu ordens para que 
se pusesse tudo ao vosso dispor. S lhe peo que ma devolva, 
quando no precisar dela. 

Esteja descansado. 
Senti um arrepiozinho de satisfao ao pensar que, pelo 

#
menos aos olhos de Marchaud, tinha tanta importncia como 
Poirot. A rapariga esperava-me e soltou uma exclamao de 
prazer ao ver a chave na minha mo. 

Conseguiu-a? 
Claro que consegui respondi, friamente. Mesmo 
assim, o que estou a fazer  muito irregular. 

Foi um anjo perfeito, no o esquecerei. Vamos. No nos 
podem ver da casa, pois no? 
-Espere um momento pedi, tentando travar o seu 
avano acelerado. No a deterei, se desejar realmente entrar. 
Mas deseja mesmo? J viu a sepultura e o campo e eu contei


-lhe todos os pormenores do caso. No acha suficiente? Isto vai 
ser chocante... e desagradvel. 
Olhou-me com uma expresso que no consegui identificar 
e depois riu-se. 


Horrores  comigo! Vamos. 
Chegmos em silncio  porta do barraco. Abri-a, entrei, 
dirigi-me para o corpo e, cuidadosamente, afastei o lenol, 
como M. Bex fizera na tarde anterior. Ouvi uma espcie de 
arquejo, virei-me e olhei para a rapariga. Agora era horror o 
que tinha estampado no rosto; a despreocupada boa disposio 
abandonara-a. No quisera ouvir os meus conselhos e agora 
estava a ser castigada por isso. Senti-me estranhamente implacvel 


a seu respeito. J que insistira, agora teria de aguentar 


at ao fim. Virei o cadver, devagar. 
Como v, foi apunhalado nas costas expliquei. 
com qu? perguntou, em voz quase inaudvel. 


Inclinei a cabea na direco do frasco de vidro: 
com aquele punhal. 
De sbito, a rapariga cambaleou e caiu, numa trouxa. Acerquei-me 

#
imediatamente, para a auxiliar. 
Est fraca. Saiamos daqui para fora; foi demasiado para si. 
Agua murmurou. Depressa. gua. 


Deixei-a e voltei a correr a casa. Felizmente no estava 
por ali nenhuma das criadas e pude encher um copo de gua 
e acrescentar-lhe umas gotas de brande, do meu frasco de 
bolso. Poucos minutos depois encontrava-me de novo no 
barraco. A rapariga estava deitada como a deixara, mas alguns 
golos de gua com brande reanimaram-na extraordinariamente. 


Leve-me daqui para fora . depressa, depressa! suplicou, 
toda a tremer. 
Amparei-a e conduzi-a para o exterior. Ela puxou a porta, 
para a fechar, e respirou fundo. 


Ah, estou melhor! Foi horrvel! Porque me deixou entrar? 
Aquilo pareceu-me to feminino que no contive um sorriso. 
Intimamente, o seu desfalecimento no me desagradara, pois 


provava que no era to insensvel como a imaginara. No fim 


de contas, pouco mais era do que uma garota e a sua curiosidade 
fora uma coisa instintiva, impensada. 
Bem sabe que fiz o possvel para a deter lembrei, em 


tom brando. 
Creio que fez. Bem, adeus. 
Escute, no se pode ir embora assim... sozinha. No est 


em condies... Insisto em acompanh-la at Merlinville. 
No diga tolices, j me sinto perfeitamente bem. 
E se volta a desfalecer? No, eu acompanho-a. -< 


Mas ela ops-se a isso com boa dose de energia. No fim, 
porm, consegui que me autorizasse a acompanh-la at  
entrada da cidade. Retrocedemos pelo caminho que percorrramos, 


passmos de novo pela sepultura, fizemos um desvio e 


#
chegmos  estrada. Quando a primeira enfiada de estabelecimentos 
comeou, a minha companheira parou e estendeu 


a mo. 
Adeus e muitssimo obrigada por ter vindo comigo. 
Tem a certeza de que est bem? 
Tenho, obrigada. Espero que no arranje problemas por 


me ter mostrado aquelas coisas... 
Afirmei-lhe despreocupadamente que no tinha impor- 
tncia. 


Bem, adeus. 
Au revoir corrigi. Se est na cidade,-voltaremos a 


ver-nos. 
Pois claro concordou, sorrindo. Au revoir, ento. 
Espere um momento, no me disse a sua morada... 
Estou no Hotel du Phare.  pequeno, mas bom. V-me 


l ver amanh. 


Irei respondi, talvez com desnecessrio entusiasmo. 
Segui-a com o olhar at desaparecer e depois regressei  
moradia. Lembrei-me de que no voltara a fechar a porta do 
barraco  chave. Felizmente ningum dera pelo descuido, que 


me apressei a remediar. Depois fui devolver a chave ao sergent 
de Ville. De sbito, lembrei-me de que, embora Cinderella me 
tivesse dito onde estava, eu continuava a no saber como se 
chamava. 
CAPTULO IX 


M. Giraud Descobre Algumas Pistas 
Na sala, o juiz de instruo interrogava aodadaimente o 
velho jardineiro, Auguste. Poirot e o comissrio, que estavam 
presentes, saudaram-me respectivamente com um sorriso e uma 
inclinao de cabea corts. Sentei-me em silncio numa cadeira. 
#
M. Hautet era de uma meticulosidade extrema, mas no 
conseguia arrancar ao homem nada de importncia. 
Auguste admitiu que as luvas de jardinagem eram suas. 
Calava-as quando tinha de trabalhar com certas espcies de 
prmulas, que eram venenosas para algumas pessoas. No se 
lembrava quando as usara pela ltima vez. No, com certeza 
que no dera por falta delas. Onde as guardava? Umas vezes 
num lugar, outras noutro... A p encontrava-se geralmente na 
pequena barraca das ferramentas. Se estava fechada  chave? 
Claro que sim. Onde ficava a chave? Parbleu, na porta, onde 
havia de ser? No havia nada de valor para roubar. Quem iria 
pensar numa quadrilha de bandidos, de assassinos? Essas coisas 
no aconteciam no tempo de Madame la Vicomtesse. 
M. Hautet fez-lhe sinal de que no desejava mais nada e o 
velho retirou-se, sempre a resmungar. Lembrando-me da inexplicvel 
insistncia; de Poirot na importncia das pegadas dos 
canteiros, observara-o atentamente, durante o interrogatrio. 
Ou no tinha nada a ver com o crime, ou era um actor consumado. 

De sbito, precisamente quando ele ia a sair, tive uma 
ideia: 
Perdo, M. Hautet, permite que faa uma pergunta ao 
jardineiro? 

Certamente, monsieur. 

Encorajado, voltei-me para Auguste e desfechei-lhe: 
Onde guarda as botas? 
Sac  papier! rosnou o velho. Nos ps, onde havia 

de ser? <. 
Mas quando se deita,  noite? 
Debaixo da cama. 
Quem as limpa? 

#
Ningum. Porque haviam de ser limpas? Acaso me passeio 
 beira-mar, como um rapaz novo? Aos domingos uso as botas 
de domingo, bien entendu, mas tirando isso... 
Encolheu os ombros e eu abanei a cabea, desanimado. 

Bem, bem, no adiantmos muito > comentou o magistrado. 
No h dvida de que estamos praticamente imobilizados, 

at recebermos a resposta ao telegrama enviado para 
Santiago. Algum viu o Giraud? com franqueza, cortesia  
coisa que no tem! Estou muito tentado a mand-lo chamar e... 
-No precisar de mandar chamar-me longe, Sr. Juiz. 
A voz serena sobressaltou-nos. Giraud estava parado no 
terrao, a olhar pela janela aberta. Entrou na sala, com grandes 
passadas e dirigiu-se para a mesa. 

C estou, Sr. Juiz, ao seu servio. Queira desculpar no 
me ter apresentado mais cedo. 

No tem importncia, no tem importncia redarguiu 

o magistrado, muito confuso. 
Claro que no passo de um detective prosseguiu o 
outro. No percebo nada de interrogatrios. No entanto, se 
fizesse algum, creio que teria o cuidado de fechar a janela. 
Quem parar l fora poder ouvir sem dificuldade tudo quanto 
se disser. Mas no interessa. 

M. Hautet corou, furioso. Era evidente que a amizade entre 
o juiz de instruo e o detective encarregado de deslindar o 
caso estava fora de questo. Tinham antipatizado um com o 
outro  primeira vista. Talvez isso fosse, de resto, inevitvel. 
Para Giraud, todos os juizes de instruo eram idiotas, e para 
M. Hautet, que se tomava muito a srio, a sem-cerimnia do 
detective parisiense constituiria sempre uma ofensa. 
Eh bien, M. Giraud disse o magistrado, em tom 

#
cido , certamente tem andado a empregar o seu tempo com 
muita utilidade? J nos sabe dizer os nomes dos assassinos, 
no  verdade? E tambm o lugar preciso onde agora se encontram? 
Giraud respondeu, sem se deixar perturbar pela ironia: 
Sei pelo menos donde vieram. 


Comment? 

O detective tirou dois pequenos objectos da algibeira e colocou-os 


em cima da mesa. Aproximmo-nos todos. Os objectos 
eram muito simples: a ponta de um cigarro e um fsforo no 
queimado. Giraud virou-se para Poirot e perguntou-lhe: 


Que v aqui? 
Havia algo de brutal no seu tom, algo que me incendiou as 
faces. Mas Poirot limitou-se a encolher os ombros e a responder, 
impassvel: 


A ponta de um cigarro e um fsforo. 
E que lhe diz isso? 
Poirot abriu as mos e replicou: 


O que me diz? Nada. 


Ah! exclamou o outro, satisfeito. No estudou estes 
objectos. Este fsforo no  um fsforo vulgar, pelo menos 
neste pas. Mas  corrente na Amrica do Sul. Felizmente 
no foi aceso, pois de contrrio talvez no o pudesse identificar. 
 evidente que um dos homens deitou fora a ponta do cigarro 
e, ao acender outro, deixou cair um fsforo da caixa. 


E o outro fsforo? perguntou Poirot. 
Qual? 
O que serviu para acender o cigarro. Tambm o encontrou? 
No. 
Talvez no tenha procurado muito bem. 
No tenha procurado muito bem!...Por momentos, 


#
pareceu que o detective ia explodir, furioso, mas dominou-se, 
embora com esforo. Vejo que gosta de brincar, M. Poirot. 
De qualquer modo, com fsforo ou sem fsforo, a ponta do 
cigarro seria suficiente.  um cigarro sul-americano, com mortalha 

peitoral, de mentol. 
Poirot fez uma vnia e o comissrio observou: 

A ponta do cigarro e o fsforo podem ter pertencido 
a M. Renauld. Lembre-se de que s veio da Amrica do Sul h 
dois anos. 

No redarguiu o outro, com convico. Passei revista 
s coisas de M. Renauld e os cigarros que fumava e os 
fsforos que usava eram absolutamente diferentes. 

No acha estranho que esses desconhecidos no tivessem 
vindo prevenidos com uma arma, nem com luvas, nem com 
uma p, e encontrassem todas essas coisas com tanta facilidade? 

perguntou Poirot. 
Giraud sorriu, com ar superior, e respondeu: 
Sem dvida que  estranho. Na verdade, sem a teoria 

que elaborei, seria at inexplicvel. 
Ah! exclamou M. Hautet. Um cmplice. Um cmplice 
dentro de casa! 
Ou fora dela declarou Giraud, com um sorriso p-., 

culiar. 

Mas algum lhes deve ter aberto a porta, no acha? No 
podemos partir do princpio de que, por um bambrrio de 
sorte sem paralelo, tenham encontrado a porta aberta  sua 
espera, para entrarem sem dificuldade! 

Daccord, Sr. Juiz. A porta foi-lhes aberta... mas pode 
t-lo sido pelo exterior, por algum que tinha uma chave. 
Mas quem a tinha? 
Giraud encolheu osombros. 

#
Quanto a isso, quem a tiver no o confessar, se puder 
evit-lo. Mas h vrias pessoas que podiam ter uma chave. Por 
exemplo, o filho, M. Jack Renauld.  verdade que vai a caminho 
da Amrica do Sul, mas pode ter perdido a chave, ou podem 
6 -VAMP. G. 2 

ter-lha roubado. H tambm o jardineiro, que trabalha c h 
muitos anos. Uma das criadas mais novas pode ter um namorado. 

..  fcil tirar o molde de uma chave e mandar fazer um 
duplicado. Enfim, no faltam possibilidades. H ainda outra 
pessoa que, quanto a mim, no ser nada para estranhar se 
tiver uma chave em seu poder. 

Quem? 

Madame Daubreuil respondeu o detective, secamente. 

Oh, oh! exclamou o magistrado, de monco um pouco 
cado. Ento tambm ouviu falar disso? 

Eu ouo tudo afirmou Giraud, imperturbvel. 

H uma coisa que juraria no ouviu disse M. Hautet, 
encantado por poder alardear maior conhecimento, e v de 
contar a histria da misteriosa visitante da noite anterior, de 
aludir ao cheque passado a favor de Duveen e, finalmente, de 
entregar a Giraud a carta assinada por Bella. 
Giraud ouviu-o em silncio, leu a carta com ateno e 
devolveu-a. 

Muito interessante, Sr. Juiz. Mas a minha teoria mantm-se. 

E qual  a sua teoria? 

Por enquanto, prefiro no a revelar. Lembre-se de que 
ainda agora comecei a investigar. 

Diga-me uma coisa, M. Giraud pediu Poirot, de sbito. 

A sua teoria poder explicar porque estava a porta aberta, 
mas no explica porque foi deixada aberta, depois. No seria 

#
natural que, ao sarem, fechassem a porta? Se um sergent de 
ville passasse por acaso, como s vezes acontece para ver se 
est tudo em ordem, eles arriscavam-se a ser descobertos e 
apanhados quase acto contnuo. 

Ora, esqueceram-se! Foi um erro, garanto-lhe. 
Ento, para minha surpresa, Poirot proferiu quase textualmente 
as palavras que proferira na vspera, dirigidas a Bex: 
No concordo consigo. A porta ficou aberta quer proposita


damente, quer por necessidade, e qualquer teoria que no 
conte com esse facto ser v. 
Olhmos todos para o homenzinho com uma boa dose de 
espanto. A confisso de ignorncia que lhe fora arrancada, 
acerca do fsforo e da ponta do cigarro, tivera a inteno de o 
humilhar, mas ali estava ele, senhor de si como sempre, a 
dizer ao grande Giraud como as coisas eram, a diz-lo sem a 
mnima hesitao. 
O detective torceu o bigode e olhou para o meu amigo 
com certo ar de mofa. 

No concorda comigo, hem? Que lhe pareceu estranho 
no caso? Vamos l ouvir as suas opinies. 

H uma coisa que me parece significativa. Diga-me, M. 
Giraud, no acha nada de familiar neste caso? Ele no lhe 
recorda nada? 

Familiar? Se no me recorda nada? Assim de repente, 
no sei... Mas creio que no. 
Est enganado declarou Poirot, calmamente. J se 

cometeu, antes, um crime quase igual. 
Quando? E onde? 
Ah, infelizmente no me lembro, de momento., mas 

hei-de lembrar-me. Esperava que voc me pudesse ajudar. 

#
Tem havido muitos casos de homens mascarados. resmungou 
Giraud, incrdulo. No me posso lembrar de pormenores 
de todos eles. Esses crimes parecem-se todos mais 

ou menos uns com os outros. 

H aquilo a que se chama o toque individual. Poirot 
assumiu, de sbito, o seu tom professoral e dirigiu-se a todos 
os presentes. Estou a falar-lhes da psicologia do crime. 

M. Giraud sabe muito bem que cada criminoso tem o seu 
mtodo especial e que a Polcia, quando chamada a investigar 
um caso de arrombamento, digamos, pode muitas vezes 
fazer uma ideia de quem  o autor, baseando-se simplesmente 
no mtodo empregado. (O Japp dir-te-ia o mesmo, Hastings.) 

O homem  um animal sem originalidade. Sem originalidade 

quando procede dentro da lei, na sua respeitvel vida quotidiana, 

e igualmente sem originalidade fora da lei. Se um 
homem comete um crime, qualquer outro crime que venha 
a cometer assemelhar-se- muito ao primeiro. O assassino ingls 
que se livrou sucessivamente das mulheres afogando-as no 
banho,  um exemplo. Se tivesse usado mtodos diferentes, 
talvez ainda hoje continuasse por descobrir. Mas ele obedeceu 
aos ditames comuns da natureza humana, dizendo para consigo 
que o que sara bem uma vez voltaria a sair, e por isso pagou 

o preo da sua falta de originalidade. 
Mas aonde quer chegar com tudo isso? indagou Giraud. 
Quero chegar ao seguinte: quando temos dois crimes 
exactamente similares em mtodo e execuo, verificamos que  
temos o mesmo crebro atrs de ambos.  esse crebro que 
procuro, M. Giraud... e hei-de encontr-lo. O que acabo de lhe 
dizer  uma pista verdadeira, uma pista psicolgica. O senhor 
pode saber tudo acerca de pontas de cigarros e fsforos, 

#
M. Giraud, mas eu, Hercule Poirot, conheo a mente do 
homem! e o ridculo homenzinho bateu enfaticamente na 
testa. 
Giraud no se mostrou nada impressionado. 
Para sua orientao prosseguiu o meu amigo, chamo 
ainda a sua ateno para um facto que lhe poder passar despercebido: 
o relgio de pulso de Madame Renauld, no dia seguinte 
 tragdia, tinha-se adiantado duas horas. Talvez lhe 
interesse examin-lo. 
Giraud fitou-o, surpreendido. 


Talvez costumasse adiantar-se alvitrou. 
Na verdade, disseram-me que costumava. 
Eh bien, a tem! 
Mesmo assim, duas horas  muito observou Poirot, 


docemente. H tambm a questo das pegadas no canteiro. 
Inclinou a cabea na direco da janela aberta e Giraud 
deu duas grandes passadas e foi ver. 


Este canteiro, aqui? 

Sim. 
Mas eu no vejo pegadas nenhumas! 
Pois no concordou Poirot, enquanto endireitava uma 


rima de livros numa mesa. No h pegadas nenhumas. 
Por momentos, uma clera quase homicida transtornou o 
rosto de Giraud, que deu dois passos na direco do seu 
atormentador. Nesse momento, porm, a porta abriu-se e Marchaud 


anunciou: 


M. Stonor, o secretrio, acaba de chegar de Inglaterra. 
Pode entrar? 
CAPTULO X 
h 
#
Gabriel Stonor 

O homem que entrou na sala tinha uma figura impressionante. 

Muito alto e atltico, de rosto e pescoo profundamente 
bronzeados, dominava todos os outros presentes. At Giraud 
parecia anmico comparado com ele. Quamdo tive oportunidade 
de o conhecer melhor compreendi que Gabriel Stonor possua 
uma personalidade invulgar. Ingls pelo nascimento, andara s 
voltas praticamente pelo mundo inteiro. Caara caa grossa 
em frica, tivera um rancho na Califrnia e traficara nas ilhas 
dos mares do Sul. Fora secretrio de um magnata dos caminhos-de-ferro, 

em Nova Iorque, e passara um ano acampado no deserto 
com uma tribo de rabes. 
O seu olhar experiente identificou logo M. Hautet: 

 o juiz de instruo encarregado do caso? Prazer em 
conhec-lo, Sr. Juiz. Terrvel situao! Como est Mrs. Renauld? 
Tem sabido suportar a provao? Deve ter sido um choque 
tremendo para ela. 


Terrvel, terrvel concordou M. Hautet. Permita que 
lhe apresente M. Bex, o nosso comissrio da Polcia, e M. 
Giraud, da Sret. Este cavalheiro  M. Hercule Poirot. M. Re


nauld mandou-o chamar, mas ele j no chegou a tempo de 
evitar a tragdia. O capito Hastings, amigo de M. Poirot. 
Stonor fitou Poirot com certo interesse. 
Mandou-o chamar? 
>No sabia que M. Renauld tencionava contratar um 
detective? interveio M. Bex. 


No, no sabia. Mas no me surpreende nada. 
Porqu? 
Porque o velho andava transtornado! No sei de que se 


tratava, no mo disse. As nossas relaes no eram do gnero 


#
que leva a confidncias. Mas que ele andava assustado, andava, 
e muito! 
Hum...resmungou M. Hautet. No faz nenhuma 
ideia do motivo? 


J disse que no, Sr. Juiz. 


Desculpar-me-, M. Stonor, mas temos de comear por 
preencher certas formalidades. Como se chama? 


Gabriel Stonor. 


H quanto tempo se tornou secretrio de M. Renauld? 


H cerca de dois anos, quando ele chegou da Amrica do 
Sul. Conheci-o por intermdio de um amigo comum e ele ofereceu-me 


o lugar. Era um excelente patro. 
Falava muito consigo acerca da sua vida na Amrica 
do Sul? 

Sim, um bom bocado. 

Sabe se esteve alguma vez em Santiago? 

Creio que esteve l vrias vezes. 

Nunca mencionou nenhum incidente especial que l 
tivesse ocorrido, nada que pudesse ter originado qualquer 
vendetta contra ele? 

Nunca. 

Falou-lhe de qualquer segredo de que tivesse tomado 

conhecimento enquanto l esteve? 
No. 
Alguma vez se referiu a algum segredo? 

Que me lembre, no. Mas, apesar disso, havia um mistrio 

nele. Por exemplo, nunca o ouvi falar da sua mocidade 
nem de qualquer perodo anterior  sua chegada  Amrica do 
Sul. Era canadiano francs pelo nascimento, suponho, mas 
nunca o ouvi falar da sua vida no Canad. Sabia fechar-se como 

#
uma ostra, quando queria. 
Tanto quanto o senhor sabe, no tinha inimigos, no  

verdade? E tambm no nos sabe indicar qualquer pista relacionada 
com um segredo que possa ter levado ao seu assassnio? 
No. 

M. Stonor, alguma vez ouviu o apelido de Duveen relacionado 
com M. Renauld? 
Duveen, Duveen...repetiu o nome diversas vezes, a 
tentar lembrar-se. Creio que no, embora me parea familiar. 

Conhece uma senhora, uma amiga de M. Renauld, cujo 
nome  Bella? 
Mr. Stonor abanou a cabea. 

Bella Duveen?  esse o nome completo?  curioso! Tenho 
a certeza de que conheo o nome, mas de momento no me 
lembro com quem se relaciona. 
O magistrado pigarreou. 

Deve compreender, M. Stonor, que num caso destes, 
no se deve estar com reservas. Talvez por um sentimento de 
considerao para com Madame Renauld pela qual deduzo 
que tem grande respeito e afecto, talvez... M. Hautet fez 
uma pausa, sem saber como prosseguir. Enfim, repito que 
no deve haver reservas absolutamente nenhumas. 
Stonor fitou-o, com um brilho de compreenso a despontar 
nos olhos. 

No estou a entend-lo bem murmurou, suavemente. 

Que tem Mrs. Renauld a ver com o caso? Tenho, de facto, 
imenso respeito e uma grande admirao por essa senhora. 
Ela  maravilhosa, uma mulher invulgar, mas no compreendo 
como podero as minhas reservas, ou como quiser chamar-lhes, 
afect-la. 

#
Nem se essa tal Bella Duveen tiver sido algo mais do que 
amiga do marido de Madame Renauld? 

Ah, agora percebo-o! Mas apostaria o meu ltimo dlar 
em como est enganado. O velho no olhava sequer para saias; 
adorava a mulher. Nunca conheci casal mais dedicado. 

M. Hautet abanou a cabea, devagarinho. 
M. Stonor, temos uma prova irrefutvel, uma carta de 
amor escrita pela dita Bella a M. Renauld, acusando-o de se ter 
cansado dela. Alm disso, tambm temos provas de que, 
aquando da sua morte, mantinha um romance com uma francesa, 
uma tal Madame Daubreuil, residente na moradia vizinha. 
Era esse o homem que, segundo as suas palavras, no olhava 
sequer para saias! 
O secretrio semicerrou os olhos. 

Mais devagar, Sr. Juiz, enganou-se na porta. Conheci 
Paul Renauld e o que acaba de me dizer  absolutamente impossvel. 
Deve haver outra explicao qualquer. 

O magistrado encolheu os ombros. 
Que outra explicao poder haver? 
Porque pensa que se tratava de um romance de amor? 
Madame Daubreuil tinha o hbito de o visitar aqui,  

noite. Alm disso, depois da vinda de M. Renauld para a Villa 
Genevive, Madame Daubreuil depositou grandes quantias na 
sua conta bancria, em notas. O equivalente, em dinheiro 
ingls, a quatro mil libras, ao todo. 

Creio que as suas contas esto certas admitiu Stonor, 
calmamente. Transferi essas importncias a Mr. Renauld, a 
pedido dele. Mas no se tratava de romance nenhum. 

Eh, mon Dieu! Que outra coisa poderia ser? 
Chantagem! replicou vivamente Stonor, e deu uma 
palmada forte na mesa. Era isso que era. 

#
Ah, voil une ide! exclamou o juiz, impressionado, 
apesar de tudo. 

Chantagem repetiu Stonor. O velho estava a ser 
sangrado, e sangrado a um bom ritmo. Quatro mil libras em 

dois meses. Soltou um assobio significativo. Disse-lhe h 
pouco que havia um mistrio relacionado com Renauld.  evi


dente que essa tal madame Daubreuil sabia o suficiente a esse 
[>< respeito para lhe dar um aperto. 
 possvel! exclamou o comissrio, todo excitado. 
 possvel, decididamente! 

Possvel? gritou Stonor.  certo! Ora digam-me, in


terrogaram Mrs. Renauld acerca dessa histria do romance 
de amor? 
No. No quisemos causar-lhe desgosto, desde que pu


desse ser razoavelmente evitado. 

Desgosto? Ela rir-se-lhe-ia na cara! J lhe disse que ela 
e Renauld eram um casal como h poucos. 

Isso recorda-me outro pormenor declarou M. Hautet. 

M. Renauld fez-lhe confidncias quanto s disposies do 
seu testamento? 
Estou ao corrente dele, fui eu que o levei ao advogado, 
depois de M. Renauld o ter feito. Posso indicar-lhe o nome dos 
solicitadores que o tm, se desejar. As disposies so muito 
simples: metade da fortuna para a mulher, em usufruto durante 
toda a sua vida, e o resto para o filho. Alguns legados... creio 
que me deixou mil libras. , 

Quando foi esse testamento redigido? , ,.-,., 
H cerca de ano e meio. 
Ficaria muito surpreendido, M. Stonor, se soubesse que 


M. Renauld fez outro testamento h menos de uma quinzena? 
#
Stonor ficou, visivelmente, muito surpreendido. 
No fazia ideia. De que consta? 
Toda a fortuna  deixada  mulher, incondicionalmente. , 
O filho no  mencionado. 


M. Stonor soltou novo assobio prolongado. 
 Acho isso muito duro para o rapaz. A me adora-o, 
claro, mas aos olhos do mundo parece uma falta de confiana 
da parte do pai. Deve ser muito humilhante para o seu orgulho. 
No entanto,  mais uma prova do que afirmei: as relaes 
entre Renauld e a mulher eram excepcionais. 

Sem dvida, sem dvida murmurou M. Hautet. 
 possvel que tenhamos de rever as nossas ideias acerca de 
vrios pontos. Claro que telegrafmos para Santiago e aguardamos 

uma resposta de l a todo o momento.  muito possvel 
que depois disso tudo se apresente perfeitamente claro e simples. 

Por outro lado, se a sua sugesto quanto  chantagem est 
certa, Madame Daubreuil poder dar-nos informaes valiosas. 
Poirot interveio: 

M. Stonor, o motorista ingls, Masters, estava h muito 
tempo com M. Renauld? 
H mais de um ano. 
Sabe, por acaso, se ele esteve na Amrica do Sul? 
Tenho a certeza de que no esteve. Antes de trabalhar 

para M. Renauld esteve muitos anos ao servio de umas pessoas 
de Gloucestershire que eu conheo muito bem. 
Acha que pode responder por ele, como estando acima 
de qualquer suspeita? 

Absolutamente. 
Poirot pareceu um pouco decepcionado. 
Entretanto, o juiz mandara chamar Marchaud. 

#
Apresente os meus cumprimentos a Madame Renauld 
e diga-lhe que gostaria de falar com ela durante alguns minutos. 
Mas pea-lhe que no se incomode; eu subirei. 
Marchaud fez a continncia e saiu da sala. 
Espermos alguns minutos e depois, para nossa surpresa, 
a porta abriu-se e Mrs. Renauld, mortalmente plida, entrou 
na sala. 

M. Hautet apressou-se a puxar uma cadeira, ao mesmo 
tempo que reiterava a sua inteno de no a incomodar, e ela 
agradeceu-lhe, a sorrir. Stonor apertou-lhe uma das mos nas 
suas, numa manifestao eloquente de simpatia e compaixo. 
Era evidente que no sabia que dizer, de to comovido. 
Mrs. Renauld virou-se para M. Hautet e lembrou-lhe: 
Desejava perguntar-me qualquer coisa, Sr. Juiz? 

Se me der licena, madame. Consta-me que o seu marido 
era canadiano/francs pelo nascimento. Sabe dizer-me alguma 
coisa da sua juventude ou da maneira como foi criado? 
Mrs. Renauld abanou a cabea. 

O meu marido foi sempre muito reticente a seu respeito, 
monsieur. Suponho que teve uma infncia infeliz, pois 

no gostava de falar desse tempo. Vivamos a nossa vida inteiramente 
no presente e para o futuro. 
Havia algum mistrio na sua vida passada? 

Mrs. Renauld sorriu um pouco e abanou a cabea: 
No creio que se tratasse de uma coisa to romntica, 
Sr. Juiz. 

M. Hautet sorriu tambm. 
Claro, no devemos ser melodramticos. S mais uma 
coisa... mas calou-se, hesitante. 
Stonor interveio, impetuosamente: 

#
Meteu-se-lhes na cabea uma ideia extraordinria, Mrs. 
Renauld! Imagine, esto convencidos de que M. Renauld tinha 
uma intriga amorosa com uma tal Madame Daubreuil, que parece 

morar na vivenda vizinha! 
Uma onda escarlate tingiu as faces de Mrs. Renauld, que. 
endireitou a cabea e mordeu os lbios, toda trmula. Stonor 
fitou-a, estupefacto, e M. Bex inclinou-se para ela e disse, 
docemente: 

Lamentamos causar-lhe desgosto, madame, mas precisamos 

de saber se tem algum motivo para crer que Madame 
Daubreuil era amante do seu marido. 
Mrs. Renauld soltou um soluo angustiado e ocultou o 
rosto nas mos. Os seus ombros estremeceram convulsivamente. 
Por fim levantou a cabea e disse, em voz trmula: 

Deve ter sido. 
Nunca na minha vida vi nada que se comparasse ao espanto 
absoluto que se estampou na cara de Stonor. O indivduo estava 
completamente aparvalhado. 

CAPTULO XI 

Jack Renauld 

No fao ideia do rumo que a conversa teria seguido se 
nesse momento a porta no se abrisse violentamente para dar 
passagem a um jovem alto. 
Por instantes tive a sensao de que o morto ressuscitara, 
mas depois reparei que aquela cabea morena no tinha madeixas 


grisalhas e que quem irrompera entre ns com to pouca 
cerimnia era um simples rapaz. Foi direito a Mrs. Renauld 
com uma impetuosidade totalmente alheia  presena de estranhos. 


Me! 
Jack! gritou Mrs. Renauld e abraou-o. Meu querido! 


#
Mas porque ests aqui? Devias ter embarcado no Anzora, em 
Cherbourg, h dois dias! Lembrando-se, de sbito, da presena 
dos outros, virou-se para ns com certa dignidade e 
apresentou: O meu filho, messieurs. 
Ah! exclamou M. Hautet, retribuindo a inclinao de 
cabea do jovem. Ento no embarcou no Anzora? 

No, monsieur. Como ia explicar, o Anzora teve de 
atrasar a partida vinte e quatro horas, por avaria nos motores. 
Eu devia, portanto, ter partido a noite passada, em vez de na 
anterior, mas comprei por acaso um jornal vespertino e li a 
notcia da... da horrvel tragdia que desabou sobre ns... 
A voz tremeu-lhe e os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. > 
Meu pobre pai, meu pobre pai... 
Fitando-o como num sonho, Mrs. Renauld repetia: 

Ento no embarcaste? E depois, com um gesto de 
infinito cansao, murmurou, como se falasse sozinha: No fim 
de contas, no importa... agora. 

Sente-se, M. Renauld, peo-lhe convidou M. Hautet, 
indicando uma cadeira. Lamento-o profundamente, deve ter 
sido um choque tremendo para si tomar conhecimento da tra


gdia dessa maneira. No entanto, considero uma sorte que no 
tenha podido embarcar, pois tenho esperana de que nos saiba 
dar informaes que nos permitam deslindar este mistrio. 
! Estou ao seu dispor, Sr. Juiz. Pergunte o que quiser. 
Para comear, consta-me que ia fazer a viagem a pedido 
do seu pai, no  verdade? 

Exactamente, Sr. Juiz. Recebi um telegrama dele a mandar-me 
seguir sem demora para Buenos Aires e da, via Andes, 
para Valparaso e Santiago. 
Ah! E qual era o objectivo dessa viagem? 

#
No fao a mnima ideia, Sr. Juiz. 
Como? 
No fao a mnima ideia. Aqui tem o telegrama. . 


O magistrado leu-o em voz alta: 
Segue imediatamente Cherbourg e embarca Anzora que 


parte esta noite Buenos Aires. Destino final Santiago. Encontrars 
mais instrues Buenos Aires. No falhes. Assunto mxima 
importncia. Renauld. No recebera qualquer correspondncia 
anterior, acerca do assunto? 


,, Jack Renauld abanou a cabea. 
Esse telegrama foi a nica coisa. Sabia, claro, que em 
virtude de l ter vivido tanto tempo, o meu pai tinha, com 
certeza, muitos interesses na Amrica do Sul Mas nunca ma


nifestara qualquer inteno de l me mandar. 
E Passou muito tempo na Amrica do Sul, no  verdade, 


M. Renauld? 
Estive l em criana, mas fui educado em Inglaterra, pas 
onde passei a maior parte das minhas frias. Por isso sei muito 
menos a respeito da Amrica do Sul do que se poder supor. 
M. Hautet acenou com a cabea e prosseguiu com o interrogatrio, 
obedecendo a um esquema que entretanto j se tornara 
muito nosso conhecido. Em resposta s suas perguntas, Jack 
Renauld afirmou decisivamente nada saber quanto a possveis 
inimigos que o pai pudesse ter na cidade de Santiago ou em 
qualquer outra parte do continente sul-americano; no ter notado 
nenhuma diferena na atitude do pai, ultimamente, e 
nunca o ter ouvido aludir a um segredo. Considerara a viagem 
 Amrica do Sul relacionada com interesses comerciais. 
Quando M. Hautet se calou, Giraud disse, calmamente: 

Gostaria de fazer algumas perguntas por minha conta, 

#
Sr. Juiz. 


Faa favor, M. Giraud respondeu-lhe o magistrado, 
com frieza. 
Giraud chegou a cadeira um pouco mais para a mesa e 
comeou: 


Estava em boas relaes com o seu pai, M. Renauld? 
Claro que estava redarguiu o rapaz, altivamente. 
Afirma isso positivamente? 
Afirmo. 
No havia pequenas disputas? 
Toda a gente pode ter uma divergncia de opinio, de 


vez em quando respondeu Jack Renaul, com um encolher 
de ombros. 


Sem dvida, sem dvida. Mas se algum afirmasse que o 
senhor teve uma violenta discusso com o seu pai na vspera 
de partir para Paris, se algum afirmasse isto estaria com 
certeza a mentir, no? 
No pude deixar de admirar o engenho de Giraud. Quando 
se vangloriara de saber tudo no falara em vo. Jack Renauld 
ficou claramente atrapalhado com a pergunta. 


Ns... ns tivemos uma altercao admitiu. 
Ah, uma altercao! E no decorrer dessa altercao 
utilizou a seguinte frase: Quando voc morrer, poderei fazer 

o que me apetecer!? 
Posso ter dito, no sei. 
Em resposta a isso o seu pai disse: Mas eu ainda no 
estou morto!, ao que o senhor replicou: Quem dera que estivesse! 
Jack Renauld ficou calado, a mexer nervosamente nas coisas 
que estavam em cima da mesa,  sua frente. 

Peo-lhe o favor de uma resposta, M. Renauld exigiu 

#
Giraud, duramente. 
O rapaz soltou uma exclamao de clera e deixou cair 
uma pesada faca de cortar papel ao cho. 


Que interessa, no fim de contas? Sim, o melhor  dizer-lhe. 


 verdade, discuti com o meu pai e creio que disse todas 
essas coisas. Estava to furioso que nem sequer me lembro 
das palavras que empreguei, estava to furioso que... que nesse 
momento teria sido capaz de o matar! A tem, agora tire as 
concluses que quiser do que acabo de dizer. Recostou-se na 
cadeira, corado e com um ar de desafio. 
Giraud sorriu, empurrou a cadeira um nadinha para trs e 
declarou: 


No desejo mais nada. Prefere, sem dvida, continuaro 
interrogatrio, Sr. Juiz. 
Sim, sem dvida concordou M. Hautet. Qual foi o 
assunto da discusso? 
Recuso-me a responder. 

M. Hautet endireitou-se na cadeira, surpreendido. 
M. Renauld, no  permitido brincar com a autoridade! 
berrou. Qual foi o assunto da discusso?  
O jovem Renauld permaneceu silencioso, com o rosto agarotado 
sombrio. Mas outra voz soou, imperturbvel e serena: 
a voz de Hercule Poirot: 

Eu informo-o, se desejar, Sr. Juiz. 
O senhor sabe? 
com certeza que sei. O assunto da discusso foi Mademoiselle 
Marthe Daubreuil. 


Renauld virou a cabea, assustado, e o magistrado inclinou-se 
para a frente e perguntou: 
 verdade, monsieur? 


Jack Renauld baixou a cabea. 

#
 confessou. Amo Mademoiselle Daubreuil e desejo 
casar com ela. Quando informei o meu pai do facto ele disparatou 
imediatamente, tomado de violenta clera. Claro que no 

pude ouvir insultar a rapariga que amava e perdi tambm a 
tramontana. 

M. Hautet olhou para Mrs. Renauld e perguntou-lhe: 
Estava ao corrente deste... afecto, madame? 
Receava-o respondeu ela, simplesmente. 
Tambm a me?! exclamou o rapaz. A Marthe  
to boa quanto bela. Que pode ter contra ela? 
No tenho nada contra Mademoiselle Daubreuil, em sentido 
nenhum. Mas preferia que casasses com uma inglesa ou, 

tendo de ser uma francesa, que no escolhesses uma cuja me 
tivesse antecedentes duvidosos! 
O seu rancor contra a me da rapariga era evidente no tom , 
da sua voz e eu compreendi que devia ter sido um duro golpe 
para ela descobrir que o filho dava sinais de se estar a apaixonar 

pela filha da sua rival. 
Mrs. Renauld continuou a dirigir-se ao magistrado: 

Devia, talvez, ter falado ao meu marido do assunto, mas 
acalentava a esperana de que fosse apenas uma paixoneta 
juvenil, um namorico que terminaria tanto mais depressa 
quanto menos mostrssemos dar por ele. Agora arrependo-me 
do meu silncio, mas, como j disse, o meu marido parecia 
to preocupado e angustiado, to diferente do que era, que o 
meu principal empenho era no lhe causar mais preocupaes. 

M. Hautet acenou afirmativamente. 
Quando informou o seu pai das suas intenes em relao 
a Mademoiselle Daubreuil ele ficou surpreendido? 
Pareceu completamemte estupefacto. Depois ordenou-me 

#
peremptoriamente que tirasse semelhante ideia da cabea, pois 
nunca consentiria em tal casamento. Irritado, perguntei-lhe o 
que tinha contra Mademoiselle Daubreuil. No foi capaz de 
me dar uma resposta satisfatria, mas falou em termos depreciativos 

do mistrio que rodeava a vida da me e da filha. 

Declarei-lhe que ia casar com Marthe e no com os seus antecedentes, 
mas ele gritou-me que me calasse e recusou-se terminantemente 
a discutir o assunto, fosse em que sentido fosse. 

Ordenou-me que desistisse de tudo. A injustia e a arrogante 
arbitrariedade da sua atitude enfureceram-me, tanto mais que 
ele prprio fazia tudo para se mostrar atencioso para com as 
Daubreuils e estava sempre a sugerir que fossem convidadas a 
vir c a casa. Perdi a cabea e discutimos a valer. O meu pai 
lembrou-me que estava inteiramente dependente dele e deve 
ter sido em resposta a isso que disse que faria o que me apetecesse 

quando ele morresse... 
Poirot interveio, com uma pergunta rpida: 
Nessa altura estava ao conremte dos termos do testamento 
do seu pai? 
Sabia que me deixava metade da fortuna e outra metade 

 minha me, em usufruto, para me ser deixada por morte dela. 
Prossiga com a sua histria ordenou o juiz. 
Depois disso gritmos um com o outro, ambos cegos de 

raiva, at que me dei subitamente conta de que corria o risco 
de perder o comboio para Paris. Tive de correr para a estao, 
ainda furioso a mais no poder. No entanto, com a distncia, 
acalmei. Escrevi a Marthe a contar o que acontecera e a sua 
resposta ainda me tranquilizou mais. Ela fez-me ver que se nos 
mostrssemos firmes acabaramos por vencer qualquer oposio. 
O nosso afecto mtuo tinha de ser posto  prova, e quando 

#
os meus pais compreendessem que no se tratava de uma; 
paixoneta frvola da minha parte abrandariam, sem dvida, a 
nosso respeito. Claro que, na carta que lhe escrevera, eu no 
referira a principal objeco do meu pai ao casamento. No 
tardei a compreender que no beneficiaria nada a minha causa 
com a violncia. Meu pai escreveu-me diversas cartas afectuosas 
para Paris, sem que em nenhuma delas se referisse ao nosso 
desacordo nem  sua causa, e eu respondi-lhe no mesmo tom. 

Pode apresentar essas cartas? perguntou Giraud. 

No as guardei. 

No tem importncia declarou o detective. 
Renauld olhou-o, um instante, mas teve de voltar a prestar 
ateno ao juiz, que continuava com as perguntas: 
7 -VAMP. G. 2 

Mudando de assunto: o apelido de Duveen -lhe familiar, 

M. Renauld? 
Duveen? repetiu Jack. Duveen? Inclinou-se e, devagar, 
apanhou a faca de cortar papel que deixara cair; ao 
levantar a cabea os seus olhos encontraram o olhar atento de 
Giraud. Duveen? No, receio que no. 

Queira fazer o favor de ler esta carta e de me dizer se 
faz alguma ideia de quem a escreveu ao seu pai. 
Jack pegou na carta e leu do princpio ao fim, enquanto 


o (rubor lhe alastrava pelas faces. 
Quem a escreveu ao meu pai? repetiu, num tom de 
voz em que a emoo e a indignao transpareciam claramente. 
Sim. Encontrmo-la na algibeira do sobretudo dele. 

A minha... hesitou e lanou um brevssimo olhar na 
direco da me. 
O magistrado compreendeu. 

#
Por enquanto, no. Pode dar-nos alguma pista quanto  
sua autora? 
No fao a mnima ideia de quem seja. 

M. Hautet suspirou. 
Este caso  muito misterioso. Enfim, suponho que podemos 
ignorar a carta. Que diz, M. Giraud? Parece no nos 
conduzir a lado nenhum. 
Certamente que no conduz concordou o detective, 
enftico. 

E pensar que, ao princpio, parcia um caso to simples 
 claro! exclamou o juiz, a suspirar de novo, mas ao deparar 
com o olhar de Mrs. Renauld corou e atrapalhou-se. Bem... 

tossiu, enquanto remexia nos papis que tinha  frente 

bem, vejamos, onde amos ns? Ah, sim, a arma! Receio que 
este pormenor o v fazer sofrer, M. Renauld. Sei que foi um 
presente que ofereceu  sua me... Muito triste, muito deprimente... 
Jack Renauld inclinowse para a frente. O seu rosto, que 

corara durante a leitura da carta, estava agora mortalmente 
plido. 

Quer dizer que... que foi com o cortanpapeis feito-de 
arame de avio que o meu pai foi... morto? Impossvel! Uma 
coisinha to frgil! 

Infelizmente, M. Renauld, foi! Um instrumentozinho 
ideal, afiado e fcil de manejar. 
Onde est? Posso v-lo? Ainda est... no corpo? 

Oh, no! Foi retirado. Gostaria de o ver? Para ter a 
certeza? Creio que no h dificuldade, embora a sua me j o 
tenha identificado. No entanto... M. Bex, quer fazer o favor? 

com certeza, Sr. Juiz. Vou busc-lo imediatamente. 
No seria melhor levar M. Renauld ao barraco? sugeriu 

#
Giraud, brandamente. Ele desejar, sem dvida, ver o 
cadver do pai. 
O rapaz fez um gesto de negao, percorrido por um calafrio, 

e o magistrado, sempre disposto a no deixar escapar 
nenhuma oportunidade de contrariar Giraud, respondeu: 

No... neste momento, no. M. Bex ter a bondade de 
nos trazer aqui a arma. 
O comissrio saiu. Stonor foi ter com Jack e apertou-lhe a 
mo. Poirot, que se levantara, estava a endireitar um par de 
castiais, que lhe tinham parecido um nadinha tortos. O magistrado 

relia mais uma vez a misteriosa carta de amor, desesperadamente 

agarrado  sua primeira teoria de que o crime 
fora obra do cime. 
De sbito, a porta abriu-se violentamente e o comissrio 
entrou, alvoroado: 

Sr. Juiz! Sr. Juiz! 
Que se passa? 

O punhal! Desapareceu! 
Comment... desapareceu? 
Desapareceu, sumiu-se! O frasco de vidro que o continha 

est vazio! 

O qu?! gritei. Impossvel! Ainda esta manh o vi... 
as palavras morreram-me na garganta. 

Mas a ateno de todos fixara-se em mim. 
Que disse? perguntou-me o comissrio. Esta manh? 
Vi-o l esta manh respondi, devagar. H cerca de 

hora e meia, para ser exacto. 
Quer dizer que esteve no barraco? Como obteve a chave? 
Pedi-a ao sargent de ville. 
E foi l? Porqu? 

#
Hesitei, mas cheguei  concluso de que s me restava 
dizer a verdade. 

Sr. Juiz, cometi uma grave falta, para a qual rogo a sua 
indulgncia. 

Eh bien, prossiga! 

O facto  que... comecei, desejando de todo o corao 
estar em qualquer outro lado, muito longe dali ... que encontrei 
uma jovem, uma conhecida minha. Ela mostrou enorme 
interesse em ver tudo quanto havia para ver e eu... enfim, 
resumindo, pedi a chave e mostrei-lhe o cadver. 

Ah. par example. exclamou o juiz, indignado. 
Cometeu um grave erro, capito Hastings. Tudo isso  muitssimo 

irregular. No devia ter-se permitido semelhante loucura. 

Bem sei admiti, humildemente. Nada quanto o senhor 

disser ser suficientemente severo... 

No convidou essa senhora a vir c? 

Certamente que no. Encontrei-a por acaso. Trata-se de 
uma rapariga inglesa que est em Merlinville, facto que eu 
desconhecia at a encontrar, inesperadamente. 

Bem, bem...murmurou o magistrado, em tom menos 
severo. Foi um procedimento muito irregular, mas a senhora 
em questo  sem dvida jovem e bonita, nest-ce ps? O que  
ser jovem! O jeunesse, jeunesse\ e suspirou sentimentalmente. 
Mas o comissrio, menos romntico e mais prtico, voltou 
 carga: 

No fechou de novo a porta  chave, quando saiu? 

 isso mesmo,  por isso que me censuro to amargamente 

confessei. A minha amiga ficou transtornada com 

o espectculo e quase desmaiou. Fui-lhe buscar brande e gua 
e depois insisti em acompanh-la  cidade. com tudo isso 
#
esqueci-me de fechar a porta  chave e s o fiz quando regressei 
 moradia. 

Ento, durante pelo menos vinte minutos... murmurou 

o comissrio, devagar. 
Exactamente. 
Vinte minutos repetiu M. Bex. 
 deplorvel afirmou M. Hautet, falando de novo com 
severidade. Sem precedentes. 

De sbito, ouviu-se outra voz: 

Acha deplorvel, Sr. Juiz? 

Pois com certeza, M. Giraud. , 

Eh bien, eu acho-o admirvel! declamou o detective, 
imperturbvel. , , 
Aquele aliado inesperado deixou-me perplexo. 

Admirvel, M. Giraud? perguntou o magistrado observando-o 

cautelosamente pelo canto do olho. |, 

Precisamente. 

E porqu? _ -, 

Porque assim ficmos a saber que o assassino, ou um 
cmplice do assassino, esteve perto da moradia h apenas uma 
hora. Ser muito estranho se, com esse conhecimento, no lhe 
deitarmos em breve a mo explicou, em tom ameaador. 

Correu um grande risco para se apoderar do punhal. Talvez 
receasse que se pudessem descobrir nele impresses digitais. 
Poirot voltou-se para Bex e inquiriu: 

Disse que no havia-nenhumas, no disse? 

Mas Giraud encolheu os ombros e insistiu: 
Talvez ele no tivesse a certeza. 
Est enganado, M. Giraud afirmou Poirot. O assassino 
usou luvas. Portanto, no pode deixar de ter a certeza 

#
No digo que tenha sido o prprio assassino. Pode ter 
sido um cmplice, que ignorava esse facto. 

Os cmplices esto mal informados! murmurou Poirot, 
mas no disse mais nada. 
O escrivo estava a reunir a papelada. M. Hautet dirigiu-se-nos: 

O nosso trabalho est terminado. M. Renauld, tenha a 
bondade de ouvir, enquanto o seu depoimento lhe vai ser lido. 
Dirigi propositadamente todos os trabalhos do modo mais informal 

possvel. Tm classificado os meus mtodos de originais, 
mas eu insisto em afirmar que h muito a dizer a favor da 
originalidade. O caso fica agora nas mos inteligentes do famoso 

M. Giraud, que voltar sem dvida a distinguir-se. Confesso 
at que me admira que ele no tenha j deitado a mo 
aos assassinos! Madame, permita que lhe apresente mais uma 
vez as minhas sinceras condolncias. Messieurs, bons dias a 
todos. 
Saiu, acompanhado pelo escrivo e pelo comissrio. 
Poirot tirou o enorme cebolo do bolso e viu as horas. 
Voltemos ao hotel para almoar, meu amigo disse-me. 

E vai-me contar, com todos os pormenores, as imprudncias 
desta manh. Podemos sair sem nos despedirmos, pois no 
est ningum a observar-nos. 
Samos silenciosamente da sala. O magistrado acabava de 
partir, no seu automvel. Comeara a descer os degraus quando 
a voz de Poirot me deteve: 

Um momentinho, meu amigo. 
Rpido, tirou o metro da algibeira e, solenemente, mediu, 
da gola  bainha, um sobretudo que estava pendurado no vestbulo. 

Como no o vira l antes, calculei que pertencia a 


M. Stonor ou a Jack Renauld. 
Depois, com uma exclamaozinha de satisfao, Poirot 
#
guardou o metro e seguiu-me. 

CAPITULO XII 
Poirot Esclarece Certos Pontos 
Porque mediu o sobretudo? perguntei, com certa 

curiosidade, enquanto descamos vagarosamente a estrada escaldante. 
Parbleul Para saber qual era o seu comprimento respondeu, 
imperturbvel, o meu amigo. 

Senti-me humilhado. O hbito incurvel que Poirot tinha de 
transformar tudo e nada num mistrio nunca deixava de me 
irritar. Remeti-me ao silncio e entreguei-me aos meus prprios 
pensamentos. Embora na altura no me tivessem chamado 
especialmente a ateno, certas palavras que Mrs. Renauld 
dissera ao filho voltavam-me  memria, prenhes de novo significado. 

Ento no embarcaste?)), pergumltara ela, e depois 
acrescentara: No fim de contas, no importa... agora. 
Que quisera dizer com aquilo? As palavras eram enigmticas... 

significativas. Seria possvel que ela soubesse mais do 
que ns julgvamos? Negara qualquer conhecimento da misteriosa 

misso que o marido tencionava confiar ao filho... Mas, 
na realidade, ignoraria menos do que pretendia? Poderia escla-recer-
nos, se quisesse, e seria o seu silncio parte de um plano 
cuidadosamente pensado e preconcebido? 
Quanto mais pensava nisso, tanto mais me convencia de 
que tinha razo. Mrs. Renauld sabia mais do que se dignava 
dizer. Na sua surpresa, ao ver o filho, trara-se momentnea-
mente. Estava convencido de que ela conhecia se no os assassinos, 

pelo menos o mbil do crime. Mas consideraes poderosas 
levavam-na a calar-se. 
Est profundamente absorto nos seus pensamentos, meu 

amigo observou Poirot, interrompendo as minhas reflexes. 

#
Que o intriga assim tanto? 
Disse-lho, seguro do terreno que pisava, embora esperasse 


que ridicularizasse as minhas suspeitas. Mas, para minha surpresa, 
ele acenou com a cabea, pensativamente. 
Tem toda a razo, Hastings. Desde o princpio que tenho 


a certeza de que ela oculta qualquer coisa. Cheguei a pensar 
que era, se no a inspiradora do crime, pelo menos conivente 
nele. 


Suspeitou dela? perguntei, admirado. 
Mas com certeza! Ela beneficia enormemente... na realidade, 
graas ao novo testamento,  a nica pessoa que beneficia 


com a morte do marido. Por isso, desde o princpio, mereceu-me 
ateno especial. Deve ter reparado que aproveitei a primeira 
oportunidade que se me ofereceu para lhe examinar os pulsos. 
Desejava verificar se teria havido alguma possibilidade de ela 
prpria se ter amordaado e amarrado. Eh bien, percebi logo 
que no se tratava de farsa; as cordas tinham sido to apertadas 
que lhe haviam cortado a carne. Isso excluiu a possibilidade 
de ela ter cometido o crime sozinha. Mas continuava a ser 
possvel que tivesse sido conivente ou a instigadora, com um 
cmplice. Alm disso, a histria que contou pareceu-me singularmente 


familiar... Os homens mascarados que no pudera 
identificar, a meno do segredo... J ouvira ou lera todas 
aquelas coisas. Outro pequeno pormenor confirmou a minha 
convico de que ela no falava verdade: o relgio de pulso, 
Hastings, o relgio de pulso! 


Outra vez o (relgio de pulso! E Poirot observava-me curiosamente. 
Est a ver, mon ami? Compreende? 
No respondi, com certo mau humor. No vejo nem 


compreendo. Voc arranja todos esses malditos mistrios e  


#
escusado pedir-lhe que se explique. Gosta sempre de conservar 


tudo escondido na manga at ao ltimo momento. 
No se irrite, meu amigo pediu Poirot, a sorrir. Explicar-lhe-ei, 
se o deseja. Mas nem uma palavra ao Giraud, 


cest entendu? Ele trata-me como um velho sem importncia! 


Veremos! Dei-lhe uma sugesto, com toda a lealdade. Se decidir 
que no vale a pena investig-la, o problema ser dele. 
Garanti a Poirot que podia contar com a minha discrio. 


Cest bien. Vamos ento empregar as nossas celulazinhas 
cinzentas. Diga-me, meu amigo, na sua opinio, a que horas 
se deu a tragdia? 


Bem, s duas horas, mais ou menos! respondi, admirado. 


Deve lembrar-se de que Mrs. Renauld nos disse que 
ouviu o relgio bater duas badaladas, quando os homens 
estavam no quarto. 


Exactamente. E, baseados nisso, voc, o juiz de instruo, 


Bex, todos, enfim, aceitaram essa hora sem contestao. 
Mas eu, Hercule Poirot, digo que Madame Renauld mentiu. 
O crime foi cometido pelo menos duas horas mais cedo. 


Mas os mdicos... 


Os mdicos declaram, depois de examinarem o corpo, 
que a morte ocorrera entre dez e sete horas antes. Mon ami, 
por qualquer razo imperiosa era necessrio que o crime parecesse 


ter sido cometido mais tarde do que na realidade fora. 
j leu, com certeza, casos em que um relgio de pulso, ou de 
outro tipo, registou, ao partir-se, a hora exacta de um crime, 
no  verdade? Para que a hora no dependesse apenas do 
depoimento de Mrs. Renauld, algum adiantou os ponteiros, 
daquele relgio de pulso para as duas horas e depois atirou-o 
violentamente ao cho. Mas, como tamtas vezes acontece, o 


#
feitio virou-se contra o feiticeiro. O vidro do relgio, partiu-se, 
mas o mecanismo resistiu e continuou a trabalhar. Foi uma 
manobra muito desastrosa da parte deles, pois chamou imediatamente 

a minha ateno para dois pontos: Primeiro, que 
Madame Renauld mentia; segundo, que devia haver qualquer 
razo vital para o adiantamento da hora. 

Mas que razo poderia ter havido? 

A  que bate o ponto!  a que reside todo o mistrio. 
Por enquanto, ainda no sei explic-lo. Apenas me ocorre uma 
ideia que porventura ter qualquer relao com o caso. 

Qual? 

O ltimo comboio parte de Merlinville dezassete minutos 
depois da meia-noite. 
Acompanhei lentamente o seu raciocnio: 

Assim, tendo-se o crime verificado aparentemente duas 
horas mais tarde, algum que partisse de comboio teria um 
libi inatacvel! 

Perfeito, Hastings! Acertou! 

Nesse caso, temos de investigar na estao! Certamente 
no passaram despercebidos dois desconhecidos que partiram 
nesse comboio! Temos de l ir imediatamente! 
Acha que sim, Hastings? 

Claro! Vamos j. 
Poirot conteve o meu ardor com uma palmadinha no brao. 

V, mon ami, se quiser... mas se for no faa indagaes 
acerca de dois desconhecidos. 
Olhei-o, admirado, e ele perguntou, impaciente: 

L, l, no acredita em toda essa histria, pois no? Nos 
dois mascarados e em todo o resto de cette histoire-l? 
As suas palavras deixaram-me to aparvalhado que nem 

#
soube que dizer. Mas ele continuou, serenamente: 

Ouviu-me dizer ao Giraud que todos os pormenores deste 
crime me eram. familiares, no ouviu? Eh bien, isso pressupe 
uma de duas coisas: ou o crebro que planeou o primeiro crime 
tambm plameou este, ou ento a narrativa lida de uma cause 
clebre permaneceu na memria do nosso assassino e inspirou-o, 
quanto aos pormenores. Poderei pronunciar-me definitivamente 
a esse respeito depois... mas no concluiu a frase. 

Mas... e a carta de Mr. Renauld? Alude claramente a 
um segredo e a Santiago. 

Claro que havia um segredo na vida de M. Renaul, quanto 
a isso no podem restar dvidas. Por outro lado, acho que a 
palavra Santiago se destina a despistar:  constantemente atravessada 
no caminho para nos desorientar.  possvel que a 
tenham utilizado do mesmo modo com M. Renaudd, para o 

impedir de concentrar as suas suspeitas em algo mais prximo. 
Pode ter a certeza, Hastings, de que o perigo que o ameaava 
no se encontrava em Santiago e sim perto dele, em Frana. 
Falara to gravemente e com tamanha convico que no 
pude deixar de me convencer tambm. No entanto, ainda tentei 
uma derradeira objeco: 

E o fsforo e a ponta de cigarro encontrados perto do 
cadver? 
Foram l colocados! Foram l colocados deliberadamente, 
para que o Giraud ou algum da sua tribo os encontrasse! Ah, 

o Giraud  esperto, conhece uns truques! Mas um bom co de 
caa no lhe fica atrs nisso. Mostrou-se to satisfeito consigo 
prprio! Rastejou durante horas, mas depois pde dizer: Vejam 
o que encontrei! E perguntou-me: Que v aqui? No pude 
deixar de lhe responder, com profunda e absoluta verdade: 
#
Nada. E Giraud, o grande Giraud, riu-se e pensou para consigo: 

Oh, como o velhote  imbecil! Mas veremos! 
O meu esprito voltou aos factos principais: 

Ento toda essa histria dos homens mascarados...? 

 falsa. 

Que aconteceu, realmente? 
Poirot encolheu os ombros, ao responder: 

H uma pessoa que nos poderia dizer: Madame Renauld. 
Mas ela no falar. Nem ameaas nem splicas a demovero. 
 uma mulher extraordinria, Hastings. Compreendi, mal lhe 
pus os olhos em cima, que me encontrava perante uma mulher 
de carcter fora do vulgar. Ao princpio, como lhe disse, 
senti-me inclinado a suspeitar de que estava implicada no 
crime, mas depois mudei de opinio. 

Porqu? 

Por causa da dor espontnea e sincera que manifestou 
ao ver o cadver do marido. Juraria que a angstia do seu grito 
foi autntica. 

Sim, uma pessoa no se pode enganar com essas coisas. 

Peo desculpa, meu amigo, mas podemo-nos sempre 

enganar com essas coisas. Imagine uma grande actriz, por 
exemplo. A maneira como representa a dor no o impressiona 
e avassala pelo seu realismo? No, por mais fortes que fossem 
a minha impresso e a minha convico, precisei de outra 
prova antes de me dar por satisfeito. O grande criminoso pode 
ser tambm um grande actor. Neste caso, baseio a minha 
certeza no na minha prpria impresso, mas sim no facto 
inegvel de Mrs. Renauld ter desmaiado. Foi um desmaio 
autntico. Levantei-lhe as plpebras e auscultei-lhe o pulso. 
No havia farsa, era autntico. Por isso adquiri a certeza de 

#
que a sua angstia tambm era autntica e no fingida. Alis, 
h um pequeno pormenor que no deixa de ter interesse: era 
desnecessrio Mrs. Renauld manifestar um sofrimento incontrolvel. 

Tivera um paroxismo ao saber da morte do marido 
e no precisava de simular outro to violento ao ver-Lhe o 
cadver. No, Mrs. Renauld no foi a assassina) do marido. Mas 
porque mentiu? Mentiu acerca do relgio de pulso, mentiu 
acerca dos mascarados... e mentiu acerca de uma terceira 
coisa. Diga-me c, Hastings, qual  a sua explicao para a 
porta aberta? 

Bem, suponho que foi um esquecimento respondi, embaraado. 
Esqueceram-se de a fechar. 
Poirot abanou a cabea e suspirou. 

Essa  a explicao do Giraud, mas no me satisfaz. 
Atrs daquela porta aberta h um significado que me escapa, 
por enquanto. 


Tenho uma ideia! exclamei, de sbito. 
A la bonne heure ! Ouamo-la. 
Estamos de acordo em que a histria de Mrs. Renauld 


 uma inveno. Nesse caso, no ser possvel que M. Renauld 
tenha sado de casa para comparecer a um encontro (talvez 
com o assassino) e deixado a porta aberta, para quando voltasse? 


Mas no voltou e na manh seguinte foi encontrado 
morto, apunhalado pelas costas. 
Admirvel teoria, Hastings, mas infelizmente, e caracte


tisticamente, esqueceu-se de dois factos. Em primeiro lugar 
quem amordaou e amarrou Madame Renauld? E por que 
demnio voltariam eles a casa para fazer isso? Em segundo 
lugar, nenhum homem sairia de casa, para um encontro, vestindo 


apenas a roupa debaixo e um sobretudo. H circunstncias 


#
em que um homem pode vestir pijama e um sobretudo, 


mas roupa de baixo e sobretudo... nunca! 
Tem razo admiti, desolado. 
Temos de procurar noutro lado a soluo do mistrio 


da porta aberta. De uma coisa estou relativamente convencido: 


no saram pela porta e, sim, pela janela. 
Mas no havia pegadas no canteiro, debaixo da janela. 
No havia... e devia haver. Escute, Hastings. O jardineiro 


Auguste, como voc prprio o ouviu dizer, plantou ambos os 
canteiros na tarde anterior. Num deles no faltavam impresses 
deixadas pelas suas botifarras cardadas, mas no outro no 
havia impresses nenhumas. Est a compreender? Algum 
passou por l, algum que, para apagar as suas pegadas, alisou 
a superfcie do canteiro com um ancinho. 


Onde arranjariam o ancinho? 
A esse respeito no haveria dificuldade nenhuma. 
Mas porque pensa que saram por a? Certamente  mais 


provvel que tenham entrado pela janela e sado pela porta. 
Isso  possvel, claro. No entanto, tenho a forte impresso 


de que saram pela janela. 
Acho que est enganado. 
Talvez, mon ami. 


Meditei no novo campo de conjectura que as dedues de 
Poirot me haviam facultado. Recordei a surpresa e a confuso 
que me tinham causado as suas aluses enigmticas ao canteiro 
e ao relgio de pulso. Na altura, as suas observaes 
tinham-me parecido absolutamente vazias de significado, mas 
agora, pela primeira vez, no podia deixar de considerar 
extraordinariamente a maneira como, partindo de alguns pequenos 


incidentes, ele deslindara a maior parte do mistrio que 


#
envolvia aquele caso. Mentalmente, prestei uma homenagem 
tardia ao meu amigo. Como se lesse os meus pensamentos 
acenou com a cabea, com um ar muito sensato, e observou: 
Mtodo, compreende? Mtodo! Organize os seus factos, 
organize as suas ideias, e se um factozinho no se ajustar no 
conjunto, estude-o atentamente, em vez de o rejeitar. Embora 

o seu significado lhe escape, tenha a certeza de que  significativo. 
Entretanto murmurei, pensativo, embora saibamos 
muito mais do que sabamos, no estamos mais perto da soluo 

do mistrio de quem matou M. Renauld. 

Pois no concordou Poirot, sorridente. < Na realidade, 

estamos at muito mais longe. 
O facto parecia causar-lhe uma satisfao to peculiar que 


o fitei, estupefacto. Ele porm retribuiu o meu olhar e voltou 
a sorrir. 
 melhor assim, acredite. Antes, havia para todos os 
efeitos uma teoria clara quanto a como e em cujas mos ele 
encontrara a morte. Agora tudo isso se dissipou. Estamos s 
escuras. Confundem-nos e preocupam-nos cem pormenores 
contraditrios.  bom que seja assim.  excelente. Da confuso 
nasce a ordem. Mas quando, para comear, encontrar ordem, 
quando um crime lhe parecer simples e sem complicaes, eh 
bien, mfiez vous! Foi tudo (como  que vocs dizem?), foi 
tudo cozinhado! O grande criminoso  simples, mas muito 
poucos criminosos so grandes. Ao tentarem apagar as pistas 
denunciam-se invariavelmente. Ah, mon ami, como gostaria 
de encontrar um dia um grande criminoso, verdadeiramente 
grande, um criminoso que cometesse o seu crime e depois no 
fizesse nada! Eu prprio, Hercule Poirot, seria talvez incapaz 
de apanhar um criminoso assim. 
Mas eu no prestara ateno s suas palavras, pois subita


#
mente explodira em mim uma luz. 
Poirot! Mrs. Renauld! Agora compreendo. Ela deve estar 
a encobrir algum! 

Pela seriedade com a qual Poirot ouviu as minhas palavras, 

deduzi que a ideia j lhe devia ter ocorrido. 
Sim concordou, pensativamente. Deve estar a encobrir 
ou a proteger algum. Das duas, uma. 

Pareceu-me existir pouca diferena entre os dois verbos, 
mas desenvolvi o meu tema com boa dose de entusiasmo. 
Poirot manteve uma atitude reservada, limitamdo-se a repetir: 

Sim,  possvel,  possvel. Mas por enquanto no sei. 
H algo muito profundo subjacente a tudo isto. Voc ver. 
Algo muito profundo... 
Depois, ao entrarmos no hotel, recomendou-me silncio com 
um gesto. 
CAPTULO XIII ., 

A Rapariga dos Olhos Ansiosos 

Almomos com excelente apetite. Compreendi muito bem 
que Poirot no desejasse discutir ali a tragdia, pois facilmente 
nos poderiam ouvir. Mas, como costuma acontecer quando um 
tpico nos enche a mente com excepo de tudo o mais, no  
nos ocorreu nenhum outro assunto de interesse. Comemos em 
silncio, durante algum tempo, e por fim Poirot observou, 
maliciosamente: 
Eh bien, vamos s suas imprudncias! Vai contar-mas 
agora? 
Senti-me corar, mas consegui adoptar um tom de absoluta 
despreocupao, ao perguntar: 
Refere-se a esta manh? 
No estava, porm,  altura de terar armas com Poirot. 


#
Em poucos minutos arrancou-me a histria toda, enquanto os 
seus olhos cintilavam de prazer. 
Tiensl Uma histria muito romntica. E como se chama 
essa encantadora jovem? 

Tive de confessar que no sabia. 


Mais romntico ainda! O primeiro rencontre no comboio 
de Paris e o segundo aqui. No se costuma dizer que as viagens 
terminam em encontros de namorados? 


No seja idiota, Poiirot. 
Ontem era Mademoiselle Daiubreul, hoje  Mademoiselle... 
Cinderela! No h dvida, Hastings, tem corao de 


turco! Devia constituir um harm. 
 muito fcil divertir-se  minha custa. Mademoiselle 
Daoiibreuil  uma rapariga muito bonita e eu adimiro-a imensamente. 

No me importo de o admitir. A outra no  nada... 
creio at que no a voltarei a ver. Foi divertido conversar com 
ela duramte uma viagem de comboio, mas no  o tipo de 
rapariga pela qual me venha a prender. 

Porqu? 
Bem... talvez parea pedante, mas no  uma senhora, 
em nenhuma acepo da palavra. 
Poirot acenou com a cabea, pensativamente, e foi em tom 
menos trocista que perguntou: 

Acredita, ento, em nascimento e educao? 
Posso ser bota-de-elstico, mas no que no acredito  no 
casamento entre pessoas de classes diferentes. No d resultado. 

Concordo consigo, mon ami. Noventa e nove vezes em 
cada cem  como voc diz. Mas h sempre a excepo, a tal 
uma vez em cada cem! Mas isso est fora de questo, j que 
no tenciona voltar a ver a jovem. 

#
As suas ltimas palavras eram quase uma pergunta e no 
me escapou a agudeza do olhar que me lanou. Vi diante dos 
olhos, escrita a grandes letras de fogo, a frase Hotel du Phare 
e ouvi de novo a voz dela a dizer: V visitar-me. E ouvi 
tambm a minha resposta pronta e entusistica: Irei! 
E depois? Tencionara ir, na altura, mas desde ento tivera 
tempo de reflectir. No gostava da rapariga. Pensara bem, a 
samgue-frio, e chegara  concluso definitiva de que, pelo contrrio, 

antipatizava intensamente com ela. Passara um mau 

bocado, vexatrio e humilhante, por lhe ter satisfeito a curiosidade 
mrbida e no tinha o mnimo desejo de a voltar a ver. 

Por isso foi despreocupadamente que respondi a Poirot: 
Ela convidou-me a visit-la, mas eu no irei, claro. 
Claro porqu? 
Bem... porque no quero. 
Compreendo. Observou-me com ateno, durante alguns 
minutos, e acrescentou: Sim, compreendo muito bem. 

 sensato, sem dvida. Mantenha-se fiel ao que disse. 
Esse parece ser o seu conselho invarivel resmunguei, 
picado. 
Ah, meu amigo, tenha confiana no pap Poirot! Um 
dia, se mo permitir, arranjar-lhe-ei um casamento da maior convenincia. 

Obrigado agradeci, a rir , mas a perspectiva deixa-me 
frio. 
Poirot suspirou e abanou a cabea. 

Ls Anglais! Nenhum mtodo... absolutamente nenhum. 
Deixam tudo entregue ao acaso! Franziu a testa e modificou 
a posio do saleiro. Disse que Mademoiselle Cinderela estava 
no Hotel dAngleterre, no disse? 

No. Hotel du Phare. 

#
Tem razo, esquecera-me. 
Senti-me momentaneamente desconfiado, ao lembrar-me de 
que no mencionara o nome de nenhum hotel. Mas olhei para 
Poirot e tranquilizei-me. Ele cortava o po em quadradinhos 
muito certos, totalmente absorto nessa tarefa. Devia ter imaginado 

que eu lhe dissera onde a rapariga estava instalada... 
Bebemos o caf na varanda, virados para o mar. Poirot 
fumou um dos seus minsculos cigarros e depois tirou o relgio 
da algibeira. 

O comboio para Paris parte s duas e vinte e cinco 

observou.  melhor ir andando. 
Paris? perguntei, surpreendido. 
Foi isso que eu disse, mon ami. 

8-VAMP. G. 2 

Vai a Paris? Mas porqu? 
Respondeu-me com a maior seriedade: 
Vou procurar o assassino de M. Renauld. 

Pensa que ele est em Paris? 
Tenho a certeza de que no est. No entanto,  l que 
devo procur-lo. No compreende, mas descanse que lhe explicarei 
tudo a seu tempo. Acredite, esta viagem a Paris  necessria. 

No me demorarei, segundo todas as probabilidades 
estarei de volta amanh. No proponho que me acompanhe; 
fique aqui e no perca o Giraud de vista. Tente tambm cair 
nas boas graas de M. Renauld fils. E finalmente, se o desejar, 
tente indisp-lo com Mademoiselle Marthe... embora eu tema 
que no seja bem sucedido nisso. 
Confesso que no me agradou muito a ltima observao. 

Isso recordou-me uma coisa: tencionava perguntar-lhe 
como soube o que se passava entre os dois. 

#
Conheo a natureza humana, mon ami. Coloque-se 
perto um do outro um rapaz como o jovem Renauld e uma 
bonita rapariga como Mademoiselle Marthe, e o resultado  
quase inevitvel. E, depois, a discusso... S poderia ter sido 
por causa de dinheiro ou de uma mulher. Perante a descrio 
que Lonie fez da clera do moo, optei pela segunda hiptese. 
Por isso fiz a minha conjectura... e acertei. 

Foi por isso que me aconselhou a no me prender  

jovem? J suspeitava de que ela amava Jack Renauld? 
Pelo menos, vi que ela tinha olhos ansiosos respondeu-me, 
a sorrir.  sempre assim que penso em Mademoiselle 

Daubreuil: a rapariga dos olhos ansiosos. 

Falava com uma voz to grave que me impressionou desagradavelmente. 
Que quer dizer com isso, Poirot? 
Creio, meu amigo, que o saberemos em breve. Mas agora 


tenho de partir. 
Tem montes de tempo. 


Talvez... talvez. Mas gosto de chegar  estao adiantado. 
No desejo apressar-me, correr, excitar-me. 
De qualquer modo, acompanho-o at l declarei, levantando-me. 
No acompanha nada. Proibo-o. 


Falou to peremptoriamente que o fitei, surpreendido. Acenou 
com a cabea, muito grave, e acrescentou: 
Falo a srio, mon ami. Au revoir! Permite que o abrace? 


Claro que no, no  esse o costume ingls. Une poigne de 
main, alors. 


Senti-me um bocado desorientado, quando Poirot me deixou. 
Fui at  praia e observei os banhistas, mas sem me sentir com 
coragem para os imitar. Imaginava que talvez Cinderela estivesse 


a divertir-se entre eles, com algum fato maravilhoso, mas 


#
no vi sinais dela. Caminhei  toa pela areia, na direco do 
extremo da cidade. Pensei que, no fim de contas, seria decente 
da minha parte ir ver como a pequena estava. E talvez at 
acabasse por simplificar as coisas, pois o assunto ficaria arrumado. 

No teria necessidade de me preocupar mais com ela. 
Ao passo que, se no fosse, ela seria capaz de me ir procurar 
 Villa Genevive, o que seria aborrecido em todos os sentidos. 
Decididamente, seria melhor fazer-lhe uma __ breve visita, no 
decorrer da qual deixaria bem entendido que no podia fazer 
mais nada por ela, na minha capacidade de cicerone. 
Sa, portanto, da praia e caminhei para-o interior. No 
tardei a encontrar o Hotel du Phare, um edifcio muito despretensioso. 

Era aborrecidssimo ignorar o nome da rapariga e, 
para poupar a minha dignidade, resolvi entrar e dar uma vista 
de olhos. Provavelmente encontr-la-ia na sala. Merlinville era 
uma terra pequena, saa-se do hotel para ir  praia e da praia 
para regressar ao hotel. Entrei. Estavam diversas pessoas sentadas 

na pequena sala, mas no se encontrava entre elas aquela 
que eu procurava. Procurei noutros compartimentos contguos, 
mas nem sinal dela. Esperei algum tempo e, por fim, a impa


cincia levou a melhor: chamei o porteiro de parte e meti-lhe 
cinco francos na mo. 
Desejo falar com uma senhora que est aqui hospedada. 
 uma jovem inglesa, baixa e morena. No estou bem certo do 
seu nome... 
O homem abanou a cabea e pareceu-me reprimir um 
sorriso. 
No est c hospedada nenhuma senhora com essa ds


crio. 
Talvez seja americana, insinuei; aqueles tipos eram to 

#
estpidos!... 
Mas o homem continuou a abanar a cabea. 


No, monsieur. S c temos seis ou sete senhoras inglesas 
e americanas, ao todo, e so muito mais velhas do que a 
senhora que procura. No ser aqui que a encontrar, monsieur. 
. Foi to positivo que comecei a ter as minhas dvidas. 


Mas a senhora disse-me que estava aqui hospedada... 


Monsieur deve ter-se enganado... ou o mais certo  o 
engano ser da senhora, pois j aqui esteve outro cavalheiro 
a perguntar por ela. 
Que disse? quase gritei, surpreendido. 
 verdade, monsieur. Um cavalheiro que a descreveu 
exactamente como o senhor. 


Como era ele? 


Era um cavalheiro baixinho, bem vestido, muito elegante, 
muito impecvel, de bigode muito teso, cabea de um formato 
peculiar e olhos verdes. 
Poirot! Por isso me proibira de o acompanhar  estao. 
A impertinncia do indivduo! Havia de lhe recomendar que 
no se metesse nos meus assuntos. Julgaria que eu precisava 
de uma ama, para olhar por mim? 
Agradeci ao porteiro e sa, um pouco decepcionado e muito 
irritado com o meu intrometido amigo. Lamentei que, de mo


mento, estivesse fora do meu alcance, pois gostaria muito de lhe 
dizer o que pensava da sua indesejada intromisso. No lhe 


dissera claramente que no tinha a mnima inteno de visitar 
a rapariga? Os amigos eram, s vezes, excessivamente zelosos! 
Mas aonde estava a rapariga, afinal? Esqueci a irritao e 
tentei decifrar esse enigma. Claro que, inadvertidamente, se 
enganara ao dar-me o nome do hotel. Mas, de sbito, acudiu-me 


#
outro pensamento: Teria, sido de facto inadvertidamente? Ou 
ocultara-me deliberadamente o seu nome e, tambm deliberada 

mente, indicara-me a morada errada? 
Quanto mais pensava no assunto tanto mais me convencia 
de que a ltima hiptese era a verdadeira. Por qualquer razo, 
ela no desejava que o nosso conhecimento se desenvolvesse 
e transformasse em amizade. Enfim, tudo aquilo era profundamente 

desagradvel. A remoer tais pensamentos, fui at  Villa 
Genevive, muito mal humorado. Em vez de me dirigir para a 
moradia, meti pelo caminho que levava ao banco junto da 
barraca e sentei-me a, amuado. 
O som de vozes prximas arrancou-me s minhas melanclicas 

cogitaes. Compreendi num pice que as vozes no 
vinham do jardim onde me encontrava e, sim, do jardim vizinho, 
da Villa Marguerite, e que alm disso se aproximavam 

rapidamente. Ouvi uma voz feminina, que reconheci acto contnuo 
como a da bela Marthe: 
Chr dizia ,  realmente verdade? Acabaram todas 

as nossas preocupaes? 
Sabes bem que sim, Marthe respondeu-lhe Jack Renauld. 

Agora nada nos pode separar, querida. O ltimo 
obstculo  nossa unio desapareceu, nada te pode afastar de 
mim. 
-Nada? repetiu baixinho a rapariga. Oh, Jack, 
Jack tenho medo 
Compreendi que, involuntariamente, estava a escutar uma 
conversa e decidi ir-me embora. Ao levantar-me, vi-os atravs 
de uma abertura da sebe. Estavam juntos, virados para mim, 
ele a enla-la com um brao e a fit-la nos olhos. Formavam 
um esplndido par, o rapaz moreno e bem constitudo e a 

#
jovem e loura deusa. Vendo-os assim, dir-se-ia terem sido feitos 
um para o outro e sentirem-se felizes apesar da terrvel tragdia 
que se abatera como uma sombra sobre as suas juvenis vidas. 
Mas o rosto da rapariga estava perturbado e Jack Renauld 
pareceu aperceber-se disso, pois apertou-a mais a si e perguntou: 
Tens medo de qu, amor? Que h a recear... agora? 
Vi ento a expresso dos olhos dela, a expresso de que 
Poirot falara, quando murmurou, to baixinho que quase tive 
de adivinhar as palavras: 

Tenho medo... por ti. 
No ouvi a resposta do jovem Renauld, pois a minha ateno 

foi atrada para um ponto que me pareceu estranho, na 
sebe, um pouco mais abaixo. Parecia haver ali um arbusto 
acastanhado, o que era pelo menos inslito naquele comeo 
de Vero. Resolvi ir investigar, mas, ao aproximar-me, o arbusto 
castanho recuou precipitadamente e enfrentou-me com um 
dedo nos lbios... Era Giraud. 
Recomendando-me cautela, seguiu  minha frente na direco 

do barraco, at estarmos fora do alcance auditivo 

do par. 
Exactamente o mesmo que voc: a escutar. 
Mas eu no estava a escutar de propsito! 
Pois eu estava! replicou Giraud. 

Como de costume, admirei o indivduo, apesar de antipatizar 

com ele. Mediurme de alto a baixo, com uma espcie de 
desagrado desdenhoso. 
>No ajudou nada, com a sua interferncia. Dentro de 
momentos poderia ter ouvido alguma coisa til. Que  feito do 
seu velho fssil? 

M. Poirot foi a Paris respondi friamente. E deixe-me 
dizer-lhe, M. Giraud, que ele  tudo menos um velho fssil. 
#
Solucionou muitos casos que tinham deixado a Polcia inglesa 
absolutamente desconcertada... 
Ora, a Polcia inglesa! Giraud deu um estalo com os 

dedos, depreciativamente. Deve estar ao nvel dos nossos 
juizes de instruo. Foi ento a Paris, hem? Fez muito bem. 
Quanto mais tempo l se demorar, melhor. Mas que julga ele ir 
encontrar em Paris? 
Pareceu-me ler na pergunta uma certa inquietao e fechei-me 

na concha: 
No estou autorizado a diz-lo. 
Mediu-me de novo, perscrutadoramente, e observou, grosseiro: 

Ele deve ter tido suficiente bom senso para no lhe 
dizer. Boas tardes, tenho que fazer. 
Girou nos calcanhares e deixou-me sem cerimnia. As coisas 
pareciam ter chegado a ponto morto, na Villa Genevive. Era 
evidente que Giraud no desejava a minha companhia, e, pelo 
que vira, apostaria que Jack Renauld tambm a dispensava. 
Regressei  cidade, tomei um bom banho de mar e fui para 

o hotel. Deitei-me cedo, a perguntar a mim mesmo se o dia 
seguinte traria algo de interesse. 
No estava porm nada preparado para o que trouxe. 
Tomava o pequeno-almoo na sala de jantar quando o criado, 
que estivera a falar com algum no exterior, voltou  sala, 
muito agitado. Hesitou um momento, s voltas com o guardanapo, 
e por fim decidiu-se: 
Desculpe, monsieur, mas est relacionado com o caso da 


Villa Genevive, no est? 
Estou respondi prontamente. Porqu? 
Ento o senhor no ouviu a notcia? 
Que notcia? 

#
Houve outro assassnio a noite passada! 


O qu?! 
Deixei o pequeno-almoo, agarrei no chapu e corri o mais 
depressa que pude. Outro assassnio... e Poirot ausente! Que 
fatalidade! Mas quem seria o assassinado? 
Transpus o porto a correr e encontrei um grupo de criadas 


no caminho de carros, a falar e a gesticular. Dirigi-me a Franfoise: 


Que aconteceu? 
Oh, monsieur, monsieur! Outra morte!  horrvel! Rogaram 
uma praga  casa. Sim, sim, uma praga! Deviam mandar 


chamar o Sr. Cura, com gua benta... No dormirei mais 
nenhuma noite debaixo daquele tecto!  capaz de ser a minha 
vez a seguir, quem sabe? 
Benzeu-se muito depressa. 


Mas quem foi morto? 
-Sei l! Um homem, um desconhecido. Encontraram-no 
ali, na barraca, a menos de cem metros do local onde encontraram 


o pobre monsieur! Mas isso no  tudo: foi apunhalado, 
apunhalado no corao com o mesmo punhal! 
CAPTULO XIV 
O Segundo Cadver 
Sem esperar para ouvir mais, virei-me e corri pelo caminho 
que levava  barraca. Os dois homens que l se encontravam de 
guarda afastaram-se para me deixar passar e eu entrei, numa 
grande agitao. 
A luz era fraca. A construo era uma tosca barraca de 
madeira para guardar vasos velhos e ferramentas. Transpus o 
limiar impetuosamente, mas detive-me logo, fascinado com o 
espectculo que se me deparou. 
Giraud estava de gatas, com uma lanterna de bolso na mo, 
#
a examinar todos os centmetros de solo. Levantou a cabea, de 


testa franzida, ao ouvir-me entrar, e depois o seu rosto descontraiu-se 
numa expresso de bem humorado desdm. 
Ah, cest 1anglais! Entre, entre. Vejamos o que me diz 


desta histria. 
Espicaado pelo tom da sua voz, baixei a cabea e entrei. 


Ele est ali informou Giraud, apontando a luz da 
lanterna para um canto da barraca. 
O homem estava estendido de costas. Era de estatura mediana, 


moreno e aparentava uns cinquenta anos. Vestia fato 
azul-escuro de bom corte e provavelmente feito por um bom 
alfaiate, mas que j no era novo. Tinha o rosto terrivelmente 
convulsionado e do lado esquerdo, mesmo sobre o corao, 
emergia-lhe o cabo preto e reluzente de um punhal que reconheci: 


o mesmo que vira dentro de um frasco de vidro, na 
manh anterior! 
O mdico deve chegar de um momento para o outro 
informou Giraud ; embora praticamente no precisemos dele. 
V-se bem do que o tipo morreu: foi apunhalado no corao 
e a morte deve ter sido instantnea ou quase. 

Quando o mataram? A noite passada? 
Giraud abanou a cabea. 

No creio. No sou perito em medicina legal, mas o 
homem deve estar morto h mais de doze horas. Quando disse 
que viu o punhal pela ltima vez? 

Cerca das dez horas da manh de ontem. 
Nesse caso, sinto-me inclinado a situar a morte pouco 
depois dessa hora. 
Mas passou constantemente gente por esta barraca... 
Giraud riu-se, de modo desagradvel. 

#
Voc est a progredir s mil maravilhas! Quem lhe disse 

que foi morto nesta barraca? 
Bem... senti-me corar. Pensei... pensei que fosse. 
Oh, que rico detective! Olhe para ele, mon petit... Um 

homem apunhalado no corao cai assim, todo direitinho, com 
os ps unidos e os braos estendidos ao longo do corpo? No 
cai, claro. Ou ento um homem deita-se no cho, muito bem 
arrumadinho, e permite que o apunhalem no corao sem levantar 

sequer a mo para se defender? Seria absurdo, no seria? 
Mas repare nisto... e nisto... Fez incidir a luz no cho e eu 
vi marcas curiosas e irregulares na terra solta. Foi arrastado 

para c depois de morto. Meio arrastado, meio transportado 
por duas pessoas. No se vem os seus rastos no terreno duro 
do exterior e aqui tiveram o cuidado de os apagar... mas um 
dos dois era uma mulher, meu jovem amigo. 

Uma mulher? 

-Sim. 
Como sabe, se os rastos foram apagados, como disse? 
Porque, apesar de muito vagas, as marcas dos sapatos da 

mulher so inequvocas. E tambm por causa disto... 
Inclinou-se para a frente, tirou qualquer coisa do cabo do 
punhal e mostrou-ma: era um comprido cabelo preto de mulher, 
semelhante ao que Poirot tirara da poltrona, no escritrio. 
Sorriu com certa ironia e enrolou-o de novo no cabo do 
punhal. 

Deixaremos as coisas o mais possvel como as encontrmos, 

pois os juizes de instruo gostam assim. Eh bien, 
nota mais alguma coisa? 
Fui obrigado a abanar a cabea. 

Repare nas mos dele. 

#
Obedeci. As unhas estavam partidas e sujas e a pele era 
spera, mas isso no me esclareceu tanto quanto desejaria. 
Olhei para Giraud, intrigado. 
No so as mos de um cavalheiro explicou-me. 
No entanto, o seu vesturio  de homem abastado. Curioso, no 
acha? 


Muito curioso concordei. 


E nenhuma das peas de vesturio tem qualquer marca. 
Que nos diz isso? Que ele pretendia passar por algum que no 
era, que se trata de um disfarce. Porqu? Receava alguma 
coisa? Tentava escapar a esse qualquer coisa disfarando-se? 
Por enquanto ignoramo-lo, mas h uma coisa que j sabemos: 
estava to ansioso por ocultar a sua identidade quanto ns 
estamos por descobri-la. 
Olhou de novo para o corpo e acrescentou: 


Como da outra vez, no h impresses digitais no cabo 
do punhal. O assassino voltou a usar luvas. 


Pensa ento que o assassino foi o mesmo, em ambos os 
casos? indaguei, interessado. 
Mas Giraud resolveu tornar se impenetrvel e redarguiu: 


O que eu penso no interessa. Veremos. Marchaud! 
O sergent de ville apareceu  porta: 
Monsieur? 

Madame Renauld? Mandei-a chamar h um quarto de 
hora. 
Vem agora a, monsieur, e o filho acompanha-a. 

ptimo. Mas s quero um de cada vez. 
Marchaud fez a continncia e saiu, para voltar pouco depois 
com Mrs. Renauld. 
Madame Renauld anunciou. 

#
Giraud foi ao seu encontro e inclinou ligeiramente a cabea. 
Por aqui, madame. Atravessou a barraca e depois 
desviou-se subitamente para o lado. Aqui est o homem. 
Conhece-o? 
Enquanto falava, os seus olhos fixavam-se no rosto da 
mulher como duas verrumas, procurando ler-lhe os pensa


mentos e atentos a qualquer mudana na sua atitude. 
Mas Mrs. Renauld manteve-se perfeitamente calma demasiado 
calma, quanto a mim. Olhou para o cadver quase 
sem interesse e -sem qualquer indcio de agitao ou re


conhecimento. 
No respondeu , nunca o vi na minha vida.  um 
completo estranho para mim. 
Tem a certeza? 


Absoluta. 
No reconhece nele um dos seus atacantes, por exemplo? 
No. Pareceu hesitar, como se acabasse de lhe acudir 


uma ideia, mas acrescentou:No, acho que no. Claro que 
usavam ambos barba postia, no dizer do juiz de instruo, 
mas mesmo assim... no.>E, como quem chega defi


nitivamente a uma concluso: Tenho a certeza de que nenhum 
deles era este homem. 
Muito bem, madame. No desejo mais nada. 


Mrs. Renauld saiu de cabea erguida, com o sol a brilhar-lhe 
as madeixas prateadas do cabelo, e Jack Renauld entrou. 
Tambm no identificou o homem e a sua atitude pareceu 
absolutamente natural. 
Giraud limitou-se a resmungar qualquer coisa entre dentes. 
No pude fazer ideia se estava satisfeito ou no. Chamou de 
novo Marchaud e perguntou-lhe: 


#
J tem a a outra? 
J, sim, monsieur. 
Traga-a. 

A outra era Madame Daubreuil, que entrou com um ar 
muito indignado e a protestar veementemente: 
Protesto, monsieur! Isto  uma afronta! Que tenho eu a 
ver com tudo isto? 

Madame respondeu-lhe Giraud, brutalmente, estou 
a investigar no um assassnio, mas dois! Pelo que sei, a 
senhora podia ter cometido ambos. 

Como se atreve? Como ousa insultar-me com uma acusao 
to brutal?  uma infmia! 
 uma infmia, hem? E isto? Baixou-se, voltou a> tirar 

o cabelo do cabo do punhal e mostrou-lho. Est a ver isto, 
madame? Aproximou-se dela. Permite que veja se condiz? 
A mulher deu um grito e recusou, lvida. 
 falso, juro! No sei nada do crime... de nenhum dos 
crimes. Se algum disser que sei, mente! Ah, mon Dieu, que 
hei-de fazer? 
Acalme-se, madame disse o detective, friamente. 

Ainda ningum a acusou. No entanto, ser melhor para si responder 
s minhas perguntas sem mais protestos. 
Estou s suas ordens, monsieur. 
Olhe para o morto. Alguma vez o viu, sem ser agora? 

Madame Daubreuil aproximou se, com um pouco mais de 

comno rosto, e olhou para a vtima com certo interesse e 
curiosidade. Depois abanou a cabea. 

No o conheo. - 
Falou to naturalmente que seria impossvel duvidar dela. 
Giraud mandou-a embora com uma inclinao de cabea. 

#
Deixa-a ir-se embora?perguntei-lhe, em voz baixa. 
Acha isso sensato? O cabelo preto  com certeza da cabea 
dela. 


No preciso que me ensinem o ofcio replicou-me o 
detective, secamente. Est vigiada, no tenho desejo nenhum 
de a prender, por enquanto. 
Depois franziu a testa e voltou a olhar para o morto. 


Acha que tem tipo de espanhol? perguntou-me, inesperadamente. 


Observei o rosto com ateno e por fim respondi: 
No. Consider-lo-ia francs sem hesitar. 
Tambm eu concordou Giraud e soltou uma espcie 


de grunhido de descontentamento. 
Ficou um momento parado e depois, com um gesto imperioso, 


mandou-me afastar e, de novo de gatas, recomeou a 
passar em revista o cho da barraca. Era maravilhoso, no lhe 
escapava nada. Revistou tudo centmetro a centmetro, virou 
vasos e examinou sacos. Atirou-se gulosamente a uma trouxa, 
junto da porta, mas verificou que se tratava apenas de um 
casaco e de umas calas esfarrapados e atirou-os de novo para 


o cho, com um dos seus grunhidos. Manifestou interesse por 
dois pares de luvas velhas, mas acabou tambm por abanar 
a cabea e larg-las. Em seguida voltou aos vasos, que virou 
metodicamente, um por um. Por fim levantou-se e abanou a 
cabea, pensativamente. Parecia confuso e perplexo. Creio que 
se esquecera da minha presena. 
Nesse momento houve um certo rebulio no exterior e o 
nosso velho amigo, o juiz de instruo, acompanhado pelo escrivo 
e por M. Bex e seguido pelo mdico, entrou na barraca 
todo aodado. 

Isto  extraordinrio, M. Giraud! Outro crime! Ah, ainda 

#
no chegmos ao fundo deste caso! H em tudo isto um profundo 
mistrio! Quem  a vtima, desta vez? 
Isso  o que ningum nos sabe dizer, Sr. Juiz. No foi 

identificada. 
Onde est o corpo? perguntou o mdico. 
Giraud desviou-se um pouco e apontou: 

Ali ao canto. Foi apunhalado no corao, como v, e 
com o punhal roubado ontem de manh. Suponho que o 
assassnio seguiu de perto o roubo, mas  ao doutor que compete 

decidir isso. Pode mexer no punhal  vontade; no tem 
impresses digitais. 
O mdico ajoelhou junto do morto e Giraud voltou-se para 

o juiz de instruo: 
Um problemazinho complicado, no ? Mas eu resolv-lo-ei. 
com que ento ningum o sabe identificar...murmurou 

M. Hautet. Poder tratar-se de um dos assassinos? Talvez 
se tenham desentendido... 
Mas Giraud abanou a cabea: 
O tipo  francs. Jur-lo-ia... 
Nesse momento foram interrompidos pelo mdico, que se 
sentara nos calcanhares e os olhava, perplexo: 

Disse que ele foi morto ontem de manh, no disse? 

Fiz as minhas contas baseado na hora do roubo do 
punhal explicou Giraud. Mas, claro, ele pode ter sido 
morto mais tarde. 
Mais tarde? Qual carapua! Este homem est morto h 
quarenta e oito horas, pelo menos . e provavelmente h mais 
tempo, at. 
Entreolhmo-nos, estupefactos. 

T 

#
CAPTULO XV . 

Uma Fotografia 
As palavras do mdico tinham sido to surpreendentes que 
ficmos todos momentaneamente sem fala. Ali estava um 
homem apunhalado com uma arma que sabamos ter sido roubada 

havia apenas vinte e quatro horas e, apesar disso, o 
Dr. Durand afirmava positivamente que ele estava morto havia 
pelo menos quarenta e oito horas! Tudo aquilo era fantstico 
ao mximo. 
Ainda no nos refizramos por completo da surpresa causada 

pelas palavras do mdico quando me entregaram um telegrama 

que tinham vindo trazer do hotel. Abri-o e verifiquei 
que era de Poirot a anunciar-me o seu regresso no comboio 
que chegava a Merlinville s 12.28 h. 
Olhei para o relgio e vi que tinha tempo  justa para ir 
esper-lo  estao. Achava da mxima importncia inform-lo 
imediatamente do novo e surpreendente acontecimento. 
Pensei para comigo que Poirot no devia ter tido dificuldade 
em encontrar o que fora procurar a Paris. Provava-o a rapidez 
do seu regresso. Tinham-lhe bastado algumas horas. Perguntei 
a mim mesmo como aceitaria ele as notcias que lhe ia dar. 
O comboio estava alguns minutos atrasado e eu comecei 
a andar de um lado para o outro, no cais, at me ocorrer que 
poderia aproveitar o tempo mais utilmente, perguntando quem 
partira de Merlinville no ltimo comboio, na noite da tragdia. 
Fui ter com o chefe dos bagageiros, um homem de ar inteligente, 

e no me foi difcil persuadi-lo a falar do assunto. 
Era uma vergonha para a Polcia, afirmou acaloradamente, 
consentir que tais patifes, tais assassinos, andassem  solta, 
impunes. Aventei a possibilidade de terem partido no comboio 
da meia-noite, mas ele recusou decididamente semelhante ideia: 

#
tinha a certeza de que teria reparado em dois desconhecidos, 


se assim tivesse sido. Nesse comboio tinham partido apenas 
umas vinte pessoas e, portanto, no lhe teriam escapado. 
No sei o que me meteu a ideia na cabea talvez a profunda 


ansiedade subjacente ao tom de voz de Marthe Daubreuil 
, mas dei comigo a perguntar, de sbito: 
O jovem M. Renauld no partiu nesse comboio, pois no? 
Ah, no, monsieur! Chegar e partir de novo apenas com 


meia hora de intervalo no teria sido nada divertido! 
Fitei o homem, boquiaberto, quase a deixar escapar o significado 


das suas palavras. Mas depois percebi. 
Quer dizer que M. Jack Renauld chegou a Merlinville 
nessa noite?inquiri, com o corao a bater mais depressa. 


com certeza, monsieur. Chegou no ltimo comboio vindo 
da direco oposta, o das onze e quarenta. 
A cabea andou-me  roda. Era esse, ento, o motivo da 
profunda ansiedade de Marthe! Jack Renauld estivera em Merlinville 


na noite do crime! Mas porque no o dissera ele? Porque 
nos fizera crer que ficara em Cherbourg? Recordei-me do seu 
rosto franco e juvenil e custou-me a crer que pudesse estar de 
qualquer modo relacionado com o crime. No entanto, como 
explicar aquele silncio da sua parte, acerca de um assunto 
to vital? Uma coisa era certa: Marthe soubera-o desde o princpio. 


Da a sua ansiedade e as perguntas angustiadas que fizera 
a Poirot, para saber se suspeitavam de algum. 
As minhas cogitaes foram interrompidas pela chegada 
do comboio e, momentos depois, cumprimentava Poirot. 
O homenzinho estava radiante. Sorriu, gritou e, esquecendo 
a minha britnica relutncia, abraou-me calorosamente, em 
pleno cais. 


#
Mon cher ami, fui bem sucedido, maravilhosamente bem 
sucedido! 
Sim? Encanta-me sab-lo. J tem conhecimento das ltimas 

novidades daqui? 
Como quer que tenha conhecimento de alguma coisa, 
se mal acabo de chegar? Mas o caso andou? O valoroso Giraud 

#
fez alguma priso? Ou prises, talvez, hem? Ah, mas hei-de 
deix-lo com cara de parvo! Aonde me leva, meu amigo? No 
vamos ao hotel? Preciso de cuidar do meu bigode, que est 
deploravelmente flcido devido ao calor da viagem. Alm disso 
devo ter poeira no casaco... e preciso de compor a gravata. 


Meu caro Poirot, deixe l isso agora. Temos de seguir 
imediatamente para a moradia: houve outro assassnio! 
Tenho sofrido decepes frequentes, ao imaginar que vou 
dar uma novidade importante ao meu amigo. Ou j as conhece, 
ou considera-as irrelevantes, quanto ao problema principal 
e, no ltimo caso, geralmente os acontecimentos acabam por 
lhe dar razo. Desta vez, porm, no me pude queixar do 
resultado. Nunca tinha visto um homem to pasmado. O queixo 
pendeu-lhe, abandonou-o todo o garbo e fitou-me de boca 
aberta. 


Que disse? Outro assassnio? Ah, ento estou completamente 
enganado! Falhei! Giraud poder troar de mim  vontade, 
ter toda a razo para isso! 
No esperava, hem? 
Eu? Seria a ltima coisa que poderia esperar. Arrasa a 


minha teoria, destri tudo, ... ah, no! Parou, s palmadas 
no peito.  impossvel, no posso estar enganado! Os factos, . 
encarados metodicamente e pela devida ordem, s-admitem 
uma explicao. Tenho de ter razo! Tenho razo! 


Mas, ento... 
Interrompeu-me: 


Espere, meu amigo. Tenho de ter razo, o que significa 
que este novo assassnio  impossvel, a no ser... a no ser... 
oh, espere, espere, imploro-lhe! No diga nada... 
Ficou calado, um momento ou dois e a seguir, reassumindo 
os modos normais, declarou em voz calma e convicta: 


#
A vtima  um homem de meia-idade, o seu corpo foi 
encontrado na barraca fechada  chave, perto do cenrio do 
crime, e a morte ocorrera havia pelo menos quarenta e oito 
horas.  muito provvel que tenha sido apunhalado de modo 
9 -VAMP. G. 2 


similar ao de M. Renauld, embora no necessariamente pelas 
costas. 
Foi a minha vez de ficar boquiaberto e fiquei. Desde que 
conhecia Poirot nunca o vira fazer uma proeza to espantosa. 
E, quase inevitavelmente, atravessou-me o esprito uma dvida. 


Poirot, esteve a mangar comigo! Voc j tinha ouvido 
contar tudo acerca deste crime! 
Virou o olhar inquieto para mim, com uma expresso de 
censura, e perguntou: 


Acharme capaz de semelhante coisa? Garanto-lhe que 
no tinha ouvido absolutamente nada. No viu o choque que a 
notcia me causou? 


Mas como diabo pode saber tudo isso? 


Acertei, ento? Oh, nem podia ser de outro modo! As 
celulazinhas cinzentas, meu amigo, as celulazinhas cinzentas! 
Foram elas que me disseram. S assim, e de nenhum outro 
modo, poderia ter havido outra morte. Agora conte-me tudo. 
Se formos ali, pela esquerda, poderemos atalhar atravs do 
campo de golfe, o que nos levar s traseiras da Villa Genevive 
muito mais depressa. 
Enquanto caminhvamos pelo caminho por ele sugerido, 
contei-lhe tudo quanto sabia. Poirot escutou-me atentamente. 


Disse que o punhal estava na ferida, no disse? Isso  
curioso. Tem a certeza de que  o mesmo? 
Absoluta, e  isso que torna tudo to impossvel. 

#
Nada  impossvel. Os punhais podem ser dois. 
Arqueei as sobrancelhas, incrdulo. 
Isso , por certo, muitssimo improvvel, no acha? Seria 
uma coincidncia extraordinria. 

Como de costume, fala sem reflectir, Hastings. Nalguns 
casos duas armas idnticas seriam muitssimo improvveis, mas 
neste, no. A arma em questo era uma recordao, mandada 
fazer por Jack Renauld. Pensando bem,  at muitssimo improvvel 

que ele tenha mandado fazer s uma. Provavelmente 
tinha outro para seu uso prprio. 

Mas ningum mencionou tal coisa! protestei. 
Meu amigo, quando se investiga um caso no se tomam 
em considerao apenas as coisas que so mencionadas redarguiu-me, 
em tom levemente professoral. No h motivo 
nenhum para mencionar muitas coisas que podem ser importantes. 

Do mesmo modo, h muitas vezes excelentes razes para 
no as mencionar. Pode escolher o que mais lhe agradar. 
Fiquei calado, impressionado apesar de tudo. Poucos minutos 
depois chegmos  barraca, onde encontrmos todos os nossos 
amigos. Aps uma troca de cumprimentos corteses, Poirot 
meteu mos  obra. 
Como j observara Giraud a trabalhar, senti-me profundamente 

interessado no que se ia passar. Poirot lanou apenas 
um olhar vago ao cenrio. A nica coisa que examinou foram 
as calas e o casaco esfarrapados, junto da porta, o que inspirou 
a Giraud um sorriso desdenhoso. Como se o adivinhasse, Poirot 
deixou cair a trapagem. 

Roupa velha do jardineiro? indagou. 
Exactamente respondeu Giraud. 
O meu amigo ajoelhou junto do corpo. Os seus dedos moveram-se 

#
rpida e metodicamente. Examinou a textura do vesturio 

e certificou-se de que no tinha quaisquer marcas. 
Dedicou especial ateno s botas e tambm s unhas partidas 
e sujas. Enquanto as examinava, perguntou a Giraud: 

Viu isto? 

Vi, sim respondeu o outro, cujo rosto se conservava 
impenetrvel. 
De sbito, Poirot pareceu tornar-se rgido. 

Dr. Durand! 

O mdico aproximou-se. 
H espuma nos lbios. Tinha reparado? 
No, devo admitir que no. 
Mas est a v-la, no est? 
Oh, certamente! 

Poirot fez nova pergunta a Giraud: 

Voc tinha reparado, com certeza? 
O outro no respondeu e Poirot continuou a trabalhar. 
O punhal fora retirado da ferida e encontrava-se num frasco 
de vidro, ao lado do corpo. Poirot examinou-o e a seguir 
observou cuidadosamente a ferida. Quando levantou a cabea 
havia nos seus olhos o brilho verde to meu conhecido. 

Estranha ferida esta! No sangrou. No h qualquer 
mancha nas roupas, apenas a lmina da arma est ligeiramente 
suja. Que lhe parece, M. le docteur? 

S lhe posso dizer que  muito anormal. 

No tem nada de anormal,  at muito simples. O homem 
foi apunhalado depois de morto. E, silenciando o clamor de 
vozes com um gesto da mo, virou-se para o detective francs 
e acrescentou: M. Giraud concorda comigo, no  verdade? 
Fosse qual fosse a verdadeira convico do francs, aceitou 

#
a situao sem que um msculo lhe bulisse. Calmamente, quase 
sarcasticamente, respondeu: 
Claro que concordo. 
Voltou a ouvir-se o murmrio de surpresa e interesse. 

Mas que ideia! exclamou M. Hautet. Apunhalar um 
homem depois de morto! Uma barbaridade! Inaudito! Algum 
dio cego, talvez... 

No, Sr. Juiz discordou Poirot. Quanto a mim, foi 

feito a sangue-frio, para dar determinada impresso. 
Que impresso? 
Aquela que quase deu replicou o meu amigo, com a 

gravidade de um orculo. 

M. Bex, que estivera a pensar, perguntou: 
Mas como foi, ento, o homem morto? 
No foi morto: morreu. Ou estou muito enganado, 
Sr. Juiz, ou morreu de um ataque epilptico! 
A afirmao de Poirot voltou a provocar grande agitao. 
O Dr. Durand ajoelhou-se de novo e procedeu a um exame 
minucioso. Por fim levantou-se. 


Ento, M. l docteur? 

M. Poirot, sinto-me inclinado a concordar com a sua 
afirmao. Ao princpio fui induzido em erro. O facto incontroverso 
de que o homem tinha sido apunhalado desviou a 
minha ateno de quaisquer outros indcios. 
Poirot transformou-se no heri do momento. O juiz de 
instruo desfez-se em elogios, a que o meu amigo reagiu 
cortesmente. Por fim despediu-se, pretextando que nem ele nem 
eu almoramos e que desejava reparar os estragos da viagem. 
Quando nos preparvamos para sair da barraca, Giraud abordou-nos: 

Mais uma coisa, M. Poirot disse, na sua voz suave e 

#
sarcstica. Encontrmos este cabelo enrolado ao cabo do 

punhal. Um cabelo de mulher. 
Ah! exclamou Poirot. Um cabelo de mulher? Pergunto 
a mim mesmo de que mulher... 
Tambm eu redarguiu Giraud e, com uma inclinao 

de cabea, virou-nos as costas. 

Mostrou-se insistente, o bom do Giraud comentou 
Poirot, pensativo, enquanto nos dirigamos para o hotel. Em 
que sentido pretender induzir-me em erro? Um cabelo de 
mulher... hum!... 
Almomos com apetite, embora o meu amigo me tenha, _ 
parecido um pouco distrado e desatento. Depois fomos para a 
sala dos nossos aposentos e eu pedi-lhe que me contasse alguma 
coisa da sua misteriosa viagem a Paris. 

De boa vontade, meu amigo. Fui a Paris procurar isto. 
Tirou da algibeira um recortezinho desbotado de jornal que 
reproduzia uma fotografia de mulher. Estendeu-mo e eu soltei 
uma exclamao. 

Reconhece-a, meu amigo? 
Acenei afirmativamente. Embora fosse evidente que a 
fotografia tinha muitos anos, e apesar do estilo de penteado 
diferente, a semelhana era inequvoca. 

Madame Daubreuil! exclamei. 
Poirot abanou a cabea, a sorrir. 

No est exactamente correcto, meu amigo. Ela no 
tinha esse nome, nesse tempo. Essa fotografia  de uma famosa 
Madame Beroldy! 
Madame Beroldy! Lembrei-me de tudo, num pice. Um julgamento 

de assassnio que despertara grande interesse, mundialmente. 
CAPTULO XVI 

#
O Processo Beroldy 
Cerca de vinte anos antes do incio da presente histria, 
Monsieur Arnald Beroldy, natural de Lio, chegou a Paris na 
companhia da sua bonita mulher e da filha, ento beb. 
Monsieur Beroldy era o scio menos importante de uma firma 
de negociantes de vinho, um homem robusto, de meia-idade, 
amante das boas coisas da vida, dedicado  sua encantadora 
esposa e sem nada que o tornasse notvel, fosse em que sentido 
fosse. A firma a> que Monsieur Beroldy pertencia era modesta 
e, embora singrasse bem, no lhe proporcionava grandes rendimentos. 

Os Beroldys tinham um pequeno apartamento e viviam 
muito modestamente, ao princpio. 
Mas, embora Monsieur Beroldy fosse um homem apagado, 

o pincel do romance no fora avaro no que respeitava  sua 
mulher. Jovem e bonita, e ainda por cima dotada de um 
singular encanto de maneiras, Madame Beroldy causou imediatamente 
sensao no bairro, principalmente quando se comeou 
a dizer  boca pequena que um interessante mistrio envolvia 

o seu nascimento. Constava que era filha ilegtima de um gro-duque 
russo. Outros afirmavam que o pai era um arquiduque 
austraco e que ela nascera de uma unio legal, ainda que 
morgantica. Todas as histrias, porm, coincidiam num ponto: 
Jeanne Beroldy era o fulcro de um interessante mistrio. Interro


gada por curiosos, Madame Beroldy no desmentia os boatos. 
Pelo contrrio, dava claramente a entender que, embora os 
seus lbios estivessem selados, todas aquelas histrias tinham, 
realmente, fundamento em factos. As amigas ntimas com quem 
desabafava mais falavam de intrigas polticas, de papis, 
de perigos obscuros que a ameaavam. Tambm se falava 
muito de jias da coroa que seriam vendidas secretamente, 

#
servindo ela de intermediria. 
Entre os amigos e conhecidos dos Beroldys contava-se um 
jovem advogado, Georges Conneau. No tardou a tornar-se 
evidente que a fascinante Jeanne lhe escravizara por completo 

o corao. Madame Beroldy encorajava discretamente o jovem, 
mas tinha sempre o cuidado de afirmar a sua completa dedicao 
ao marido de meia-idade. No entanto, muitos despeitados 
no hesitaram em afirmar que o jovem Conneau era seu amante 
e no o nico! 
Cerca de trs meses depois de os Beroldys terem chegado a 
Paris, surgiu em cena outra personagem: Mr. Hiraim P. Trapp, 
natural dos Estados Unidos e riqussimo. Apresentado  encantadora 

e misteriosa Madame Beroldy, foi vtima imediata do 
seu fascnio. A sua admirao por ela era evidente, embora 
severamente respeitosa. 
Mais ou menos nessa altura, Madame Beroldy tornou-se 
mais explcita nas suas confidncias. Confessou a vrios amigos 
que estava muito preocupada por causa do marido. Explicou 
que ele se tinha deixado arrastar para vrios planos de natureza 
poltica e aludiu tambm a certos documentos importantes que 
lhe tinham sido confiados, para guardar, e que se relacionavam 
com um segredo de extrema importncia para a Europa. 
Tinham-lhos confiado para despistar uma outra faco neles 
interessada, mas Madame Beroldy sentia-se inquieta, pois reconhecera 

em Paris diversos membros importantes do crculo 
revolucionrio. 
A bomba rebentou no dia 28 de Novembro. A mulher 
que ia diariamente arrumar a casa e cozinhar para os Beroldys 

ficou surpreendida ao encontrar a porta do apartamento escancarada. 
Ouviu gemidos abafados vindos do quarto e correu para 

#
l. Deparou-se-lhe um espectculo horrvel. Madame Beroldy 
estava cada no cho, amarrada de ps e mos e soltando dbeis 
gemidos, pois conseguira livrar-se da mordaa que lhe tapara a 
boca. Monsieur Beroldy encontrava-se na cama, num charco 
de sangue, com uma faca cravada no corao. 
Madame Beroldy contou uma histria perfeitamente clara. 
Acordara de repente e vira dois homens mascarados debruados 
para ela Eles tinham-lhe abafado os gritos e depois haviam-na 
atado e amordaado, pedindo em seguida a Monsieur Beroldy o 
famoso segredo. 
Mas o intrpido negociante de vinhos recusara-se terminantemente 

a satisfazer o seu pedido. Irritado com a recusa, 
um dos homens cravara-lhe, acto contnuo, a faca no corao. 
com as chaves do morto tinham aberto o cofre do canto do 
quarto e levado consigo uma quantidade de papis. Ambos os 
homens usavam grandes barbas e mscaras, mas Madame Beroldy 

declarou positivamente que eram russos. 
O crime causou enorme sensao e tornou-se conhecido 
como O Mistrio Russo. O tempo foi passando sem que os 
misteriosos barbudos fossem encontrados. Ento, precisamente 
quando o interesse do pblico comeava a enfraquecer, aconteceu 

uma coisa surpreendente: Madame Beroldy foi presa e 
acusada de ter assassinado o marido. 
O julgamento suscitou tambm enorme interesse. A juventude 
e a beleza da acusada, assim como a sua misteriosa histria, 

bastaram para o transformar numa cause clebre. As 
pessoas manifestavam grande interesse e as suas posies extremavamse: 


a favor ou contra a acusada. O entusiasmo dos 
primeiros, porm, sofreu severos golpes: provou-se que o passado 
romntico de Madame Beroldy, o seu sangue real e as misteriosas 

#
intrigas que tecera no passavam de fantasias da imaginao. 
Provou-se tambm, sem sombra de dvida, que os pais de 

Jeanne Beroldy eram um casal muitssimo respeitvel e prosaico, 
negociantes de fruta, que viviam nos arredores de Lio. 

O gro-duque russo, as intrigas da corte e os enredos polticos, 

enfim, todas as histrias, tinham uma nica origem: a prpria 

dama! Do seu crebro tinham emanado os engenhosos mitos e 

provou-se que ela obtivera uma importncia considervel de 

vrias pessoas crdulas graas  sua fico das jias da coroa 
as quais se verificou serem meras imitaes. Implacavelmente, 
toda a histria da sua vida foi posta a nu. O mbil do 

crime era, segundo se descobriu, Mr. Hiram P. Trapp. Mr. Trapp 

fez o possvel para no complicar as coisas, mas contra-interrogado 
insistente e habilmente teve de admitir que amava a 

senhora em questo e que, se ela fosse livre, lhe teria pedido 

que casasse com ele. O facto de as relaes entre eles serem 

aparentemente platnicas agravou o caso da acusada. Impedida 

de se tornar sua amante pela natureza simples e honrada do 

homem, Jeainne Beroldy concebera o monstruoso projecto de se 

libertar do marido apagado e de meia-idade e tornar-se mulher 

do rico americano. 

Madame Beroldy enfrentou sempre os seus acusadores com 

absoluto sangue-frio e autodomnio. A sua histria nunca 

variou. Continuou a afirmar teimosamente que era de nasci? 

mento real e que substitura a filha dos vendedores de fruta 

quando era muito pequena. Apesar de tais afirmaes serem 

absurdas e no assentarem em quaisquer provas concretas, um 

grande nmero de pessoas acreditou implicitamente nelas, considerou-as 
verdadeiras. 

Mas a acusao foi implacvel. Denunciou os russos 

#
mascarados como um mito e afirmou que o crime tinha sido 
cometido por Madame Beroldy e pelo seu amante Georges 
Conneau. Foi passado um mandato para a deteno do ltimo, 
mas ele tivera o bom senso de desaparecer. Ficou demonstrado 
que as cordas que amarravam Madame Beroldy eram to frouxas 

que ela se poderia ter soltado sem dificuldade. 
At que, quando o fim do julgamento se aproximava, o 

acusador pblico recebeu uma carta enviada de Paris por 
Georges Conneau. Sem revelar o seu paradeiro, fazia uma confisso 

completa do crime. Declarava que fora de facto ele que 
desferira o golpe fatal, por instigao de Madame Beroldy. 
O crime tinha sido planeado por ambos. Acreditando que o 
marido a maltratava e enlouquecido pela sua prpria paixo 
por ela, paixo que julgara retribuda, planeara o crime e dera 

o golpe fatal que libertaria a mulher que amava de uma escravido 
odiosa. Agora, porm, tomava pela primeira vez conhecimento 
da existncia de Mr. Hiram P. Trapp e compreendia 
que a mulher amada o atraioara! No fora por amor dele que 
desejara libertar-se e, sim, para casar com o americano rico. 
Utilizara-o como simples instrumento e ele, cego de cime, 
retaliava denunciando-a, afirmando que agira em tudo por 
instigao dela. 
Foi ento que Madame Beroldy demonstrou ser a extraordinria 


mulher que na realidade era. Sem hesitar, abandonou a 
defesa anteriormente adoptada e admitiu que os russos eram, 
de facto, pura inveno da sua parte. O verdadeiro assassino 
era Georges Conneau. Enlouquecido pela paixo, cometera o 
crime e jurara-lhe que, se no se calasse, exerceria nela uma 
terrvel vingana. Aterrorizada por tais ameaas, resolvera 
obedecer-lhe, tanto mais que receava que, se dissesse a verdade, 

#
a acusassem de conivncia. Mas recusara-se firmemente a continuar 

a ter quaisquer relaes com o assassino do marido e 
fora por isso, para se vingar dessa sua atitude, que ele escrevera 
a carta, acusando-a. Jurava solenemente que no tivera nada a 
ver com o planeamento do crime, que acordara na memorvel 
noite e encontrara Georges Conneau debruado para ela, com 
a faca suja de sangue na mo. 
Foi por um triz. A histria de Madame Beroldy merecia 
pouca credibilidade, mas aquela mulher, cujos contos de fadas 
de intrigas reais tinham sido to facilmente aceitos, possua a 
arte suprema de se fazer acreditar. O discurso que fez ao jri 
foi uma obra-prima. com as lgrimas a correr pela cara abaixo, 

falou da filha, da sua honra de mulher e do seu desejo de 
conservar a reputao limpa, por amor da criana. Admitiu 
que, em virtude de Georges Conneau ter sido seu amante, talvez 
pudesse ser considerada moralmente responsvel pelo crime, 
mas jurava perante Deus que no tivera outra responsabilidade 
alm dessa. Sabia que cometera grave falta pelo facto de no 
denunciar Camneau s autoridades, mas declarou em voz trmula 

de emoo tratar-se de uma coisa que nenhuma mulher 
poderia ter feito. Amava-o! Poderia permitir que fosse a sua 
mo a mand-lo para a guilhotina? Tinha muitas culpas, mas 
estava inocente do terrvel crime que lhe imputavam. 
Fosse como fosse, a sua eloquncia e a sua personalidade 
salvaram-na. Numa cena de emoo sem paralelo, Madame 
Beroldy foi absolvida. 
Quanto a Georges Conneau, a Polcia nunca conseguiu localiz-lo, 

apesar de todos os esforos que fez nesse sentido. De 
Madame Beroldy nada mais se soubera. Deixara Paris com a 
filha, para iniciar nova vida. 

#
CAPTULO XVII 

Fazemos Novas Investigaes 

Contei todos os pormenores do processo Beroldy. Claro que 

no me acudiram  memria como os expus, embora me lembrasse 
do caso com relativa exactido. Despertara muito interesse, 
na poca, e tinha sido relatado com mincia pelos jornais 

ingleses, de modo que no precisei de um grande esforo de 
memria para reconstituir as partes mais importantes. 
Momentaneamente, e dada a minha excitao, pareceu-me 
que permitiria esclarecer todo o assunto. Admito que sou 
impulsivo e Poirot deplora o meu hbito de tirar concluses 
precipitadas, mas pareceume que, neste caso, tinha certa ds-

culpa. A maneira extraordinria como a descoberta justificava 

o ponto de vista de Poirot, entusiasmou-me. 
Felicito-o, Poirot. Agora compreendo tudo. 
Se isso  verdade, sou eu que o felicito, mon ami, pois 
geralmente voc no  famoso quando se trata de compreender, 
eh? 
Senti-me um bocadinho ofendido. 

No precisa de mo lembrar. Voc foi to diabolicamente 
misterioso desde o princpio, com as suas insinuaes e as suas 
parcas explicaes, que qualquer teria dificuldade em compreender 

aonde queria chegar. 

Poirot acendeu um dos seus cigarrinhos com a meticulosidade 
habitual. Depois levantou a cabea e perguntou-me: 
Mas j que, mon ami, agora compreende tudo, gostaria 

que me dissesse exactamente o que compreende. 
Ora, que foi Madame Daubreuil-Beroldy que assassinou 

M. Renauld! A similaridade dos dois casos prova-o sem lugar 
para dvidas. 
#
Considera ento que Madame Beroldy no devia ter sido 


absolvida? Que, de facto, foi culpada de conivncia no assassnio 
do marido? 
Mas claro! exclamei, de olhos muito abertos. E voc 


no pensa assim? 


Poirot foi at ao outro extremo da sala, endireitou distraidamente 
uma cadeira e depois respondeu, pensativo: 
Sim,  essa a minha opinio. Mas no h nenhum claro 


nem meio claro a tal respeito. Tecnicamente falando, Madaime 
Beroldy est inocente. 


Desse crime, talvez, mas no deste. 
Poirot voltou a sentar-se e fitou-me, mais pensativo do que 
nunca. 


 ento sua opinio firme, Hastings, que Madame Daubreuil 
assassinou M. Renauld? 
. 
Porqu? 


Fez-me a pergunta com tal brusquido que fiquei como 
que aparvalhado. 


Porqu? tartamudeei. Porqu? Ora, porque... E 
no saiu mais nada. 
Poirot olhou-me, a acenar a cabea. 


Est a ver? Chegou imediatamente a um beco sem sada. 
Porque haveria Madame Daubreuil de assassinar M. Renauld? 
No descobrimos sombra de motivo. Ela no beneficia com a 
sua morte; considerada quer como amante, quer como chantagista, 


s tem a perder com ela. No pode haver um assassnio 
sem motivo. O primeiro crime foi diferente, havia um amante 
rico  espera de ocupar o lugar do marido. 


O dinheiro no  o nico motivo para assassinar protestei. 


#
Pois no concordou Poirot, placidamente. H outros 
dois. O crime passionnel  um deles. E o terceiro e raro  o 
assassnio por uma ideia, o que implica qualquer forma de 
desarranjo mental da parte do assassino. A mania homicida e 

o fanatismo religioso pertencem a essa classe. Podemos exclu-lo, 
neste caso. 
Eo crime passionnell Tambm pode exclu-lo? Se Madame 
Daubreuil era amante de Renauld, se descobriu que o 

afecto dele estava a arrefecer ou se qualquer coisa lhe despertou 

cimes, no poderia t-lo matado, num momento de 
clera? 
Poirot abanou a cabea. 

Se (repare que digo se) Madame Daiubreuil era amante 
de Renauld, ele no tinha tido tempo de se cansar dela. E, de 
qualquer modo, voc est a interpretar mal o carcter da 
mulher. Ela  capaz de simular grande tenso emocional,  uma 
actriz magnfica, mas encarada desapaixonadamente a sua vida 
desmente a impresso que causa. Se virmos bem a questo, ela 
foi sempre calma e calculista nos seus motivos e aces. No 
foi para ligar a vida  do jovem amante que colaborou no 
assassnio do marido; o americano rico, para o qual provvel-

mente se estava nas tintas, era o seu objectivo.  mulher que, 
se cometesse um crime, teria sempre como mbil o lucro. Ora 
aqui no lucraria nada. Alm disso, como explica voc a abertura 


da cova? Isso foi trabalho de homem. 
Talvez ela tivesse um cmplice alvitrei, pouco disposto 
a abandonar a minha convico. 
Vejamos outra objeco da minha parte: falou da similaridade 
entre os dois crimes. Em que reside essa similaridade? 


Fitei-o, estupefacto. 


#
Mas, Poirot, foi voc que aludiu a isso! A histria dos 
mascarados, o segredo, os papis!... 

Rogo-lhe que no se mostre to indignado pediu-me, a 
sorrir um pouco. No nego nada do que disse. A similaridade 
das duas histrias liga inevitavelmente os dois casos. Mas 
agora pense num pormenor muito curioso: no  Madame Daubreuil 

que nos conta essa histria (se fosse seria uma beleza, 
iria tudo de vento em popa) e, sim, Madame Renauld. Estar 
ela, ento, conluiada com a outra? 

No posso acreditar nisso afirmei, devagar. Se isso 
fosse verdade ela seria a actriz mais consumada que o mundo 
jamais conheceu. 

Ora, ora! impacientou-se Poirot. L vem voc outra 
vez com o sentimento em vez de com a lgica! Se para ser 
criminosa  necessrio ser uma actriz consumada, ento deixe-se 
de cerimnias e presuma que ela o . Mas  de facto necessrio? 
No acredito que Madame Renauld esteja conluiada com Madame 

Daubreuil por diversas razes, algumas das quais j lhe 
enumerei. As outras saltam aos olhos. Portanto, eliminada essa 
possibilidade, aproximamo-nos muito da verdade, que , como 
sempre, deveras curiosa e interessante. 

Que sabe voc, Poirot? 
Mon ami, tem de fazer as suas prprias dedues. Tem 
acesso aos factos! Concentre o trabalho das suas clulas cinzentas. 
Raciocine, no como Giraud, mas sim como Hercule 
Poirot! 

Mas tem a certeza? 
Meu amigo, tenho sido um imbecil, em muitos sentidos, 
mas finalmente vejo claro. 
Sabe tudo? 

#
Descobri o que M. Renauld me mandou chamar para 
descobrir. 

E conhece o assassino? 

Conheo um assassino. 

Que quer dizer? 

Estamos a desconversar um pouco. No h um crime, 
mas sim dois. O primeiro, solucionei-o; quanto ao segundo... 
eh bien, confesso que no tenho a certeza. 

Mas, Poirot, no disse que o homem encontrado na 
barraca morreu de morte natural? 

Ora, ora! Poirot soltou a sua exclamao de impacincia 

preferida. Continua a no compreender. Pode-se ter 
um crime e no ter um assassino, mas para dois crimes  
essencial ter dois cadveres. 
A sua observao pareceu-me to peculiarmente carecida 
de lucidez que o fitei com certa ansiedade. Mas o aspecto dele 
era perfeitamente normal. De sbito, levantou-se e foi at  
janela. ->  

A vem ele observou. 

M. Jack Renauld. Mandei-lhe um bilhete, a pedir-lhe que 
viesse c. 
Isso mudou o curso dos meus pensamentos e eu perguntei 
a Poirot se sabia que Jack Renauld estivera em Merlinville na 
noite do crime. Esperava apanhar o meu astuto amiguinho 
desprevenido, mas verifiquei que, como de costume, continuava 
omnisciente. Tambm investigara na estao. 
E, sem dvida, no fomos originais na ideia, Hastings. 
O excelente Giraud tambm deve ter feito as suas perguntinhas. 
No pensa... Oh, no, seria demasiado horrvel! 

Poirot olhou-me interrogadoramente, mas eu no disse mais 

#
nada. Acabava de pensar que embora houvesse sete mulheres 
directa ou indirectamente relacionadas com o caso (Mrs. Renauld, 


Madame Daubreuil e a filha, a misteriosa visitante e 
as trs criadas, tirando o velho Auguste, que praticamente 
no contava, s havia um homem: Jack Renauld. E a cova 
devia ter sido aberta por um homem. 


No tive tempo de aprofundar a terrvel ideia que acabava 
de me acudir ao esprito, porque Jack Renauld entrou na sala. 
Poirot cumprimentou-o despreocupadamente. 


Queira sentar-se, monsieur. Lamento muitssimo incomod-lo, 


mas talvez compreenda que a atmosfera em sua casa no 
 muito agradvel para mim. M. Giraud e eu no temos os 
mesmos pontos de vista, a sua cortesia para comigo tem deixado 


muito a desejar e, compreensivelmente, no desejo que 
quaisquer pequenas descobertas feitas por mim o beneficiem 
a ele, seja em que sentido for. 


Tem razo, M. Poirot. Esse Giraud  um bruto, um 
malcriado, e eu ficaria encantado se visse algum levar-lhe 
a palma. 


Nesse caso, posso pedir-lhe um pequeno favor? 
com certeza. 
Peo-lhe que v  estao e se meta no comboio para a 


estao seguinte, Abbalac. Pergunte na arrecadao se dois 
desconhecidos no deixaram l uma mala na noite do crime. 
 uma estao pequena e se tal aconteceu certamente se lembraro. 


Faz-me esse favor? 
Oh, sem dvida! respondeu o rapaz, mistificado mas 
disposto a ser til. 

Eu e o meu amigo temos que fazer noutro lado, como 
compreender. H um comboio daqui a um quarto de hora e 
eu peo-lhe que siga directamente para a estao, sem passar 

#
por casa, pois no desejo que Giraud desconfie do encargo 
que lhe confiei. 
Muito bem, seguirei directamente para a estao. 

Levantou-se para sair, mas o meu amigo deteve-o: 

Um momenco, M. Renauld, h um pormenorzinho que 
me intriga: porque no disse a M. Hautet, esta manh, que 
esteve em Meriinville na noite do crime? 
O rosto de Jack Renauld tornou-se escarlate, mas o rapaz 
tentou dominar-se, com esforo. 

Est enganado. Estive em Cherbourg, como disse ao juiz 
de instruo, esta manh. 
Poirot fitou-o de olhos semicerrados como um gato, at 
deixar ver apenas uma cintilao verde. 

Singular erro o meu, nesse caso, pois  compartilhado 
pelo pessoal da estao. Dizem que o senhor chegou no comboio 
das onze e quarenta. 
Jack Renauld hesitou momentaneamente, mas depois decidiu-se: 

E que importa que tenha estado c? Suponho que no 
tenciona acusar-me de ter participado no assassnio do meu 
pai? perguntou altivamente, de cabea inclinada para trs. 

Gostaria de uma explicao do motivo que o trouxe c. 

 simples: vim ver a minha noiva, Mademoiselle Marthe 
Daubreuil. Ia iniciar uma longa viagem e no sabia quando 
voltaria. Quis falar-lhe antes de partir, para lhe afirmar a 
rninha inaltervel dedicao. 

E falou-lhe? perguntou Poirot, cujos olhos no se 
afastavam do rosto do rapaz. 
Seguiu-se uma pausa, antes de Renauld responder: 

Falei. 
E depois? 

#
Verifiquei que perdera o ltimo comboio. Fui a p at 
St. Beauvais, onde bati  porta de uma garagem e arranjei um 
carro para me levar a Cherbourg. 

St. Beaiuvais? Mas isso fica a quinze quilmetros de 
distncia! Longa caminhada, M. Renauld. 

Apetecia-me... apetecia-me andar. 
Poirot inclinou a cabea, a indicar que aceitava a expli10 
-VAMP. G. 2 

cao, e Jack Renauld pegou no chapu e na bengala e partiu. 
Poirot levantou-se, acto contnuo. 

Depressa, Hastings, vamos atrs dele! 
Seguimos a nossa presa de uma distncia discreta, atravs 
das ruas de Merlinville. Mas quamdo Poirot o viu virar no 
sentido da estao, parou. 

Pronto, no h novidade, ele mordeu a isca. Ir a 
Abbalac e perguntar pela mtica mala deixada pelos mticos 
desconhecidos. Sim, mon ami, foi tudo uma invenozinha 
minha. 

Queria afast-lo! exclamei. 

O seu poder dedutivo  surpreendente, Hastings! Agora, 
se quiser fazer o favor de me acompanhar, vamos  Vill 
Genevive. 
CAPTULO XVIII 
Giraud Entra em Aco 

A propsito, Poirot, preciso de esclarecer uma coisa 
consigo declarei, enquanto seguamos pela estrada escaldante. 

Estou convencido de que a sua inteno foi boa, mas 
francamente no tinha nada que ir bisbilhotar ao Hotel du 
Phare sem me dizer. 

Como soube que l fui? 

#
Para minha grande irritao, senti o sangue subir-me s 
faces. 

Fui at l, de passagem (respondi, com o mximo de 
dignidade que consegui reunir. 
Receava a troa de Poirot, mas, para alvio meu e tambm 

para minha surpresa , ele limitou-se a abanar a cabea 
com uma gravidade fora do vulgar. 
Se ofendi as suas susceptibilidades em qualquer sentido, 
peo-lhe perdo. Em breve compreender melhor o meu proce


dimento. Creia no entanto que me tenho esforado por concentrar 
todas as energias na investigao deste caso. 
Oh, no tem importncia! afirmei, apaziguado pelo 

pedido de desculpa. Sei que faz essas coisas porque leva a 
peito os meus interesses, mas eu sei cuidar de mim. 
Poirot deu a impresso de ir dizer qualquer coisa, mas 
desistiu. 
Chegados  moradia, o detective seguiu na direco da 
barraca onde o segundo corpo fora encontrado, mas em vez 
de entrar parou junto do banco que j mencionei antes e que 
ficava a poucos metros da construo. Depois de olhar um 
bocado para o banco, dirigiu-se cautelosamente at  sebe que 
servia de fronteira entre a Villa Genevive ea Villa Marguerite. 
Depois voltou para trs, a acenar com a cabea, dirigiu-se de 
novo para a sebe e afastou os arbustos com as mos. 
com sorte disse-me, por cima do ombro, talvez 
Mademoiselle Marthe esteja no jardim. Desejo falar com ela 

preferia no ter de ir bater formalmente  porta da Villa 
Marguerite. Ah, corre tudo bem, ela est ali! Pst, mademoiselle. 
Pst, un moment, sil vous plait. 
Reuni-me a ele no momento em que Marthe Daubreuil, com 

#
um ar um pouco assustado, corria ao seu encontro. 
Permite-me uma palavrinha, mademoiselle? 
com certeza, M. Poirot. Apesar da aquiescncia, os 

olhos da rapariga pareciam inquietos e receosos.


Lembra-se de correr atrs de mim, na estrada, no dia 
em que fui a sua casa com o juiz de instruo? Nessa altura 
perguntou-me se havia algum suspeito. 

E o senhor respondeu-me que havia dois chilenos respondeu 
um pouco ofegante, enquanto a mo esquerda lhe 
subia para o peito. 
Importa-se de me fazer outra vez a mesma pergunta, 

mademoiselle? 

Que quer dizer? 


Isto: se repetir a pergunta dar-lhe-ei uma resposta diferente. 
Suspeita-se de algum, mas no de um chileno. 
De quem? A pergunta saiu abafada dos lbios entreabertos. 
De M. Jack Renauld. 
O qu? gritou a rapariga. Jack? Impossvel! Quem 


se atreve a suspeitar dele? 
Giraud. 
Giraud! O rosto de Marthe estava da cor da cinza. 
Tenho medo desse homem.  cruel. Ele... ele... 


No concluiu a frase, mas o seu rosto adquiriu uma expresso 
de coragem e determinao. Nesse momento compreendi 
que era uma lutadora. Poirot tambm a observava atentamente. 
Sabe, sem dvida, que Jack Renauld esteve c na noite 

do crime? 
Sei respondeu maquinalmente a jovem. Ele disse-me. 
Foi insensato tentar ocultar esse facto .. 

Pois foi, pois foi concordou Marthe, cheia de impacincia. 

#
Mas no podemos perder tempo com lamentaes, 
temos de descobrir uma maneira de o salvar. Claro que ele 
est inocente, mas isso no lhe servir de nada com um 
homem como Giraud, que tem de pensar na sua reputao. 
Precisa de prender algum e esse algum ser o Jack. 

Os factos incrimin-lo-o observou Poirot. Tem 
conscincia disso? 
Olhou-o de frente e repetiu as palavras que lhe ouvira na 
sala da me: 

No sou uma criana, monsieur, sei ser corajosa e encarar 
os factos de frente. Ele est inocente e temos de o salvar. 
Falou com uma espcie de energia desesperada e depois 
calou-se e franziu a testa como se meditasse. 

Mademoiselle, no estar a ocultar nada que nos devesse 
dizer? perguntou o meu amigo, sem a desfitar. 
Ela acenou afirmativamente, perplexa. 

Sim, h qualquer coisa... mas parece to absurdo que 

no sei se acreditar. 
De qualquer maneira, diga-nnos. . 
 o seguinte: M. Giraud mandou-me chamar, para me 

perguntar se sabia identificar o homem que est ali inclinou 
a cabea na direco da barraca. No soube. Pelo menos na 
altura, no soube. Mas depois tenho estado a pensar... 

E ento? 

Parece muito estranho, mas quase juraria... Eu explico. 
Na manh do dia em que M. Renauld foi assassinado eu estava 
aqui a passear no jardim quando ouvi vozes de homem, a 
discutir. Afastei os arbustos e espreitei. Um dos homens era l 

M. Renauld e o outro era um vagabundo, uma criatura de 
aspecto horrvel, coberta de andrajos imundos. Este ltimo 
#
pedinchava e ameaava alternadamente. Deduzi que estava a 
pedir dinheiro, mas nesse momento a maman chamouhme, de 
casa e tive de ir. Foi s isso que se passou, mas tenho quase a 
certeza de que o vagabundo e o morto da barraca so uma 
e a mesma pessoa. 
Poirot soltou uma exclamao abafada e perguntou-lhe: 

Mas porque no disse logo isso, na altura, mademoiselle? 

Porque ao princpio me pareceu apenas que o rosto meera 
vagamente familiar. O homem estava vestido de modo 
diferente e, aparentemente, a sua posio na vida era superior 
 do vagabundo. Mas diga-me uma coisa, M. Poirot, no ser 
possvel que o indivduo tenha atacado e matado M. Renauld, 
tirando-lhe depois a roupa e o dinheiro? 

 uma ideia, mademoiselle admitiu Poirot, em voz 
lenta. Deixa muita coisa por explicar, mas  sem dvida 
uma ideia. Pensarei nisso. 
Uma voz chamou, de casa. 

a maman murmurou Marthe. Tenho de ir e 
Esgueirou-se atravs das rvores. 
Venha disse Poirot e, dando-me o brao, seguiu na 
direco da Villa Genevive. 

Que pensa realmente? perguntei, com curiosidade. A 

histria que a rapariga contou  verdadeira ou t-la- inventado 
para desviar as suspeitas do namorado? 
 uma histria curiosa, mas creio que absolutamente verdadeira. 
Sem dar por isso, Mademoiselle Marthe disse-nos a 

verdade a outro respeito... e ao faz-lo deixou Jack Renauld 
por mentiroso. Reparou na hesitao dele quando lhe perguntei 
se falara com Marthe Daubreuil na noite do crime? S 
aps uma pausa  que respondeu: Falei. Desconfiei de que 

#
mentia e achei necessrio ver Mademoiselle Marthe antes que 
ele pudesse avis-la. Uma frasezinha simples deu-me a informao 

que desejava. Quando lhe perguntei se sabia que Jack 
Renauld estivera c na noite do crime, ela respondeu: Ele 
disse-me. Portanto, Hastings, que esteve Jack Renauld a fazer 
aqui na trgica noite, e se no esteve com Marthe, com quem 
esteve ento? 

No acredita, com certeza, que um rapaz como aquele 
fosse capaz de matar o prprio pai? perguntei, apavorado. 

Mon ami, continua a ser de um sentimentalismo incrvel! 
Tenho conhecido mes que assassinaram os filhinhos pequenos 
para receberem o seguro! Depois disso  possvel acreditar em 
tudo. 

E o mbil? 
Dinheiro, claro. Lembre-se de que Jack Renauld supunha 
que herdaria metade da fortuna do pai, por morte deste. 

Mas o vagabundo... Onde entra o vagabundo em tudo 
isso? 
Poirot encolheu os ombros. 

Giraud diria que foi um cmplice, um bandido que 
ajudou o jovem Renauld a cometer o crime e que depois foi 
ronvenientemente afastado do caminho. 

E o cabelo enrolado ao cabo do punhal? O cabelo de 
mulher? 
Ah, isso  a nata da brincadeirazinha de Giraud! 
exclamou Poirot, a sorrir. Ele est convencido de que no 

se trata de um cabelo de mulher. Lembre-se de que alguns 
jovens de hoje usam o cabelo penteado para trs, a partir da 
testa, e acamado com muita brilhantina ou fixador, para no 
se despentear. Por isso, alguns dos cabelos tm bom tamanho. 

#
No respondeu Poirot, com um sorriso curioso. Eu 

sei que  um cabelo de mulher... mais, sei de que mulher ! 
Madame Daubreuil afirmei positivamente. 
Talvez murmurou o meu amigo e fitou-me, irnico. 

Mas eu resolvi no me aborrecer e perguntei-lhe, ao entrarmos 
no vestbulo da Villa Genevive: 
Que vamos fazer agora? 
Desejo passar uma busca s coisas de M. Jack Renauld. 

Foi por isso que o afastei do caminho durante umas horas. 
Mas o Giraud no ter j efectuado essa busca? 
Sem dvida. Ele constri um caso destes como um castor 

constri uma represa, com fatigante zelo. Mas no deve ter 
procurado aquilo que eu procuro... e  muito provvel que no 
tenha compreendido a sua importncia, mesmo que tenha tido 
as coisas que me interessam debaixo do nariz. Comecemos. 
Calma e metodicamente, Poirot abriu uma gaveta de cada 
vez, examinou o contedo e rep-lo exactamente como o encontrara. 

Era um trabalho muito enfadonho e desinteressante. 
Poirot remexeu em colarinhos, pijamas e pegas. Uma espcie 
de rudo ronronante, no exterior, atraiu-me  janela. Fiquei 
galvanizado, acto contnuo. 

Poirot! Acaba de chegar um automvel. Vm nele Giraud, 
Jack Renaiuld e dois gendarmes. 

Sacre tonnerrel Esse animal do Giraud no podia ter 
esperado? No terei tempo para arrumar as coisas da ltima 
gaveta com o devido mtodo. Despachemo-nos! 
Sem cerimnias, despejou a gaveta no cho. O contedo 
constava principalmente de lenos e gravatas. De sbito, com 
uma exclamao de triunfo, Poirot deitou a mo a um rectngulo 

de carto, sem dvida uma fotografia. Guardou-a na 
algibeira, meteu tudo na gaveta a trouxe-mouxe, agarrou-me 

#
151 


#
no brao e arrastourme para fora do quarto e pela escada 

abaixo. Giraud estava no vestbulo, a olhar para o seu preso. 
Boas tardes, M. Giraud cumprimentou Poirot. Que 

aconteceu? 

O detective inclinou a cabea na direco do rapaz e respondeu: 
Ia tentar pirar-se, mas eu fui mais esperto do que ele. 

Est sob priso por suspeita de ter assassinado o pai, M. Paul 

Renauld. 

Poirot virou-se e olhou para o rapaz, que estava encostado 

 porta, de braos cados e lvido. 
Que diz a isso, jeune homme! 

Jack Renauld fitou-o como se no o visse e redarguiu: 
Nada. 

CAPTULO XIX 

Uso as Minhas Clulas Cinzentas 

Fiquei aparvalhado. At ao ltimo momento fora incapaz 

de acreditar que Jack Renauld fosse culpado. Esperara uma 

vibrante proclamao de inocncia, em resposta  pergunta 

de Poirot. Mas, ao v-lo flcido e plido, encostado  porta, e 

ao ouvir dos seus lbios aquela palavra incriminadora, deixei 

de duvidar. 

Poirot, porm, virou-se para o detective francs e perguntou-lhe: 
Em que se fundamenta para o prender? 
Espera que lho diga? 
Espero, quanto mais no seja por uma questo de cortesia. 

Giraud olhou-me, hesitante. Debatiase entre o desejo de 

recusar grosseiramente e o prazer de triunfar sobre o rival. 
Pensa que cometi um erro, no? indagou, sarcstico. 

No me surpreenderia replicou Poirot, com uma notazinha 
de maicia na voz. 

#
Giraud corou profundamente. 


Eh bien, venha c e julgar por si mesmo! escancarou 
a porta da sala e entrmos, deixando Jack Renauld  guarda 
dos dois gendarmes. 


Agora, M. Poirot comeou Giraud, pondo o chapu 
em cima da mesa e falando com extremo sarcasmo , vou  
brind-lo com uma liozinha acerca do que  o trabalho de detective. 


Mostrar-lhe-ei como ns, modernos, trabalhamos. 
Bien. exclamou Poirot, preparando-se para o ouvir. 
Eu mostrar-lhe-ei como a Velha Guarda sabe ouvir. Recostou-
se na cadeira, fechou os olhos e voltou a abri-los um 


momento, para observar: No receie que eu adormea. Ouvi-lo--
ei com a maior ateno. 


Claro que percebi logo que aquela histria dos chilenos 
era treta comeou Giraud. Foram dois homens, foram, 
mas no eram desconhecidos misteriosos nenhuns! Tudo isso 
foi para deitar poeira nos olhos. 


At agora vai tudo muito bem, meu caro Giraud murmurou 


o meu amigo. Especialmente se tivermos em conta, 
aquele inteligente truque deles com o fsforo .-e a -ponta do 
cigarro. 
Giraud fulminou-o com o olhar, mas prosseguiu: 
Tinha de haver um homem no caso, para abrir a sepultura. 

Nenhum homem beneficia verdadeiramente com o crime, 
mas havia um que julgava beneficiar. Tomei conhecimento da 
discusso de Jack Renauld com o pai e das ameaas que fez. 
O mbil ficou, assim, estabelecido. Vamos agora aos meios. 
Jack Renauld esteve em Merlinville nessa noite. Ocultou esse 
facto, o que transformou a suspeita, em certeza. Depois encontrmos 

uma segunda vtima... apunhalada com a mesma arma. 
Sabemos quando o punhal foi roubado, aqui o capito Hastings 

#
permitiu fixar a hora. Jack Renauld, chegado de Cherbourg, foi 

a nica pessoa que poderia t-lo tirado. Investiguei todas as 
outras pessoas da casa e no podia ter sido nenhuma delas. 
Est enganado interrompeu Poirot. H outra pessoa 
que podia ter tirado o punhal. 

Refere-se a M. Stonor? Esse chegou pela frente da casa, 
num automvel que o trouxe directamente de Calais. Ah, creia, 
investiguei todas as possibilidades! M. Jack Renauld chegou de 
comboio e decorreu uma hora entre a sua chegada e o momento 
em que entrou em casa. com certeza viu o capito Hastings e 
a companheira sarem do barraco, entrou l por sua vez, 
apoderou-se do punhal, apunhalou o cmplice na barraca... 

Cmplice que j estava morto! 
Giraud encolheu os ombros. 

Talvez ele no tenha reparado nisso. Pode ter julgado 
que o tipo estava a dormir. com certeza tinham marcado um 
encontro. De qualquer modo, ele sabia que este aparente 
segundo assassnio complicaria muito o caso. E complicou. 

Mas no enganou M. Giraud murmurou o meu amigo. 

Est a troar de mim, mas vou dar-lhe uma ltima e 
irrefutvel prova. A histria de Mrs. Renauld era falsa, uma 
inveno do princpio ao fim. Acreditamos que Madame Renauld 

amava o marido... mas mentiu para encobrir o seu 
assassino. Por quem  uma mulher capaz de mentir? Algumas 
vezes por si prpria, geralmente pelo homem que ama e sempre 
pelos filhos. Esta  a ltima e irrefutvel prova. No  possvel 
ignor-la. 
Giraud calou-se, corado e triunfante, e Poirot fitou-o com 
ateno. 

Pronto, expus o meu caso declarou o detective. Que 

#
tem a dizer, hem? 
Apenas que se esqueceu de tomar uma coisa em considerao. 
Qual? 
Jack Renauld estava provavelmente ao corrente do planeamento 
do campo de golfe e sabia que o corpo seria des


#
coberto quase imediatamente, quando comeassem abrir o 

bunker. 

Giraud deu uma grande gargalhada. 
O que acaba de dizer  idiota! Ele queria que o corpo 
fosse encontrado, pois enquanto tal no acontecesse no haveria 

a certeza da morte e ele no conseguiria entrar de posse 
da herana! 
Vi um relmpago de luz verde nos olhos de Poirot, quando 
se levantou. 


Nesse caso, para que pretenderia enterr-lo? perguntou 
muito suavemente. Reflita, Giraud. Se era do interesse de 
jack Renauld que o corpo fosse encontrado sem demora, para 
qu abrir uma sepultura? 


Giraud no respondeu; a pergunta apanharaa-o desprevenido. 
Encolheu os ombros, como se quisesse dar a entender que o 
pormenor no tinha importncia nenhuma. 
Poirot encaminhou-se para a porta e eu segui-o. 


H ainda outra coisa que no tomou em considerao 


acrescentou, por cima do ombro. 
O qu? 
O bocado de cano de chumbo respondeu o meu amigo, 


e saiu da sala. 
Jack Renauld continuava no vestbulo, plido e com uma 
expresso idiota, mas levantou vivamente a cabea, quando 
nos ouviu. No mesmo instante ouviram-se passos na escada. 
Era Mrs. Renaiuld que descia. Ao ver o filho entre os dois 
gendarmes, estacou, como que petrificada. 


Jack... murmurou. Que  isto, Jack? 
Prenderam-me, me. 
O qu?! 
Soltou um grito agudo e, antes que algum tivesse tempo 

#
de a amparar, cambaleou e caiu pesadamente. Corremos ambos 
para ela e levantmo-la. 
Fez um grande golpe na cabea, ao bater nos degraus 
informou Poirot. Creio que h tambm um ligeiro trauma


tismo. Se o Giraud quiser um depoimento dela, vai ter de 
esperar. Provavelmente ficar inconsciente pelo menos uma 
semana. 
Denise e Franoise tinham acorrido e, deixando a senhora 
ao seu cuidado, samos da moradia. Poirot comeou a andar 
de cabea baixa e testa franzida. Durante algum tempo conservei-me 

calado, mas por fim aventurei-me a fazer-lhe uma 
pergunta: 

Acredita ento que, apesar de todas as aparncias em 
contrrio, talvez Jack Renauld no seja culpado? 
Poirot deixou passar um longo momento, antes de responder, 

gravemente: 

No sei, Hastings. Existe uma possibilidade de que no 
seja. Claro que o Giraud est enganado do princpio ao fim. 
Se Jack Renauld  culpado, o a despeito dos argumentos de 
Giraud e no por causa deles. E a mais grave acusao contra 
ele s eu a conheo. 

Qual ? perguntei, impressionado. 

Se se servisse das suas clulas cinzentas e visse todo o 
raso claramente como eu o vejo, compreenderia, meu amigo. 
Aquilo era o que eu chamava uma das respostas irritantes 
de Poirot. Prosseguiu, sem esperar que eu falasse: 

Vamos por aqui, at ao mar. Sentar-nos-emos naquela 
elevaozinha, acol, por cima da praia, e passaremos o caso 
em revista. Ficar a saber tudo quanto eu sei, embora eu preferisse 

que chegasse  verdade atravs dos seus prprios esforos 

#
e no conduzido pela mo por mim. 
Instalmu-nos no cabeo relvado, como Poirot sugerira, 
virados para o mar. Os gritos dos banhistas chegavam at ns 
vindos de longe, abafados. O mar estava de um azul muito 
lmpido e claro e a calma recordou-me o dia da chegada a 
Merlinville: a minha boa disposio e a -sugesto de Poirot de 
que eu era, como os Escoceses diziam, fey. Parecia ter sido 
h tanto tempo, embora tivessem decorrido apenas trs dias! 

Pense, meu amigo disse-me Poirot, em tom encoraja-

dor. Organize as suas ideias. Seja metdico. Seja ordenado. 
 esse o segredo do xito. 
Tentei obedecer-lhe e passar em revista todos os pormenores 
do mistrio. Embora com relutncia, cheguei  concluso de 
que a nica soluo clara e possvel era a de Giraud, que 
Poirot desdenhava. Reflecti de novo. Se havia alguma luz, 
apontava para Madame Daubreuil. Giraud ignorava a ligao 
dela com o Processo Beroldy e Poirot declarara que o Processo 
Beroldy era importantssimo. Era a que devia procurar. Estava 
na pista certa. Estremeci, de sbito, quando umna ideia de ofuscante 

claridade me atravessou o esprito. Elaborei a minha 

teoria, todo trmulo. 
Estou a ver que tem uma ideiazinha, mon ami! Excelente! 
Progredimos. 
Poirot, parece-me que temos sido singularmente negligentes. 
Digo temos sido, embora creia que andaria mais perto 

da verdade se dissesse tenho sido. Mas voc tem de receber o 
castigo da sua teimosa reserva. Por isso repito que temos sido 
singularmente negligentes. Esquecemo-nos de algum. 

De quem? perguntou Poirot, com os olhos a brilhar. 
De Georges Conmeau! >-. 

#
CAPTULO XX 

Uma Surpreendente Declarao 

Poirot abraou-me calorosamente. 

Enfim! Descobriu, e sozinho!  maravilhoso! Continue a 
raciocinar. Tem razo, decididamente fizemos mal esquecendo 
Georges Conneau. 
Fiquei to lisonjeado com a aprovao do homenzinho que 
tive dificuldade em continuar. Mas por fim consegui dominar-me 

e prossegui: 

Georges Conneau desapareceu h vinte anos, mas ns 

no temos razo nenhuma para crer que tenha morrido. 
Aucunement! concordou Poirot. Prossiga. 
Portanto, presumiremos que est vivo. 
Exactamente. 

Ou que estava vivo, at h pouco tempo. 
Cada vez melhor! 
Presumiremos continuei, com entusiasmo crescente 
que teve azar, que conheceu maus dias e se tornou um criminoso, 

um bandido, um vagabundo... o que quiser. Veio a 
Merlinville por acaso e encontrou a mulher que nunca deixara 
de amar. 

Eh, eh! O sentimentalismo! advertiu Poirot. 

Quando se odeia tambm se ama citei, provavelmente 
mal. De qualquer modo, encontrou-a aqui, a viver sob um 
nome suposto. Mas agora tinha um novo amante, o ingls, 
Renauld. Georges Conneau, sentindo despertar nele a recordao 

de antigas traies, discuitiu coin Renauld. Ficou de atalaia 
 espera que ele fosse visitar a amante e apunhalou-o pelas 
costas. Depois, aterrorizado com o que fizera, comeou a abrir 
uma sepultura. Acho provvel que Madame Daubreuil tenha 

#
sado,  procura do amante. Ento houve uma cena terrvel 
entre ela e Gonneau. Ele arrastou-a para a barraca e a, subitamente, 
caiu com um ataque epilptico. Suponha que nesse 
momento apareceu Jack Renauld. Madame Daubreuil contou-lhe 
tudo, fez-lhe ver as terrveis consequncias que aquele 
escndalo do passado poderia ter para a filha, se fosse ressuscitado. 
O assassino do pai dele estava morto, porque no fariam 

o possvel para que o passado continuasse a ser desconhecido? 
Jack Renauld concordou, foi a casa, falou com a me e convenceu-a 
a aceitar o seu ponto de vista. Influenciada pela 
histria que Madame Daiubreuil contara ao filho, ela deixou-se 
amordaar e amarrar. Pronto, Poirot, que lhe parece? Inclinei-me 

para trs, corado com o prazer que me causava a feliz 
reconstituio dos acontecimentos. 

O meu amigo olhou-me, pensativamente, e por fim observou: 
Acho que devia escrever argumentos para o cinema, 

mon ami. 

Quer dizer...? 
Quero dizer que a histria que me contou daria um bom 


filne, mas no tem qualquer semelhana com a vida real. 
Admito que no aprofundei todos os pormenores, mas... 
No s no os aprofundou, como os ignorou magnificamente! 
Que me diz da maneira como os dois homens estavam 


vestidos? Pretender insinuar que, depois de apunhalar a sua 
vtima, Conneau a despiu, vestiu a roupa de Renauld e reps 


o punhal na ferida? 
No me parece que isso tenha importncia pmotestei, 
amuado. Ele podia ter obtido, antes, roupas e dinheiro de 
Madame Daubreuil, nediante ameaas. 

Mediante ameaas, hem? Apresenta essa sugesto seriamente? 

#
com certeza! Podia, por exemplo, t-la ameaado de que 
revelaria a sua identidade aos Renauld, o que provavelmente 
poria fim a todas as esperanas de casamento da filha 

Est enganado, Hastings. Ele no podia exercer chantagem 
sobre ela, pois quem segurava o chicote era ela. Lembre-se 
de que Georges Conneau ainda  procurado por assassnio. 
Uma palavra dela e ia parar  guilhotina. 

Fui obrigado a dar-lhe razo, por muito que me custasse. 
A sua teoria , sem dvida, correcta em todos os pormenores? 
perguntei, em tom cido. 
A minha teoria  a verdade respondeu-me, calma


mente. E a verdade  forosamente correcta. Na sua teoria 
cometeu um erro fundamental: permitiu que a imaginao o 
desencaminhasse, com encontros  meia-noite e cenas de amor 
apaixonadas. Quando investigamos um crime devemos assentar 
bem os ps na terra, basear-nos no que  comum, banal. Quer 
que lhe exemplifique os meus mtodos? 

Oh, por quem , venha de l a exemplificao! 

Poirot sentou-se muito direito e comeou, agitando de vez 
em quando o indicador em riste, para sublinhar as suas ideias: 

Comearei como voc pelo facto bsico que  Georges 
Conneau. A histria contada por Madame Beroldy no tribunal, 
acerca dos russos, foi confessadamente uma inveno. Se 
estava inocente de conivncia no crime, essa histria foi engendrada 

por ela, e s por ela, como alis afirmou. Mas se, por 
outro lado, no estava inocente, tanto pode ter sido inventada 
por ela como por Georges Conneau. 
Neste caso que estamos a investigar encontramos o mesmo 
tipo de histria. Como j lhe fiz ver os factos, torna-si muito 
improvvel que Madame Daiuibreuil a tenha inspirado. Por isso 

#
encaramos a hiptese de a fbula ter tido a sua origem no 
crebro de Georges Conneau. Muito bem. Portanto, Georges 
Conneau planeou o crime com Madame Renauld como sua 
cmplice. Ela est na ribalta e atrs dela encontra-se uma 
figura nebulosa, cujo nome suposto nos  desconhecido. 
Recapitulemos agora, cuidadosamente, o caso Renauld, 
desde o princpio, estabelecendo cada pormenor significativo 
por ordem cronolgica. Tem um livro de apontamenttos e um 
lpis? ptimo. Qual  o primeiro ponto a anotar? 
A carta que voc recebeu? 

Isso foi a primeira coisa que soubemos, mas no  o 
princpio verdadeiro do caso. Eu diria que o primeiro ponto 
com alguma importncia foi a modificao que se operou em 

M. Renauld pouco depois da sua chegada a Merlinville, modificao 
que  confirmada por vrias testemunhas. Temos tambm 
de tomar em considerao a sua amizade com Madame 
Daubreuil e as avultadas quantias em dinheiro que lhe deu. Da 
podemos passar directamente para o dia 23 de Maio. 
Poirot fez uma pausa, pigarreou e fez-me sinal para escrever: 


23 de Maio. M. Renauld discute com o filho por causa 
do desejo deste de casar com Marthe Daubreuil. O filho parte 
para Paris. 

24 de Maio. M. Renauld modifica o seu testamento, deixando 

o inteiro controlo da fortuna nas mos da mulher. 
7 de Junho. Discusso com um vagabundo no jardim, testemunhada 
por Marthe Daubreuil. 
Carta escrita a M. Hercule Poirot, rogando auxlio. 
Telegrama enviado a Jack Renauld ordenando-lhe que 
embarque no Anzora para Buenos Aires. 
Motorista Masters mandado embora, de licena. 

#
Visita de uma senhora, nessa noite. Quando a acompanhou 
 porta, disse-lhe: Sim, sim... mas agora, pelo amor de Deus, 
v-se embora. 
Poirot fez nova pausa. 


Pronto, Hastings, considere esses factos um por um, examine-os 


cuidadosamente por si mesmos e em relao com o 
todo, e diga-me se no v o caso a uma nova luz. 
Tentei conscienciosamente fazer o que me recomendava. 
Passados momentos, disse, duvidoso: 


Quanto aos primeiros pontos, a questo parece ser se 
adoptamos a teoria da chantagem ou a de uma paixo pela 
mulher em causa. 


Chantagem, decididamente. Ouviu o que Stowor disse 
quanto ao carcter e aos hbitos de Renauld. , 
Mrs. Renauld no confirmou a opinio do secretrio 
argumentei. 

J vimos que no podemos confiar em sentido nenhum 
no depoimento de Madame Renauld. Nesse pormenor temos de 
acreditar no Stonor. 

No entanto, se Renauld teve um romance com uma mulher 
chamada Bella, parece no haver nenhuma improbabilidade 
inerente de que tivesse outro com Madame Daubreuil. 
Absolutamente nenhuma, Hastings, admito. Mas teve o 

tal romance? 
A carta, Poirot. Esquece-se da carta. 
No esqueo tal. Mas porque pensa que a carta foi 

escrita a M. Renauld? 
11-VAMP. G. 2 
161 
Bien, foi encontrada na algibeira dele e... e... 
E mais nada! cortou Poirot. No havia nenhum 

#
nome que indicasse o destinatrio da carta. Presumimos que o 
destinatrio era o morto porque foi encontrada na algibeira do 
seu sobretudo. Ora, meu amigo, algo nesse sobretudo me pareceu 

estranho. Medi-o e observei que M. Renauld usava o sobretudo 
muito comprido. Essa observao devia-lhe ter dado que 

pensar. 
Julguei que tinha feito a observao s para dizer qualquer 
coisa confessei. 
Quelle ideei Mais tarde viu-me medir o sobretudo de 

M. Jack Renauld. Eh bien, M. Jack Renauld usa o sobretudo 
muito curto. Junte estes dois factos a um terceiro, ou seja, ao 
de M. Jack Renauld ter sado de casa cheio de pressa, a fim de 
partir para Paris, e diga-me a que concluso chega! 
Compreendo... murmurei, lentamente,  medida que 
apreendia o sentido das observaes de Poirot. A carta foi 
escrita a Jack Renauld e no ao pai. Apressado e colrico, o 
rapaz pegou no sobretudo que no lhe pertencia. 

Precisamente exclamou Poirot, a acenar com a cabea. 
Depois voltaremos a este pormenor. Por agora, contentemo-nos 
com aceitar a ideia de que a carta no tem nada a ver com 

M. Renauld paie e passemos ao acontecimento cronolgico 
seguinte. 
23 de Maio. M. Renauld discute com o filho por causa 
do desejo deste de casar com Marthe Daubreuil. O filho parte 
para Paris. No tenho muito que observar a este respeito e a 
modificao do testamento no dia seguinte parece-me clara: 
foi consequncia directa da discusso. 

Concordamos, mon ami... pelo menos quanto  causa. 
Mas que motivo exacto esteve subjacente a esse procedimento 
de M. Renauld? 
Abri muito os olhos, surpreendido. 

#
Clera contra o filho, claro! 
No entanto, ele escreveu-lhe cartas afectuosas para Paris. 


Isso foi o que Jack Renauld disse, mas no pde prov-lo 


apresentando as prprias cartas.  
Bem, deixemos isso. 
Chegamos ao dia da tragdia. Voc colocou os acontecimentos 
da manh por uma certa ordem. Tem alguma justificao 
para isso? 
Averiguei que a carta para mim foi expedida ao mesmo 


tempo que o telegrama. Masters foi informado de que podia 


gozar uma licena pouco depois. Na minha opinio, a discusso 
com o vagabundo ocorreu antes desses acontecimentos. 
No me parece que possa determinar isso definitivamente... 
a no ser que volte a interrogar Mademoiselle Daubreuil. 
No  necessrio. Tenho a certeza. E se voc no consegue 
ver isso, ento no consegue ver nada, Hastings! 
Claro, sou um idiota! exclamei, por fim. Se o vagabundo 
era Georges Conneau, s depois do tempestuoso encontro 


com ele  que M. Renaiuld teve conscincia do perigo que corria. 
Mandou embora o motorista, Masters, por suspeitar que estava 
a soldo do outro, telegrafou ao filho e escreveu-lhe a si, a 
cham-lo. 
Um leve sorriso entreabriu os lbios de Poirot. 


No acha estranho que ele tenha empregado na carta 
exactamente as mesmas expresses que Madame Renauld 
empregaria mais tarde na sua histria? E se a meno de 
Santiago era para despistar, porque a utilizaria Renauld... e, 
mais, porque mandaria l o filho? 


 intrigante, admito, mas talvez encontremos qualquer 
explicao mais tarde. Agora chegamos  noite e  visita da 


#
misteriosa dama. Confesso que este assunto me causa um 
bocado de confuso, a no ser que se tratasse de facto de 
Madame Daubreuil, como a Franoise no se tem cansado de 
afirmar. 
Poirot abanou a cabea. 

Meu amigo, meu amigo, por onde anda o seu raciocnio? 

Lembre-se do fragmento do cheque e de que o nome de Bella 
Duveen pareceu vagamente familiar a Stonor. Penso que podemos 

partir do princpio de que Bella Duveen  o nome 
completo da desconhecida correspondente de Jack e que foi 
ela que esteve na Villa Genevive nessa noite. No podemos ter 
a certeza se ela tencionava falar com o rapaz ou apelar para 

o pai dele, mas creio que podemos presumir que foi isso que 
aconteceu. Exps os seus direitos a Jack, provavelmente mostrou 
cartas que ele lhe escrevera, e o pai do rapaz tentou 
cal-la passando-lhe um cheque, cheque que ela rasgou, indignada. 
Os termos da sua carta so os de uma mulher sinceramente 
apaixonada e, nesse caso,  natural que se tenha sentido 
profundamente ofendida por lhe oferecerem dinheiro. Por fim 
ele conseguiu livrar-se dela e as palavras que disse  porta so 
significativas. 

Sim, sim, mas agora, pelo amor de Deus, v-se embora. 
repeti. Parecem-me um pouco veementes, talvez. 
Ele estava desesperadamente ansioso por que a rapariga 

se fosse embora. Porqu? No apenas porque a entrevista era 
desagradvel. O que o preocupava era o facto de o tempo ir 
passando e, por qualquer motivo, o tempo ser precioso, nessa 
altura. 

Mas porqu? perguntei, perplexo. 
Isso  o que perguntamos a ns mesmos: Porque havia o 


#
tempo de ser precioso? Mais tarde, porm, temos o incidente 
do relgio de pulso, que demonstra mais uma vez que o tempo 
desempenha um papel muito importante no crime. Agora aproximamo-nos 

a passos largos do drama real. Eram dez e meia 
quando Bella Duveen partiu e graas ao relgio de pulso sabemos 

que o crime foi cometido, ou pelo menos encenado, antes 
da meia-noite. Passmos em revista todos os acontecimentos 
anteriores ao assassnio e s nos falta situar um. Na opinio 
do mdico, o vagabundo, ao ser encontrado, j estava morto 
havia pelo menos quarenta e oito horas, com uma possvel 
margem de mais vinte e quatro horas. No dispondo da ajuda 

de quaisquer outros factos alm dos que j discutimos, tenho 
de situar a morte na manh de 7 de Junho. 
Mas como? Porqu? perguntei, estupefacto. Como 
pode sab-lo? 

Porque s assim a sequncia dos acontecimentos pode ser 
logicamente explicada, Mon ami, conduzi-o passo a passo ao 
longo do caminho. No v o que  to claramente evidente? 

Meu caro Poirot, no vejo nada de claro nem de evidente. 
Cheguei a pensar que comeava a ver alguma coisa, mas estou 
outra vez completamente baralhado. 
O meu amigo olhou-me tristemente e abanou a cabea. 

Mon Dieu, como  triste! Uma boa inteligncia e to 
deploravelmente carecida de mtodo! H um excelente exerccio 
para o desenvolvimento das celulazinhas cinzentas. Eu 
ensino-lhe... 

Agora no, pelo amor de Deus! Palavra, voc  a mais 
irritante das criaturas, Poirot! Tenha a bondade de continuar e 
de me dizer quem matou M. Renamld, por favor! 

Disso  que ainda no tenho a certeza. 

#
Mas disse que era claramente evidente! 

Estamos a desconversar, meu amigo. Lembre-se de que investigamos 

dois crimes, para os quais, como lhe observei, 
temos os dois cadveres necessrios. Calma, ne vous impatientez 
ps! Eu explico tudo. Para comear, apliquemos a psicologia. 
Encontramos trs pontos em que M. Renauld revela uma distinta 

mudana de opinio e aco trs pontos psicolgicos, 
portanto. O primeiro ocorre imediatamente depois da chegada 
a Merlinville, o segundo depois de discutir com o filho acerca 
de um certo assunto e o terceiro na manh de 7 de Junho. 
Vejamos agora as trs causas. Podemos atribuir a mudana 
n. 1 ao facto de encontrar aqui Madame Daubreuil. A n. 2 
est indirectamente relacionada com ela, uma vez que diz 
respeito ao casamento do filho de M. Renauld com a filha dela. 
A causa n. 3, porm, ignoramo-la. Temos, por isso, de fazer 

dedues. Permita que lhe faa uma pergunta, mon ami: Quem 
julgamos que planeou este crime? 

Georges Coaneau respondi, duvidoso, a olhar Poirot 
com ateno. 

Exactamente. Giraud afirmou, como se se tratasse de 
um axioma, que uma mulher mente para se salvar a ela, ao 
homem a quem ama e aos filhos. Como estamos certos de que 
foi Georges Conneau que lhe imps a mentira, e como Georges 
Conoeau no  Jack Renauld, segue-se que a terceira causa 
est fora de questo. E, continuando a atribuir o crime a Georges 

Conneau, acontece o mesmo  primeira. Resta-nos portanto 
a segunda, que nos  imposta: Madame Renauld mentiu pelo 
homem a quem amava por outras palavras, mentiu por amor 
de Georges Conneau. Concorda? 

Concordo. Parece-me suficientemente lgico. 

#
Bien! Madame Renauld ama Georges Conneaut. Quem  


ento Georges Conneau? 
O vagabundo. 
Tem alguma coisa que lhe demonstre que Madame Renauld 
amava o vagabundo? 
No, mas... 
Muito bem, ento. No se agarre a teorias quando os 


factos deixam de apoi-las. Pergunte antes a si mesmo quem 
amava Madaime Renauld. 
Abanei a cabea, perplexo. 


Mais oui, sabe-o perfeitamente! Quem amava Madame 
Renauld to ternamente que ao ver o seu cadver desmaiou? 
Fitei-o, atordoado. 


O marido? perguntei, e a voz saiiune estrangulada da 
garganta. 
Poirot acenou afirmativamente. 


O marido... ou Georges Conneau, como prefira, chamar-lhe. 
Mas isso  impossvel! 
 impossvel porqu? No conclumos h pouco qe 


Madame Daubreuil estava em situao de exercer chantagem 


sobre Georges Conneau? 
Sim, mas... 
E ela no exerceu efectivamente chantagem sobre M. Renauld? 
Pode ser verdade, mas... 
E no  um facto que no sabemos nada acerca da infncia 
e da juventude de M. Renauld? No  verdade que ele surgiu 


subitamente como canadiano francs h vinte e dois anos, 
exactamente? 
Tudo isso  verdade concordei, em tom mais firme , 
mas parece-me que voc est a ignorar um facto importante. 

#
Qual, meu amigo? 

Bem, ns admitimos que Georges Conneaiu planeou o 
crime, ora isso conduz-nos  ridcula concluso de que ele 
planeou o seu prprio assassnio! 

Eh bien, mon ami, foi exactamente isso que ele fez! 
declarou Poirot, no tom mais plcido desta vida. 
CAPTULO XXI 

Hercule Toirot em Aco 

Poirot iniciou a sua exposio em voz comedida: 

Parece-lhe estranho, mon ami, que um homem planeie a 
sua prpria morte? Estranho ao ponto de preferir repudiar a 
verdade, como fantstica, e agarrar-se a uma histria que, na 
realidade,  dez vezes mais impossvel? Sim, M. Renauld planeou 
a sua prpria morte, mas h um pormenor que talvez lhe 
escape, Hastings:  que ele no tencionava morrer. 
Abanei a cabea, aparvalhado. 

No, acredite que  muito simples afirmou Poirot, 
bondosamente. Para o crime que M. Renauld pretendia no 
era necessrio um assassino, como j lhe disse, mas era ne


cessario um corpo. Recapitulemos, vendo os acontecimentos, 
desta vez, de uma perspectiva diferente. 
George Conneau fugiu  justia e refugiou-se no Canad. 
A, sob nome suposto, casa e, finalmente, acumula uma imensa 
fortuna na Amrica do Sul. Mas sente a nostalgia do seu prprio 
pas. Decorreram vinte anos e, alm de o seu aspecto se ter 
modificado consideravelmente,  um homem to eminente que 
no  provvel que algum se lembre de o relacionar com um 
indivduo fugido  justia muitos anos antes. Acha, por isso, 
que pode regressar com segurana. Fixa a sua sede em Ingla-terra, 
mas decide passar o Vero em Frana. E a m sorte, essa 

#
obscura justiceira que molda o fim dos homens e no consente 
que escapem  consequncia dos seus actos, leva-o a Merlinville. 
Numa Frana to grande,  precisamente a, nessa pequena 
terra, que se encontra a nica pessoa capaz de o reconhecer. 
Trata-se evidentemente de uma mina de ouro para Madame 
Daiubreuil, e de uma mina de ouro de que ela se apressa a tirar 
proveito. Ele nada pode fazer, est absolutamente nas mos 
dessa mulher. E ela sangra-o sem piedade. 
E ento acontece o inevitvel: Jack Renauld apaixona-se 
pela bonita rapariga que v quase todos os dias e quer casar 
com ela. Isso enfurece o pai. Tem de evitar a todo o custo que 

o filho case com a filha daquela mulher perversa. Jack Renauld 
no sabe nada do passado do pai, mas Madame Renauld sabe 
tudo.  uma mulher de grande fora de carcter e apaixonadamente 
dedicada ao marido. Estudam o assunto. Renauld s v 
uma sada possvel: a morte. Tem de dar a impresso de que 
morre, embora na realidade fuja apenas para outro pas onde 
recomear de novo sob outro nome suposto e onde Mrs. Renauld, 

depois de ter representado o papel de viva durante 
algum tempo, se lhe reunir. Como  essencial que ela possa 
controlar o dinheiro, ele modifica o testamento. No sei como 
pensaram resolver a questo do cadver, primitivamente... 
talvez um esqueleto de estudante e um fogo ou qualquer coisa 
desse gnero. No entanto, muito antes de os seus planos estarem 

amadurecidos, acontece uma coisa que parece ajud-los. Um 
vagabundo grosseiro e violento introduz-se no jardim. H discusso, 

M. Renauld tenta expuls-lo e, de sbito, o vagabundo, 
que  epilptico, cai com um ataque. E morre. M. Renauld 
chama a mulher. Juntos, arrastam o cadver para a barraca 
como sabemos, a ocorrncia deu-se a pouca distncia e tomam 
#
conscincia da maravilhosa oportunidade que se lhes oferece. 
O homem no tem qualquer semelhana com M. Renauld, mas 
 de meia-idade e do tipo francs comum. Isso basta. 
Desconfio que se sentaram no banco prximo da barraca 
para no serem ouvidos em casa, e discutiram o assunto. Depressa 


gizaram um plano. A identificao teria de depender 
exclusivamente do testemunho de Madame Renauld. Jack 
Renauld e o motorista que trabalhava para M. Renauld havia 
dois anos) tinham de ser afastados. Era pouco provvel que as 
criadas francesas se aproximassem do corpo e, de qualquer 
modo, Renauld tencionava tomar providncias que enganassem 
qualquer pessoa que no se prendesse com pormenores. Afastado 


Masters, foi enviado um telegrama a Jack e Buenos Aires 
escolhido para emprestar crdito  histria que Renauld 
escolhera. Tendo ouvido falar de mim como detective idoso 
e obscuro, escreveu-me o seu pedido de socorro sabendo que, 
quando eu chegasse, a apresentao da sua carta causaria efeito  
profundo no juiz de instruo como de facto causou. 
Vestiram ao cadver do vagabundo um fato de M. Renauld 
e deixaram os seus andrajos junto da porta da barraca, sem se 
atreverem a lev-los para casa. E depois, para dar crdito  
histria que Madame Renauld contaria, cravaram o punhal 
feito do arame de avio no peito do morto. Nessa noite M. Renauld 


comearia por amarrar e amordaar a mulher e depois, 
com uma p, abriria uma cova no terreno onde sabia que iriam 
abrir um bunker. Era essencial que o corpo fosse encontrado, 
para que Madame Daubreuil no tivesse quaisquer suspeitas. 
Por outro lado, se antes disso decorresse um certo espao de 
tempo, os perigos quanto  identificao diminuiriam grande-


mente. Em seguida M. Renaiuld envergaria os andrajos do vagabundo 


#
e dirigi-se-ia para a estao, onde embarcaria, sem 
dar nas vistas, no comboio da meia -noite e dezassete. Como se 
suporia que o crime ocorrera duas horas depois, no poderiam 
recair sobre ele quaisquer suspeitas. 
Compreende agora a irritao que lhe causou a inoportuna 
visita da tal Bella? Cada momento de atraso era fatal para os 
seus planos. Livrou-se dela o mais depressa que pde e depois 
deitou mos  obra. Deixou a porta principal entreaberta, para 
dar a impresso de que os assassinos tinham sado por a. 
Amarrou e amordaou Madame Renauld, tendo porm o cuidado 

de corrigir o seu erro de vinte e dois anos atrs, quando 
a frouxido das cordas originou que as suspeitas incidissem na 
sua cmplice. Mas ensinou-lhe essencialmente a mesma histria 
que inventara da primeira vez, o que demonstra a inconsciente 
recusa da originalidade pela mente. Como a noite estava fresca, 
enfiou um sobretudo por cima da roupa de baixo, resolvido 
a deix-lo depois na sepultura com o morto. Saiu pela janela, 
alisou cuidadosamente o canteiro... e forneceu assim a prova 
mais positiva contra ele prprio. Dirigiu-se para o terreno 
isolado do futuro campo de golfe, cavou e ento... 

E ento? 
E ento a justia a que se furtara durante tanto tempo 
alcanou-o respondeu Poirot, gravemente. Mo desconhecida 

apunhalou-o pelas costas... Compreende agora o que 
quero dizer quando falo de dois crimes. O primeiro crime, 
aquele que M. Renauld, na sua arrogncia, nos pediu que 
investigssemos (ah, mas ele a cometeu um grande erro, julgou 
mal Hercule Poirot!), esse crime est solucionado. Atrs dele, 
porm, existe uma charada muito mais complexa e que ser 
difcil de resolver, pois o criminoso, sensato, contentou-se com 
aproveitar os dispositivos preparados pelo prprio M. Renauld. 

#
Tem sido um mistrio muito intrigante, muito confuso. Um 
indivduo jovem, como Giraud, que no atribui qualquer importncia 
 psicologia, est praticamente condenado a falhar. 

Voc  maravilhoso, Poirot! exclamei, cheio de admirao. 
Absolutamente maravilhoso! S voc poderia ter chegado 


a semelhantes concluses! 
Creio que os meus elogios lhe agradaram. Pela primeira vez 
na sua vida, pareceu quase embaraado. 


Ah, ento j no despreza o velho pap Poirot? Retira a 
sua lealdade ao co de caa humano? 
A maneira como classificava Giraud nunca deixava de me 
fazer sorrir. 


Inteiramente! Voc venceu-o estrondosamente. 
Pobre Giraud, coitado! exclamou o meu amigo, tentando 
em vo mostrar-se modesto. No se trata, com certeza, 


somente de estupidez. Tambm teve azar, uma ou duas vezes. 


Aquele cabelo preto enrolado ao cabo do punhal, por exemplo... 
Induzia em erro, pelo menos. 
Para ser franco, Poirot confessei, devagar , ainda no 


percebo bem de quem era esse cabelo. 
De Madame Renauld, evidentemente. Foi a que entrou 


o azar. O cabelo dela, primitivamente preto, est agora quase 
por completo grisalho. Calhou enrolar-se ao cabo do punhal 
um cabelo preto como poderia ter-se enrolado um grisalho... 
e ento, por muito que Giraud se esforasse, no conseguiria, 
persuadir-se que era da cabea de Jack Renauld! ɔ uma triste 
pecha que os factos tenham de ser sempre deformados para se 
encaixarem numa teoria! Giraud no encontrou rastos de duas 
pessoas, um homem e uma mulher, na barraca? Ora, como se 
ajusta esse facto com a reconstituio que fez do caso? Eu 
#
digo-lhe: no se ajusta nada e, por isso, no voltaremos a ouvir 
falar de tal pormenor! Ser isto uma maneira metdica de 
trabalhar? O grande Giraud! O grande Giraud no passa de um 
balo, inchado com a sua prpria importncia. Mas eu, Hercule 
Poirot, eu que ele despreza, serei o alfinetinho que picar o 
grande balo, comme a! e fez um gesto expressivo. 
Depois acalmou-se um pouco e prosseguiu: 

Quando se recompuser, Madame Renauld falar, sem 
171 
dvida. Nunca lhe passara pela cabea a ideia de que o filho 
poderia ser acusado do assassnio. Como poderia ser, se o 
julgava no mar, em segurana, a bordo do Anzora? Ah, voil 
une femme, Hastings! Que fora, que autodomnio! S cometeu 
um deslize ao dizer, quando o filho regressou inesperadamente: 
No importa... agora. E ningum reparou, ningum compreendeu 

o significado daquelas palavras. Que terrvel papel 
teve de representar, pobre mulher! Imagine o choque que deve 
ter sofrido quando foi identificar o cadver, e, em vez do que 
esperava, encontrou o corpo sem vida do marido, que julgava 
j a quilmetros de distncia! No admira que desmaiasse. Mas 
depois disso, apesar da sua mgoa e do seu desespero, com que 
resoluo 

continuou a desempenhar o seu papel, e que angstia 
isso lhe deve ter causado! No podia dizer uma palavra que 
nos pusesse na pista dos verdadeiros assassinos. Por amor do 
filho, ningum deve saber que Paul Renauld era Georges 
Conneau, o criminoso. Golpe derradeiro e mais amargo de 
todos: teve de admitir publicamente que Madame Daubreuil 
era amante do marido, pois qualquer suspeita de chantagem 
poderia ser fatal ao seu segredo. com que inteligncia soube 
lidar com o juiz de instruo, quando ele lhe perguntou se 

#
havia algum mistrio no passado do marido! Nada de to 

romntico, Sr. Juiz, tenho a certeza. Foi perfeita! O tom indulgente, 

a sombra de triste zombaria... M. Hautet sentiu-se imediatamente 

pateta e melodramtico. Sim,  uma grande mulher! 
Amou um criminoso, mas amou-o como uma rainha! 
Poirot calou-se, perdido em devaneios. 

S mais uma coisa, meu amigo: e o bocado de cano de 
chumbo? 

No percebeu, Hastings? Destinava-se a desfigurar o rosto 
da vtima, para o tornar irreconhecvel. Foi isso que comeou 
por me lanar na pista certa. E aquele idiota do Giraud a 
ignor-lo em benefcio de paus de fsforo! No lhe disse que 
uma pista de sessenta centmetros  to boa como uma pista 
de seis? 

Bem, agora o Giraud mudar de tom e cantar piannho 

apressei-me a observar, para desviar a conversa das minhas 
prprias deficincias. 

Acha que sim? Se chegou  pessoa certa pelo mtodo 
errado, no permitir que semelhante ninharia o preocupe. 

Mas certamente... calei-me, ao perceber o novo caminho 

das coisas. 

Compreende, Hastings, agora temos de recomear. Quem 
matou M. Renauld? Algum que se encontrava perto da moradia 
pouco antes da meia-noite desse dia, algum que beneficiaria 
com a sua morte. Esta descrio assenta como uma luva em 
Jack Renauld. O crime nem precisava de ter sido premeditado. 
E, depois, o punhal!... 
Estremeci. No pensara naquele pormenor. 

Claro, o segundo punhal encontrado no vagabundo era o 
de Mrs. Renauld. Isso significa que havia dois. 

#
Sem dvida. E como eram cpias exactas um do outro, 
salta aos olhos que Jack Renauld era o dono do primeiro. Mas 
isso no me preocuparia por a alm, Hastings. Por sinal, at 
tenho uma ideiazinha a esse respeito. No, a pior acusao 
contra ele , mais uma vez, de natureza psicolgica: a hereditariedade, 


mon ami, a hereditariedade! Tal pai, tal filho. 
No fim de contas, Jack Renauld  filho de Georges Conneau. 
Falara em tom grave e profundo e, mal-grado meu, senti-me 
impressionado. 


Qual  a tal ideiazinha de que falou? 
Como resposta, Poirot consultou o cebolo do relgio e 
perguntou por sua vez: 


A que horas parte de Calais o barco da tarde? 
Cerca das cinco, creio. 
ptimo, temos tempo. 
Vai a Inglaterra? 
Vou, meu amigo. 
Para qu? 
Procurar uma possvel... testemunha. 


Quem? 


Poirot respondeu-me, com um sorriso muito peculiar: 
Miss Bella Duveen. 
Mas como a poder encontrar? Que sabe a respeito dela? 
No sei nada a respeito dela, mas posso conjecturar 


muitas coisas. Podemos partir do princpio de que o seu nome 
 Bella Duveen e, como esse nome pareceu vagamente familiar 
a M. Stonor, embora no em relao com a famlia Renauld,  
provvel que ela trabalhe no teatro. Jack Renauld era um 
jovem com muito dinheiro e vinte anos.  mais que certo que 


o teatro tenha sido a origem do seu primeiro amor. Alm disso, 
#
isso est de acordo com a ideia que M. Renauld teve de aplacar 
a rapariga com um cheque. Creio que a encontrarei... especialmente 

com a ajuda disto. 
E mostrou-me a fotografia que o vira tirar da gaveta de 
Jack Renauld e que tinha escrito, ao canto: com amor, da 
Bella. Mas no foram essas palavras que me prenderam os olhos 
fascinados. O retrato no era muito bom, mas mesmo assim no 
me restaram quaisquer dvidas. Senti-me gelar, como se uma 
calamidade indizvel se tivesse abatido sobre mim. 
Era o rosto de Cinderela. 
CAPTULO XXII 

Descubro o Amor 

Permaneci uns momentos como que petrificado, com a 
fotografia na mo. Depois, chamando a mim toda a coragem, 
para no parecer perturbado, devolvi a fotografia. Ao mesmo 
tempo, lancei um olhar rpido a Poirot. Teria notado alguma 
coisa? Mas, para meu alvio, ele no parecia estar a observar-me. 
Certamente passara-lhe despercebido o que houvera de invulgar 
na minha atitude. 
Levantou-se, apressado. 


No temos tempo a perder, precisamos de partir sem 
demora. No haver novidade, o mar estar calmo! 
Na azfama da partida no tive tempo para pensar, mas 
no barco, liberto da observao de Poirot (como sempre, praticava 


o mui excelente mtodo de Laverguier), tentei serenar 
e encarar os factos desapaixonadamente. Que sabia Poirot? 
Saberia que a minha conhecida do comboio e Bella Duveen 
eram uma e a mesma pessoa? Porque fora ele ao Hotel du 
Phare? Tendo os meus interesses em considerao, como eu 
julgara? Ou fora eu apenas que pensara isso, fatuamente, e a 
#
sua visita tivera um objectivo mais profundo e sinistro? 
De qualquer modo, porque estava empenhado em encontrar 
a rapariga? Suspeitaria que ela vira Jack Renauld cometer o 
crime? Ou suspeitaria .. mas isso era impossvel! A rapariga 
no tinha qualquer ressentimento contra o Renauld mais velho, 
nenhum motivo plausvel para lhe desejar a morte! Que a fizera 
voltar ao cenrio do crime? Recapitulei os factos cuidadosamente. 

Devia ter ficado em Calais, onde me despedira dela naquele 

dia. No admirava que a no tivesse conseguido encontrar 
no barco! Se jantara em Calais e depois se metera no comboio 
para Merlinville, poderia ter chegado  Villa Genevive mais ou 
menos  hora que Franoise indicara. Que fizera quando sara , 
da moradia, pouco depois das dez horas da noite? Presumivelmente 

fora para um hotel ou regressara a Calais. E depois? 
O crime tinha sido cometido na noite de tera-feira Na manh 
de quinta-feira ela estava de novo em Merlinville. Teria deixado, 
sequer, a Frana? Duvidava muito. Que a conservara l? A esperana 

de ver Jack Renauld? Eu dissera-lhe (pois nessa altura 
estvamos convencidos disso) que ele estava no alto mar, a 
caminho de Buenos Aires. Provavelmente ela sabia que o 
Anzora no partira. Mas para o saber precisava de ter visto 
Jack. Era nisso que Poirot se baseava? Ao regressar para ver 
Marthe Daubreuil ter-se-ia Jack Renauld visto, pelo contrrio, 
cara a cara com Belle Duveen, a rapariga que abandonara to 
cruelmente? 

Comecei a ver claro. Se as coisas se tinham passado de 
facto assim, talvez fornecessem a Jack o libi de que precisava. 
No entanto, em tais circunstncias o seu silncio parecia difcil 
de explicar. Porque no falara claro e ousadamente? Recearia 
que o seu primeiro romance chegasse aos ouvidos de Marthe 

#
Daubreul? Abanei a cabea, pois no me podia convencer disso. 
A coisa fora inofensiva, um tolo romance entre um rapaz e 
uma rapariga, e alm disso, pensei cinicamente, era pouco 
provvel que o filho de um milionrio fosse corrido por uma 
jovem francesa sem vintm, que ainda por cima o amava devotadamente, 

sem um motivo mais grave. 
Toda aquela histria me parecia intrigante e desagradvel. 
Desagradava-me intensamente estar ligado a Poirot na procura 
da rapariga, mas no via maneira nenhuma de o evitar sem lhe 
revelar tudo, e isso, no sabia porqu, repugnava-me. 
Poirot reapareceu em Dover, desembaraado e sorridente, e 
a nossa viagem para Londres decorreu sem incidentes. Passava 
das nove da noite quando chegmos e eu pensei que fssemos 
direitos para casa e no fizssemos nada at de manh. Mas 
Poirot tinha outros planos: 

No podemos perder tempo, mon ami. 

No compreendi muito bem o seu raciocnio, mas limitei-me 
a perguntar-lhe como tencionava descobrir a rapariga. 
Lembra-se de Joseph Aarons, o agente teatral? No? 

Ajudei-o num problemazinho com um lutador japons. Um dia 
conto-lhe, pois foi interessante. Ele saber, sem dvida, encaminhar-nos 
no sentido de descobrirmos o que nos interessa. 

Levmos algum tempo a procurar Mr. Aarons e s o conseguimos 
depois da meia-noite. Cumprimentou Poirot calorosamente 
e afirmou-se disposto a ajudar-nos em tudo quanto 

estivesse ao seu alcance. 
Pouco h que eu no saiba acerca da profisso declarou, 
sorridente e bem disposto. 
Eh bien, M. Aarons, desejo encontrar uma jovem chamada 
Bella Duveen. 

#
Bella Duveen... Conheo o nome, mas assim de repente 
no consigo localiz-lo. Qual  a especialidade dela? 

Ignoro... mas tenho aqui a sua fotografia. 

M. Aarons estudou a fotografia durante uns momentos e, de 
sbito, o seu rosto iluminou-se: 
J sei! exclamou, e deu uma palmada na coxa. 
As Manas Dulcibella, com a breca! 

As Manas Dulcibella? 

Sim. So duas irms acrobatas, bailarinas e canonetistas. 
Tm um bom numerozinho. Creio que se encontram algures 
na provncia, se  que no esto a descansar. Estiveram em 
Paris nas ltimas duas ou trs semanas. 

Pode averiguar exactamente onde se encontram? 

Nada mais fcil! V para casa e enviar-lhe-ei a informao 

de manh. 

Despedimo-nos, com essa promessa, e ele cumpriu-a  letra. 
Cerca das onze da manh do dia seguinte recebemos um bilhete 
garatujado  mo: As Manas Dulcibella esto no Palace, em 
Coventry. Felicidades. 
Seguimos sem perda de tempo para o Palace. Poirot no fez 
perguntas no teatro; contentou-se com reservar lugares para o 
espectculo de variedades daquela noite. 
O espectculo foi indizivelmente enfadonho ou talvez eu 

o achasse assim devido  disposio em que me encontrava. 
Famlias japonesas equilibraram-se precariamente; homens supostamente 
modernos, de fato de cerimnia esverdeado e o 
cabelo exoticamente comprido e reluzente, disseram umas patacoadas 
e danaram s mil maravilhas, robustas primas-donas 
atingiram o mximo do registro humano e um artista cmico 
tentou imitar Mr. George Robey e falhou redondamente. 
Por fim chegou a vez das Manas Dulcibella e o meu corao 

#
comeou a bater dolorosamente. L estava ela... l estavam 
elas, as duas, uma de cabelo cor de estopa e a outra morena, 
iguais no tamanho, com saias curtas tufadas e imensos laos 
Buster Brown. Pareciam duas garotas maliciosssimas. Come12 
-VAMP. G. 2 


aram a cantar. Tinham voz fresca e sem artifcios, um pouco 
finas e tipo music-hall, mas agradvel. 
Era de facto um numerozinho interessante. Danaram bem 
e fizeram algumas pequenas e inteligentes proezas acrobticas. 
As letras das suas canes eram engraadas e ficavam no 
ouvido. Quando o pano desceu, no faltaram aplausos. No 
havia dvida de que as Manas Dulcibella eram um xito. 
De sbito, achei que no podia continuar ali mais tempo. 
Tinha de apanhar ar. Sugeri a Poirot que partssemos. 


V se quiser, mon ami. Estou a divertir-me e ficarei at 
ao fim. Depois irei ter consigo. 
A distncia do teatro ao hotel era pequena. Subi para a 
sala dos nossos aposentos, pedi um usque com soda e sentei-me 
a beb-lo e a olhar pensativamente para a grade da lareira 
apagada. Ouvi a porta abrir-se e virei a cabea, julgando tratar-se 


de Poirot. Levantei-me, de um pulo, pois quem se encontrava 
 porta era Cinderela. Falou sincopadamente, a ofegar: 
Vi-os na frente, a si e ao seu amigo. Quando voc saiu, 


eu estava c fora  espera e segui-o. Porque est aqui, em 
Coventry? Que esteve a fazer no teatro esta noite? O homem 
que estava consigo  o... o detective? 
Continuava parada  porta, com a capa que pusera por cima 
do fato de cena a cair-lhe dos ombros. Vi a lividez das suas 
faces, sob o rouge, e detectei o terror que vibrava na sua voz. 
Nesse momento compreendi tudo, compreendi por que motivo 


#
Poirot a procurava e o que ela receava-e compreendi finalmente 

o meu prprio corao. 
 respondi, baixinho. 
Ele anda. . anda  minha procura? indagou, quase 
num sussurro. 
Depois, como eu no respondesse logo, deixou-se cair junto 
da grande poltrona e desatou a chorar violenta e amargamente. 
Ajoelhei a seu lado, envolvi-a nos braos e afastei-lhe o 
cabelo da cara. 

No chore, pequena, pelo amor de Deus no chore! Aqui 

est em segurana, cuidarei de si. No chore, querida, no 
chore. Sei sei tudo. 
Oh, no sabe, no! 
Acho que sei.E, passados momentos, quando os soluos 
dela se acalmaram, perguntei: Foi voc que tirou o 
punhal, no foi? 

Fui. 
-Foi por isso que quis lhe mostrasse tudo? E que fingiu 
desmaiar? 
Acenou afirmativamente. Foi um pensamento estranho, num 
momento daqueles, mas pensei que me agradava que o seu 
motivo tivesse sido o que fora em vez da curiosidade mrbida 
que na altura lhe imputara. com que coragem ela desempenhara 

o seu papel naquele dia, apesar de intimamente torturada pelo 
medo e pela angstia! Pobrezinha, suportava o fardo tremendo 
da impetuosa aco de um momento! < 
Porque tirou o punhal? 
Respondeu-me com a simplicidade de uma criana: 
Receei que tivesse impresses digitais. 
Mas no se lembrava de que usara luvas? 


#
Abanou a cabea, como que intrigada, e depois perguntou, 
lentamente: 

Vai entregar-me  ..  Polcia? 
Meu Deus, no! 
Os seus olhos procuraram os meus e fitaram-se neles, longa 
e ansiosamente. 

Porque no? inquiriu por fim, numa vozinha que par 
recia receosa de si prpria. 
O lugar e o momento pareceram-me estranhos para uma 
declarao de amor, e Deus sabe que, em todas as minhas fantasias, 

nunca imaginara que o amor fosse ao meu encontro com 
tal disfarce. Mas respondi, simples e naturalmente: 

Porque a amo, Cinderela. 
Baixou a cabea, como que envergonhada, e murmurou, 
trmula: 

No pode... no pode... se sabe no pode... A seguir, 
como se chamasse a si toda a coragem, olhou-me bem de frente 
e perguntou: Mas que sabe, afinal? 

Sei que foi visitar M. Renauld naquela noite, que ele 
lhe ofereceu um cheque e voc o rasgou, indignada. Depois 
saiu de casa... 

Continue. Que aconteceu a seguir? 

No sei se sabia que Jack Renauld chegaria naquela noite 
ou se esperou apenas na esperana de o ver, mas sei que esperou 
por ali. Talvez se sentisse infeliz e tivesse caminhado a toa... 
De qualquer modo, pouco antes da meia-noite ainda se encontrava 

nas proximidades e viu um homem no campo de golfe .. 
Fiz nova pausa. A verdade estoirara-me na cabea como um 
relmpago, quando ela entrara na sala, mas agora via tudo 
ainda mais convincentemente. Vi o estranho padro do sobretudo 

#
que o cadver de M. Renauld envergava e lembrei-me 
da extraordinria parecena que me levara momentaneamente 
a crer que o morto ressuscitara, quando o filho dele irrompera 
pela sala... 


Continue repetiu a rapariga, em voz firme. 
Creio que ele estava de costas para si... mas voc reconheceu-o, 
ou julgou reconhec-lo. O andar e o porte eram-lhe 


familiares, assim como o padro do sobretudo... Disse-me no 
comboio, no regresso de Paris, que tinha sangue italiano nas 
veias e que isso uma vez quase a metera em trabalhos. Usou 
uma ameaa, numa das cartas que escreveu a Jack Renauld... 
Quando julgou v-lo ali, a clera e o cime cegaram-na e... 
vibrou o golpe! No acredito nem por um instante que tencionasse 


mat-lo. Mas matou-o, Cinderela. 
A rapariga, que cobrira o rosto com as mos, exclamou, em 
voz abafada: 


Tem razo, tem razo, estou a ver tudo, como voc diz! 
Depois olhou-mequase brutalmente e perguntou: 
E ama-me? Como pode amar-me sabendo o que fiz? 
No sei respondi, um pouco confuso. Creio que o 

amor  assim... uma coisa que no podemos evitar. Tentei 
evit-lo... tentei evit-lo desde o dia em que a conheci. Mas o 
amor foi mais forte do que eu. 
Quando menos o esperava, desatou de novo a chorar, atirou-se 

ao cho a soluar desesperadamente. 

Oh, no posso! No sei que fazer, no sei para que lado 
me virar! Tenham pena de mim, haja algum que tenha pena 
de mim e me diga o que devo fazer! 
Ajoelhei de novo a seu lado e tentei acalm-la o melhor que 
soube. 

#
No tenha medo de mim, Bella. Pelo amor de Deus, no 
tenha medo de mim. Amo-a,  verdade... mas no quero nada 
em troca. Consinta apenas que a ajude. Continue a am-lo, se 
tem de ser assim, mas deixe-me ajud-la, porque ele no a 
pode ajudar. 
Foi como se as minhas palavras a tivessem transformado em 
pedra. Ergueu a cabea e fitou-me. 

Pensa isso? segredou. Pensa que eu amo Jack 
Renauld? 
Depois, meio a rir, meio a chorar, lanou-me os braos ao 
pescoo e comprimiu o rosto terno e molhado de lgrimas 
contra o meu. 

No como o amo a si! murmurou. Nunca como o 
amo a si! 
Os seus lbios roaram-me pela cara e depois, procurando a 
minha boca, beijaram-me repetidamente, com uma doura e 
um ardor incrveis. Nunca esquecerei o fogo, a maravilha 
daqueles beijos, nunca, enquanto viver! 
Um som,  porta, fez-nos levantar a cabea. Poirot estava 
parado no limiar, a olhar-nos. 
No hesitei. Alcancei-o com um salto e imobilizeirlhe os 
braos ao longo do corpo. 
-Depressa! gritei  rapariga. V-se embora, saia sem 
demora! Eu det-lo-ei. 

Ela lanou-me um ltimo olhar e saiu, passando rente a ns. 
Continuei a imobilizar Poirot num abrao de ferro. 
Mon ami, sabe fazer este gnero de coisas muito bem 
disse ele por fim, em tom brando. O homem forte imobiliza-me, 
prende-me como num torno, e eu sinto-me fraco como 
uma criana. Mas tudo isto  desconfortvel e ligeiramente 

#
ridculo. Sentemo-nos e acalmemo-nos. 
No a perseguir? 
Mon Dieu, no! Toma-me pelo Giraud? Liberte-me, meu 

amigo. 
Sem desviar dele o olhar desconfiado, pois fazia-lhe a justia 
de saber que no estava  sua altura em astcia, larguei-o e ele 
deixou-se cair numa poltrona e apalpou cautelosamente os 
braos. 

Tem a fora de um touro quando est excitado, Hastings! 
Eh bien, acha que se comportou decentemente com o seu velho 
amigo? Mostrei-lhe a fotografia da rapariga e voc reconheceu-a, 
mas no disse uma palavra! 

No era preciso, uma vez que voc sabia que eu a reconhecera 

respondi, irritado. 
com que ento, Poirot soubera desde o princpio! No o 
enganara nem por um instante. 
Ora, ora! Mas voc no sabia que eu sabia. E esta noite 
ajudou a rapariga a fugir, depois de termos tido tanto trabalho 
para a encontrar! Eh, bien, vai trabalhar comigo ou contra 
mim, Hastings? 
No respondi logo. Romper com o meu velho amigo causava-me 

grande dor. No entanto, no tinha outro remdio seno 

colocar-me definitivamente contra ele. Perdoar-me-ia jamais? 
At ali mostrara-se muito calmo, mas eu sabia que possua um 
autodomnio maravilhoso. 

Poirot, sinto muito. Admito que me comportei mal consigo, 

neste assunto. Mas s vezes no temos por onde escolher. 
E de futuro terei de seguir o meu prprio caminho. 
Poirot acenou vrias vezes com a cabea. 

Compreendo. O brilho irnico apagara-se-lhe do olhar 

#
e falava com uma sinceridade e uma bondade que me surpreendiam. 

 o amor que chega, no , meu amigo?  o amor 
que chega no como o imaginava, todo pimpo e coberto de 
linda plumagem, mas tristemente, com os ps a sangrar. Bem, 
eu avisei-o .Quando compreendi que a rapariga devia ter 
tirado o punhal, avisei-o. Talvez se lembre. Mas j era tarde 
de mais. Diga-me uma coisa, que sabe voc? 
Olhei-o bem de frente e respondi: 

Nada do que pudesse dizer-me constituiria surpresa para 
mim, Poirot. Compreenda bem isso. Mas, no caso de tencionar 
recomear a procurar Miss Duveen, gostaria que se compenetrasse 

claramente de uma coisa: se pensa que est relacionada 
com o crime ou que foi ela a dama misteriosa que visitou 

M. Renauld naquela noite, est enganado. Vim com ela de 
Frana, nesse dia, e separei-me dela na estao de Vitria, 
nessa noite. Portanto, ser-lhe-ia absolutamente impossvel estar 
em Merlinville. 
Ah! exclamou o meu amigo, a olhar-me pemsativamente. 
Juraria isso em tribunal? 
Sem dvida que juraria. 
Poirot levantou-se e fez uma vnia. 

Mon ami, vive lamour  um sentimento rapaz d operar 
milagres. O que acaba de pensar  francamente engenhoso. 
Vence at o prprio Hercule Poirot! 
CAPTULO XXIII 

Dificuldades  Vista 

Depois de um momento de tenso como o que acabo de 
descrever, a reaco  inevitvel. Nessa noite deitei-me com 
um sentimento de triunfo, mas quando acordei compreendi 
que o perigo no estava de modo algum afastado.  verdade 

#
que no encontrava nenhuma falha no libi que to sbita-

mente engendrara. Bastar-me-ia agarrar-me  minha histria 
e no via como seria possvel condenar Bella. Ningum poderia 
desenterrar a existncia de uma velha amizade entre ns, 
amizade susceptvel de levar  suspeita de perjrio da minha 
parte. Podia-se provar que, realmente, s vira a rapariga trs 
vezes. No, continuava satisfeito com a minha ideia. No 
admitira o prprio Poirot que ela o vencia? 
No entanto, no que a ele respeitava, sentia a necessidade 
de caminhar com muito cuidado. Era muito fcil ao meu 
amigo confessar-se momentaneamente embaraado, vencido at, 
mas eu respeitava demasiado as suas aptides para acreditar 
que ele se contentasse com deixar as coisas nesse p. Tinha 
uma opinio muito humilde da minha inteligncia, quando se 
tratava de a comparar com a dele. Poirot no aceitaria a derrota 
de braos cruzados. Tentaria fosse como fosse virar o feitio 
| contra o feiticeiro, e isso do modo e no momento em que eu 
| menos o esperasse. 
Encontrmo-nos ao pequeno-almoo como se nada tivesse 
acontecido. O bom humor de Poirot parecia imperturbvel, mas 
eu julguei detectar na sua atitude uma ligeira reserva, inteiramente 

nova. Depois de comermos anunciei a minha inteno 
de ir dar uma volta. Os olhos dele brilharam maliciosamente. 

Se  informao que pretende, escusa de se incomodar. 
Posso dizer-lhe tudo quanto deseja saber. As Manas Dulcibella 
cancelaram o contrato e partiram de Coventry para destino 
desconhecido. 

Isso  verdade, Poirot? 
Pode acreditar em mim, Hastings. Procurei informar-me 
logo de manhzinha. No fim de contas, que outra coisa esperava 
voc? 

#
Realmente, nenhuma outra coisa seria de esperar, nas circunstncias. 


Cinderela aproveitara-se do ligeiro avano que eu 
conseguira proporcionar-lhe e certamente no perderia nem um 
momento, afastar-seia do alcance do perseguidor o mais de


pressa possvel. Fora isso mesmo que eu pretendera e planeara. 
No entanto, sentia-me mergulhado num turbilho de novas 
dificuldades. 
No tinha absolutamente maneira nenhuma de comunicar 
com a rapariga e era de importncia vital que ela soubesse a 
linha de defesa que escolhera e a que estava disposto a cingir-me. 


Era possvel, talvez, que ela arranjasse qualquer maneira 
de comunicar comigo... mas no, no achava isso provvel. 
Sabia que existia o risco de qualquer mensagem sua ser interceptada 


por Poirot, o que o lanaria de novo na sua pista, 
A sua nica sada era desaparecer por completo da circulao, 
nos tempos mais prximos. 
Mas, entretanto, que faria Poirot? Observei-o atentamente. 
Arvorava o seu ar mais inocente e olhava, pensativo, para 
longe. A sua calma e a sua indolncia pareceram-me excessivas, 
nada tranquilizadoras. Aprendera com ele prprio que quanto 
menos perigoso parecia, tanto mais perigoso era. A sua quietude 


alarmava-me. Notando, sem dvida, a perturbao do 
meu olhar, sorriu, benigno, e inquiriu: 
Est intrigado, no est Hastings? Pergunta a si mesmo 
porque no me lano na perseguio . 


Bem .. mais ou menos. 
Era o que voc faria, se estivesse no meu lugar. compreendo 
isso muito bem. Mas eu no sou dos que gostam de 


correr de um lado para o outro, por um pas fora,  procura 
de uma agulha num palheiro, como vocs, ingleses, dizem. 


#
No.. Mademoiselle Bella Duveen que siga o seu caminho. 
Estou certo de que conseguirei encontr-la quando chegar a 
altura. Entretanto, contento-me com esperar. 
Olhei-o, desconfiado. Estaria a tentar enganar-me? Tinha a 
irritante sensao de que ele continuava a dominar a situao. 
O meu sentimento de superioridade, de triunfo, extinguia-se 
gradualmente. Permitira que a rapariga; fugisse e engendrara 
um plano brilhante para a salvar das consequncias do seu 

impetuoso acto, mas no tinha paz de esprito. A calma absoluta 
de Poirot despertava em mim mil apreenses. 
Suponho, Poirot, que no lhe devo perguntar quais so 

os seus planos? Perdi esse direito. 
De modo algum! No h segredo nenhum em relao aos 
meus planos. Regressamos a Frana sem demora. 

Regressamos? 

Precisamente: regressamos! Sabe muito bem que no se 
pode dar ao luxo de perder o pap Poirot de vista. No  
verdade, meu amigo? No entanto, se preferir, fique em Inglaterra... 
Abanei a cabea. Ele acertara em cheio no alvo: no me 
podia dar ao luxo de o perder de vista. Embora no pudesse 
esperar confidncias, depois do que acontecera, poderia pelo 
menos vigiar as suas aces. O nico perigo para Bella residia 
nele. Giraud e a Polcia francesa eram indiferentes  existncia 
da rapariga. Custasse o que custasse, portanto, tinha de permanecer 

perto dele. 
Poirot observou-me com ateno, enquanto tais ideias me 
passavam pelo esprito, e acenou com a cabea, satisfeito. 

Tenho razo, no tenho? E como voc seria muito capaz 
de me seguir, com algum disfarce absurdo como uma barba 
postia que no enganaria ningum, bien entendu , prefiro 

#
que viajemos juntos. Aborrecer-me-ia muito se algum se risse 

de si. 
Muito bem, pois. No entanto,  justo que o advirta... 
Eu sei, eu sei tudo.  meu inimigo! Pois seja meu inimigo. 

Isso no me preocupa nada. 
Desde que se passe tudo com lealdade, no me importo. 
Tem, em dose industrial, a paixo inglesa do ((fair play! 

Agora que acalmou os seus escrpulos, partamos imediatamente. 

No h tempo a perder. A nossa estada em Inglaterra 
foi breve, mas suficiente. Sei... o que queria saber. 
O tom era despreocupado, mas eu pressenti uma ameaa 
velada nas palavras. 

Mesmo assim...comecei, mas no acabei. 

Mesmo assim... sem dvida est satisfeito com o seu 
papel. Quanto a mim, preocupo-me com Jack Renauld. 
, Jack Renauld! Aquele nome causou-me um estremecimento. 
Esquecera por completo aquele aspecto da questo. Jack Re


nauld, preso, com a sombra da guilhotina a pairar sobre a 
cabea! Vi o papel que representava a uma luz mais sinistra. 
Podia salvar Bella... sim, mas salvando-o corria o risco de 

mandar um inocente para a morte. 
Afastei semelhante pensamento, horrorizado. No podia 
ser. Ele seria absolvido. Mas o medo gelado voltou. E se no 
fosse? Sim, se no fosse? Poderia ficar com esse peso na conscincia? 

Horrvel pensamento! Chegar-se-ia a isso? Uma deciso. 
Bella ou Jack Renauld? Todo o meu corao me ordenava que 
salvasse a minha amada, custasse-me isso o que custasse. Mas 
se o preo tivesse de ser pago por outro, o problema modificava-se. 
Que diria a prpria rapariga? Lembrei-me de que dos meus 
lbios no sara uma nica palavra acerca da priso de Jack 

#
Renauld. Ela ignorava ainda, portanto, que o seu ex-namorado 
estava preso, acusado de um crime hediondo que no cometera. 
Quando soubesse, como agiria? Permitiria que a sua vida fosse. _ 
salva a expensas da dele? Era importante que ela no fizesse 
nada precipitado. Jack Renauld poderia ser e talvez fosse 

absolvido sem qualquer interveno da parte dela. Se assim 
acontecesse, ptimo. Mas se no fosse absolvido... Esse era o 
terrvel, o insolvel problema. Imaginei que ela no corria o 
risco de ser condenada  pena mxima. As circunstncias do 
crime eram muito diferentes, no seu caso. Poderia alegar cime 
e as razes do abandono, e a juventude e a beleza tambm a 
ajudariam muito. O facto de, devido a um erro trgico, ter sido 

M. Renauld e no o filho a sofrer o castigo, no modificaria o 
mbil do crime de Bella. Mas de qualquer forma, e por muito 
indulgente que fosse a sentena, uma longa pena de priso 
ningum lhe tiraria. 
No, Bella tinha de ser protegida. E, ao mesmo tempo. Jack 
Renauld tinha de ser salvo. No sabia muito bem como conseguia-

isso, mas concentrava toda a minha f em Poirot. Ele 
sabia. Acontecesse o que acontecesse, o meu aunigo arranjaria 
maneira de salvar um inocente. Mas teria de arranjar outro 
pretexto qualquer que no fosse o verdadeiro. Talvez fosse 
difcil, mas ele haveria de o conseguir. E com ela isenta de 
suspeitas e Jack Renauld absolvido, acabaria tudo bem. 
Repeti isso a mim mesmo, muitas vezes, mas o medo gelado 
permaneceu no fundo do meu corao. 
CAPTULO XXIV 
Salve-o! 

Partimos de Inglaterra no barco da noite e na manh seguinte 
estvamos em Saint-Omer, para onde Jack Renauld fora 

#
levado. Poirot visitou sem perda de tempo M. Hautet. Como no 
levantou quaisquer objeces a que o acompanhasse, fui 
com ele. 
Depois de cumpridas vrias formalidades e vrios preliminares, 


conduziram-nos ao gabinete do juiz de instruo, que 
nos saudou cordialmente. 
Tinham-me dito que regressara a Inglaterra, M. Poirot, 
mas apraz-me verificar que tal no sucedeu. 

 verdade que fui a Inglaterra, Sr. Juiz, mas tratou-se 
apenas de uma< visita rpida. Um aspecto secundrio, mas que 
me pareceu valer a pena investigar. 
E valeu, hem? 
Poirot encolheu os ombros e M. Hautet acenou com a 
cabea, a suspirar. 

Creio que temos de nos resignar. Aquele animal do 
Giraud tem umas maneiras abominveis, mas  indubitvel


mente esperto! So poucas as possibilidades de tal inddivduo 
cometer um erro. 

Acha, Sr. Juiz? Foi 
a vez de o magistrado encolher os ombros. 
Eh bien, falando francamente confidencialmente, cest 
entendu , pode chegar a qualquer outra concluso? 
>com toda a franqueza, Sr. Juiz, parecem-me excessivos 
os pontos obscuros. 

Como, por exemplo? 
Mas Poirot no mordeu a isca, ! 
Ainda no os classifiquei. Fiz apenas uma observao 
geral... Gosto do rapaz e lamentaria se tivesse de o acreditar 
culpado de to hediondo crime. A propsito, que tem ele prprio 

a dizer a tall respeito? 

#
O magistrado franziu a testa. 

Confesso que no o consigo compreender. Parece incapaz 
de apresentar qualquer espcie de defesa. Tem sido muito difcil 
lev-lo a responder a perguntas. Contenta-se com uma negao 
geral e, tirando isso, refugia-se no mais obstinado dos silncios. 
Amanh volto a interrog-lo. Desejam assistir?  
Aceitmos o convite com empressement. 

Um caso muito deprimente declarou o magistrado, 
soltando um dos seus suspiros. Lamento profundamente Madame 
Renauld. 

Como est ela? 

Ainda inconsciente. De certo modo  uma sorte, pobre 
mulher. Escusa de sofrer tanto. Os mdicos dizem que no 
corre perigo, mas que quando recuperar a conscincia precisar 
do maior sossego possvel. Segundo me disseram, o seu estado 
presente deve-se tanto ao abalo sofrido como  queda. Seria 
horrvel se o seu crebro ficasse transtornado... mas eu no 
me admiraria nada se isso sucedesse, no, no me admiraria 
nada. 

M. Hautet recostou-se na cadeira e abanou a cabea, com 
uma espcie de gozo melanclico resultante da sinistra perspectiva. 
Por fim pareceu despertar da sua letargia, estremeceu e 
disse: 


Isso recorda-me uma coisa: tenho uma carta para si, 


M. Poirot. Ora deixe ver, onde a meti? 
Remexeu entre a papelada e acabou por encontrar a missiva, 
que estendeu a Poirot. 
Foi-me endereada dentro de um sobrescrito, com o 
pedido de que lha fizesse chegar s mos explicou. Mas, 
como o senhor no deixara nenhum endereo, no o pude fazer. 


#
Poirot observou a carta curiosamente. Estava endereada 
numa caligrafia esguia e inclinada, sem dvida de mulher. Em 
vez de a abrir, o meu amigo levantou-se e meteu-a na algibeira. 

Ento at amanh, M. Hautet. Muito obrigado pela sua 
cortesia e amabilidade. 

No tem de qu, estairei sempre ao seu dispor. Os jovens 
detectives da escola do Giraud so todos iguais, indivduos 
grosseiros e desdenhosos. No compreendem que um juiz de 
instruo com a minha... enfim, com a minha experinciav no 
pode deixar de ter um certo discernimento, um certo... faro. 
Palavra, a cortesia da antiga escola est infinitamente mais de 
acordo com o meu gosto. Portanto, meu caro amigo, disponha 
de mim em tudo quanto desejar. Sabemos umas coisinhas, o 
senhor e eu, hem? 
E, a rir com todo o gosto, encantado consigo prprio e 
connosco, despediu-se. Lamento ter de dizer que a primeira 
observao que Poirot me fez, quando atravessmos o corredor, 

foi: 

Grandssimo velho idiota aquele! De uma estupidez de 
fazer d! 
Ao sarmos do edifcio encontrmonnos cara a cara com 
Giraud, mais janota do que nunca e contentssimo consigo 
prprio. 

Ah, M. Poirot! exclamou, irnico. Regressou ento 
de Inglaterra? 

Como v. 

Creio que o fim desta histria no est muito longe, 
agora. 

Concordo consigo, M. Giraud. 
Poirot falava baixo e num tom de desnimo que parecia 

#
deliciar o outro. 


Um criminoso de meia-tigela, um gua chilra! Nem 
sequer  capaz de inventar uma maneira de se defender. 
 extraordinrio! 


To extraordinrio que d que pensar, no d? insinuou 


Poirot, blandicioso. 
Mas Giraud j nem sequer o ouvia. Agitou amigavelmente 
a bengala e despediu-se: 


Bem, M. Poirot, bons dias. Agrada-me que esteja finalmente 
convencido da culpabilidade do jovem Renauld. 
Pardon, mas eu no estou absolutamente nada convencido! 
Jack Renauld est inocente. 


Giraud fitou-o, um momento, e depois desatou  gargalhada. 
Bateu significativamente na cabea e limitou-se a comentar: ( 


Toque! 

Poirot empertigou-se, com uma luz perigosa a brilhar-lhe 
nos olhos. 

M. Giraud, desde o princpio que a sua atitude para 
comigo tem sido deliberadamente insultuosa! Precisa de uma 
lio! Estou disposto a apostar 500 francos em como descubro 
o assassino de M. Renauld antes do senhor. Combinado? 
Giraud fitou-o de novo, como se no o entendesse, e repetiu: 
Toque! 

Vamos, est ou no combinado? 
No tenho desejo nenhum de ficar com o seu dinheiro. 
Decida-se: sim ou no? 
Muito bem, est combinado. Disse que a minha atitude 


#
para consigo foi insultuosa, Eh bien, uma ou duas vezes a sua 
atitude incomodou-me. 

Encanta-me que assim tenha sido. Bons dias, M. Giraud. 
Venha, Hastings. 
Acompanhei-o em silncio, de corao pesado. Poirot revelara 

claramente as suas intenes. Cada vez duvidava mais da 
minha possibilidade de salvar Bella das consequncias do seu 
acto. Aquele infeliz encontro com Giraud espicaara Poirot e 
enchera-o de brios. 
De sbito, senti agarrarem-me num ombro, virei-me e deparou-se-me 

Gabriel Stonor. Parmos para o cumprimentar e ele 

props-se acompanhar-nos ao hotel. 
Que faz aqui, M. Stonor? perguntou-lhe Poirot. 
Devemos amparar os nossos amigos, sobretudo quando 

so injustamente acusados respondeu o outro, com secura. 
Ento no acredita que Jack Renauld tenha cometido o 
crime? perguntei-lhe, ansiosamente. 

Claro que no acredito. Conheo o moo. Admito que 
uma ou duas coisas de toda esta embrulhada me deixaram 
completamente aparvalhado, mas mesmo assim, e apesar da 
maneira idiota como ele se est a portar, nunca acreditarei 
que Jack Renauld seja um assassino. 
O meu corao encheu-se de estima pelo secretrio. As suas 
palavras pareciam ter-me tirado um peso secreto do corao. 

Estou convencido de que muita gente pensa como o 
senhor! afirmei. Na realidade, so absurdamente poucas 
as provas contra ele. Estou convencido de que ser absolvido... 
sim, sem dvida nenhuma ser absolvido. 
Mas Stonor esteve longe de reagir como eu esperava: 

Daria muito para pensar como voc disse, gravemente, 
e perguntou a Poirot: Qual  a sua opinio, monsieur? 

#
Creio que as coisas esto muito negras para ele. 
Considera-o culpado? inquiriu Stonor, vivamente. 
No. Mas penso que ter dificuldade em provar a sua 

inocncia. 

Est a comportar-se de um raio de uma maneira to 
estranha! exclamou Stonor, irritado. Compreendo, claro, 
que neste caso h muito mais do que parece evidente. O Giraud 
no se apercebe disso porque  um estranho,  de fora, mas eu 
acho tudo quanto se passou estranhssimo. Mas quanto a isso, 
creio que quanto menos se disser, melhor. Se Mrs. Renauld 
deseja ocultar alguma coisa, pego-lhe na deixa e obedeo  
sua batuta. O espectculo  dela, como se costuma dizer, e eu 
respeito tanto o seu critrio que no me atrevo a intrometer-me. 

No entanto, no consigo perceber esta atitude do Jack. 
At d a impresso de que quer que o considerem culpado. 

Mas isso  absurdo! exclamei. Para comear, o 
punhal... Calei-me, porm, pois no sabia at onde Poirot 
desejava que fosse, quele respeito; prossegui, por isso, escolhendo 

cuidadosamente as palavras: Sabemos que o punhal 
no podia estar na posse de Jack Renauld na noite do crime. 
Mrs. Renauld tambm o sabe. 

 verdade. Quando recuperar a conscincia certamente 
dir isso e muito mais. Bem, agora tenho de os deixar... 

Um momento pediu Poirot, levantando a mo. Pode 
arranjar maneira de me informarem assim que Madame Renauld 
recuperar a conscincia? 

com certeza, ser fcil. 

Aquele pormenor acerca do punhal  bom, Poirot 
comentei, enquanto subamos a escada. No pude falar muito 
claramente na presena do Stonor... 

#
E fez muito bem. Ser conveniente guardarmos o que 
sabemos para ns o mais tempo possvel. Quanto ao punhal, 
isso dificilmente ajudar Jack Renauld. Lembra-se de que me 
ausentei uma hora esta manh, antes de partirmos para Londres? 


Lembro. 
Bem, andei  procura da firma que Jack Renauld encarregou 
de fazer as suas recordaes. No foi difcil encontr-la. 


Eh bien, Hastings, eles fizeram-lhe no dois corta-papis, mais 
sim trs. 
13 -VAMP. G. 2 


Ento... 


Ento, depois de dar um  me e outro a Bella Duveen, 
Ficou-lhe um terceiro que certamente reservou para seu uso. 
No, meu amigo, receio que a questo do punhal no nos ajude 
a salv-lo da guilhotina. 


No chegar a isso! protestei, picado. 
Poirot abanou a cabea, duvidosamente. 
Voc salv-lo-! afirmei, em tom positivo. 

Mas ele fitou-me friamente e redarguiu: 
No tornou isso impossvel, mon ami? 
De qualquer outra maneira... 
Ah, sapristi!  um milagre que me pede! No, no diga 


mais nada! Vejamos antes o que diz esta carta. 
Tirou o sobrescrito da algibeira do peito. 
O seu rosto crispou-se, enquanto lia, e depois estendeu-me 
a folha de papel fino. 


H outras mulheres no mundo que sofrem, Hastings. 
A caligrafia era pouco ntida e era evidente que o bilhete 
fora escrito num estado de grande agitao. Dizia: 


Caro M. Poirot: 

#
Se receber este bilhete, rogo-lhe que venha em meu socorro. 
No tenho ningum a quem recorrer e o Jack tem de ser salvo 
custe o que custar. Imploro-lhe de joelhos que nos ajude. 
Marthe Daubreuil 

Devolvi o papel, impressionado. 
Vai ter com ela? 
Imediatamente. Alugaremos um automvel. 


Meia hora depois estvamos na Villa Marguerite. Marthe, 
que se encontrava  porta, agarrou a mo de Poirot com 
ambas as suas e levou-o para dentro. 


Ah, veio! Foi muita bondade sua. Tenho estado desespe


rada, sem saber que fazer. Nem sequer me deixam ir v-lo  
priso. Sofro horrivelmente, estou quase louca.  verdade o 
que dizem, que no nega o crime? Mas isso  uma loucura! 
 impossvel que o tenha cometido, jamais acreditarei em semelhante 


coisa! 
Nem eu, mademoiselle afirmou Poirot, bondosamente. 
Mas ento porque no fala ele? No compreendo! 
Talvez esteja a proteger algum sugeriu o meu amigo, 


sem desviar os olhos dela. 
Marthe franziu a testa. 
A proteger algum? Refere-se  me dele? Ah, suspeitei 
dela desde o princpio! Quem herda toda aquela imensa fortuna? 
Ela.  fcil vestir-se de viva e armar em hipcrita. Dizem 
que quando ele foi preso ela caiu, assim fez um gesto dramtico. 

Sem dvida o secretrio, M. Stonor, ajudou-a. So 
unha com carne, os dois.  verdade que ela  mais velha do 
que ele, mas que importa isso aos homens, se a mulher  rica? 
Falara com um certo azedume. 

Stonor estava em Inglaterra lembrei. 

#
Ele diz isso, mas algum o sabe? 
Mademoiselle interveio Poirot, calmamente se vamos 
trabalhar juntos, os dois, temos de pr todos os pontos 

nos ii. Para comear, fao-lhe uma pergunta. 
Faa, monsieur. 
Est ao corrente do verdadeiro nome da sua me? 

Marthe fitou-o e depois ocultou a cara nos braos e desatou 

a chorar. 
Pronto, pronto murmurou Poirot, dando-lhe palmadinhas 
no ombro. Acalme-se, ma petite, vejo que est ao 

corrente. Segunda pergunta: Sabe quem era M. Renauld? 

M. Renauld? levantou a cabea e fitou-o, surpreendida. 
Vejo que no sabe. Ento escute-me com ateno. 
Passo a passo, recapitulou o caso, de modo muito semelhante 
ao que empregara comigo, no dia da nossa partida para 

Inglaterra. Marthe escutou-o, fascinada, e quando ele acabou 

respirou profundamente. 
Oh, o senhor  maravilhoso, magnfico!  o maior detective 
do mundo! 

com um movimento rpido, levantou-se da cadeira e ajoelhou-se 
diante dele, com um abandono inteiramente francs. 
Salve-o, monsieur! suplicou. Amo-o tanto! Oh, salve-o, 
salve-o! 

CAPTULO XXV 

Desenlace Inesperado  

Na manh seguinte assistimos ao interrogatrio de Jack 
Renauld. Apesar do pouco tempo que passara, surpreendeu-me 
tristemente a modificao que se operara no jovem detido. 
Tinha as faces emagrecidas e olheiras profundas e negras e 
parecia perturbado e desfigurado, como se no conseguisse 

#
dormir h vrias noites. No traiu qualquer emoo ao ver-nos 
O preso e o seu advogado, Dr. Grosier, foram instalados em 
cadeiras. Um colosso de sabre resplandecente estava de guarda 
 porta. O paciente escrivo sentou-se  secretria e o interrogatrio 

comeou: 

Renauld, nega que esteve em Merlinville na noite do 
crime? perguntou o magistrado. 
Jack no respondeu logo. Depois disse, com uma hesitao 
que causava d: 

Eu... eu j disse que estive em Cherbourg. 
O advogado franziu a testa e suspirou. Compreendi logo 
que Jack Renauld estava obstinadamente decidido a conduzir 

o caso como lhe apetecia, para desespero do seu representante 
legal. 
Mandem entrar as testemunhas da estao! ordenou 

o juiz, irritado. 
Passados momentos a porta abriu-se e entrou um homem 

no qual reconheci o bagageiro da estao de Merlinville. 
Esteve de servio na noite de 7 de Junho? 
Estive, sim, monsieur. 
Assistiu  chegada do comboio das onze e quarenta? 
Assisti, sim, monsieur. 
Olhe para o detido. Reconhece nele um dos passageiros 

que se apearam desse comboio? 
Sim, Sr. Juiz. 
No h nenhuma possibilidade de estar enganado? 
No, monsieur. Conheo bem M. Jack Renauld. 
No se ter enganado quanto  data? 
No, monsieur. Foi logo na manh seguinte, oito de 

Junho, que tivemos conhecimento do assassnio. 

#
Foi chamado outro funcionrio dos caminhos de ferro, que 
confirmou o depoimento do primeiro. O magistrado olhou 
para Jack Renauld e disse-lhe: 

Estes homens identificaram-no positivamente. Que tem 
a dizer? 
Nada. 

M. Hautet trocou um olhar com o escrivo, enquanto o 
aparo spero do segundo registava a resposta. 
Renauld, reconhece isto? 
O magistrado tirou qualquer coisa de cima da mesa e estendeuf-a 
ao preso. Estremeci ao reconhecer o punhal feito de 
arame de avio. 
Pardon interveio o Dr. Grosier. Peo licena para 
falar com o meu cliente antes de ele responder a essa pergunta. 
Mas Jack Renauld no tinha a mnima considerao pelos 
sentimentos do pobre Grosier, pois fez-lhe sinal para que se 
calasse e respondeu tranquilamente: 

Claro que reconheo. Trata-se de uma prenda que dei  
minha me, como recordao. 
H, que saiba, algum duplicado deste punhal? 

Mais uma vez o Sr. Grosier quis falar, e mais uma vez 
Jack Renauld no o deixou: 
-Que eu saiba, no. Fui eu prprio que o desenhei. 
At o magistrado ficou boquiaberto com a temeridade da 
resposta. Dir-se-ia, de facto, que Jack Renauld tinha pressa de 
correr para o seu destino. Compreendi, evidentemente, a sua 
necessidade vital de ocultar, para proteger Bella, a existncia 
de um duplicado do punhal. Enquanto se supusesse que existia 
apenas uma arma, era pouco provvel que se suscitassem suspeitas 

em relao  rapariga que tivera o segundo corta-papis 

#
em seu poder. Jack protegia corajosamente a mulher que em 
tempos amara, mas a que preo para si mesmo! Comecei a 
avaliar a magnitude da tarefa que de nimo to leve impusera 
a Poirot. No seria fcil conseguir a absolvio de Jack Renauld, 
a no ser com a verdade. 

M. Hautet falou de novo, com uma inflexo assaz mordente: 
Madame Renauld disse-nos que este punhal estava no 
seu toucador na noite do crime, mas Madame Renauld  me! 
Talvez o surpreenda, Renauld, mas considero muitssimo provvel 

que ela se tenha enganado e que, talvez por inadvertncia, 
voc tenha levado o corta-papis consigo para Paris. Vai con>tradizer-
me, sem dvida... 
Vi as mos algemadas do jovem fecharem-se com fora. 
Tinha a testa perlada de suor quando, com um esforo supremo, 
interrompeu M. Hautet, em voz rouca: 

No o contradigo.  possvel. 
Ficmos todos estupefactos. O Dr. Grosier levantou-se e 
protestou: 

O meu cliente tem estado sob uma tenso nervosa muito 
grande. Desejo que fique registado na acta do interrogatrio 
que no o considero responsvel pelo que diz. 
O magistrado fez-lhe sinal para que se acalmasse, embora 
ele tambm estivesse furioso. Por momentos pareceu que a 
dvida se apoderava do seu prprio esprito. Jack Renauld 

bccedera-se no seu papel. Hautet inclinou-se para a frente e 
fitou o rapaz, perscrutadoramente. 

Tem plena conscincia, Renauld, de que, baseado nas 
respostas que me tem dado, no terei outro remdio seno 
remet-lo a julgamento? 
O rosto plido de Jack corou, mas o rapaz sustentou firmemente 

#
o olhar do juiz. 

Juro que no matei o meu pai, M. Hautet. 
Mas o breve momento de dvida do magistrado dissipara-se,, 
Hautet deu uma gargalhada breve e desagradvel. 

Sem dvida, sem dvida! Os nossos presos esto sempre 
inocentes! Tem estado a condenar-se pela sua prpria boca. 
No apresenta nenhuma defesa, nenhum libi, limita-se a repetir 

uma afirmao que no iludiria uma criana: que no  
culpado. Mas voc matou o seu pai, Renauld, cometeu um 
crime cruel e cobarde por causa do dinheiro que julgava receber 

por morte dele. A sua me foi encobridora do crime. 
Estou certo de que, em virtude de ela ter actuado como me, 

o tribunal ter para com ela uma indulgncia que lhe negar 
a si. E com razo! O seu crime foi hediondo, um crime que 
deve repugnar a deuses e homens! M. Hautet estava encantado 
da vida, trabalhava e arredondava as frases, deixava-se, 
impregnar deliciosamente pela solenidade do momento e pelo 
seu papel de representante da justia. Matou e ter de pagar 
as consequncias do seu crime. Estou a falar-lhe no como 
homem, mas como Justia, como a eterna Justia que... 

M. Hautet foi interrompido, com grande contrariedade sua. 
A porta abriu-se e um funcionrio informou, atrapalhado: 
Sr. Juiz, Sr. Juiz... est aqui uma senhora que diz... que 
diz... 
Que diz o qu? gritou o furibundo magistrado. Isto 
 muitssimo irregular. Proboo, probo-o em absoluto! 
Mas uma figura esbelta afastou o tartaimudeante funcionrio 
para o lado e entrou na sala. Vestia de preto e usava um vu 
comprido a ocultar-lhe a cara. 

O meu corao deu um salto to grande que ficou todo 

#
dorido. Ela viera! Todos os meus esforos tinham sido vos! No 
entanto, no podia deixar de admirar a coragem que a levara 
a dar aquele passo, to firmemente. 
Levantou o vu e soltei uma exclamao que me deixou 
boquiaberto.  que, apesar da enorme semelhana, aquela rapariga 

no era a Cinderela! Por outro lado, agora que a via sem 
a cabeleira loura que usara no palco, reconhecia-a como a 
rapariga da fotografia encontrada no quarto de Jack Renauld. 

 o juiz de instruo, M. Hautet? perguntou. 
Sou, mas probo... 

Chamo-me Bella Duveen e desejo entregar-me pelo assassno 
de M. Renauld. 
CAPTULO XXVI 

Recebo uma Carta 
Meu Amigo: 
Saber tudo quando receber esta carta. Nada que eu possa 
dizer demover a Bella, que se foi entregar. Estou cansada de 
lutar. 
Saber que o enganei, que paguei a sua confiana com mentiras. 


Talvez lhe parea indefensvel, mas, antes de sair da sua 
vida para sempre, gostaria de lhe explicar como tudo aconteceu. 


Se soubesse que me perdoava, a vida tornar-se-me-ia um 
pouco mais fcil. A nica coisa que posso dizer, em minha 
defesa,  que nada do que fiz foi por mim. 
Comearei pelo dia em que o conheci no comboio, quando 
vinha de Paris. Nessa altura estava inquieta acerca de Bella. 
Ela estava desesperada por causa de Jack Renauld. Queria-lhe 
tanto que seria capaz de se deitar no cho para ele lhe passar 
por cima, e quando Jack comeou a mudar e a escrever menos 


ficou fora de si. Meteu-se-lhe na cabea que ele gostava de 


#
outra rapariga e, claro, como viria a descobrir-se mais tarde 
tinha toda a razo. Decidira ir  moradia deles em Merlinville 
e tentar falar com o Jack. Como sabia que eu no concordava 
com isso, tentou cortar-me as voltas. Mas eu descobri que no 
se encontrava no comboio, em Calais, e resolvi que no seguiria 

para Inglaterra sem ela. Tinha a inquietante sensao de 
que aconteceria algo horrvel se no me fosse possvel evit-lo. 
Esperei o comboio seguinte, vindo de Paris. Ela vinha nele 
e estava decidida a ir imediatamente a Merlinville. Argumentei 
com ela, tentei fazer-lhe ver as coisas, mas no valeu de nada. 
Estava com os nervos esfrangalhados e firmemente decidida a 
levar a sua avante. Bem, lavei as mos do assunto. com a 
breca, fizera tudo quanto me fora possvel! Como estava a 
fazer-se tarde, fui para um hotel e a Bella partiu para Merlinville. 

Mas eu continuava incapaz de afastar a sensao daquilo 
a que os livros chamam tragdia iminente. 
O dia seguinte chegou, mas de Bella nem sinais. Combinara 
encontrar-se comigo no hotel, mas no apareceu, passou todo 

o dia, e nada. Fui ficando cada vez mais inquieta. At que li 
o jornal da tarde, com a notcia. 
Foi horrvel! Claro que no podia ter a certeza, mas tinha 
um medo terrvel. Imaginei que a Bella falara com o Renauld 
pai, lhe dissera tudo a seu respeito e de Jack e que ele a insultara, 
ou qualquer coisa do gnero. Temos ambas um mau gnio 
dos demnios! 
Depois li toda aquela histria dos homens mascarados e 
comecei a sentir-me menos preocupada. No entanto, continuava 

a inquietar-me o facto de Bella no ter comparecido ao 
encontro que marcara comigo. 
Na manh seguinte sentia-me to desesperada que no resisti 

a meter-me a caminho, para tentar ver o que fosse possvel. 

#
A primeira pessoa que encontrei foi voc. Sabe como tudo isso 
se passou. Quando o vi morto, to parecido com o Jack e com 

o elegante sobretudo dele, compreendi! E l estava o corta-papis 
idntico maldita coisa! ao que Jack dera  Bella! Pensei 
que apostaria dez contra um em como tinha as impresses 
digitais dela. No lhe sei descrever o horror desesperado que 
senti nesse momento. S conseguia pensar uma coisa claramente: 

tinha de me apoderar do punhal e de partir imediatamente 

com ele, antes que dessem pelo seu desaparecimento. 
Fingi desmaiar e enquanto voc foi buscar gua tirei-o do 
frasco e escondi-o no vestido. 
Disse-lhe que estava no Hotel du Phare, mas, claro, fui 
direitinha para Calais e da para Inglaterra, no primeiro barco. 
Quando estvamos no meio do canal atirei o maldito punhal 
ao mar. Parece-me que s ento consegui voltar a respirar. 
A Bella estava na nossa casa em Londres, com uma cara 
pavorosa. Disse-lhe o que fizera e que se podia considerar em 
segurana, por enquanto, e ela fitou-me e desatou a rir, a rir... 
Oh, era horrvel ouvi-la! Pareceu-me que o melhor que tnhamos 
a fazer era trabalhar. Ela enlouqueceria se tivesse tempo de 
pensar muito no que fizera. Por sorte arranjmos imediatamente 

um contrato. 
E depois vi-o e ao seu amigo a observar-nos, naquela noite. 
Perdi a cabea. Voc deveria ter suspeitado, pois de contrrio 
no nos teria seguido o rasto. Decidida a saber o pior, segui-o. 
Estava desesperada. E ento, antes que tivesse tempo de dizer 
fosse o que fosse, descobri que era de mim que voc suspeitava 
e no de Bella! Ou, pelo menos, que julgava ser eu a Bella, visto 
que fora eu que roubara o punhal. 
Gostaria, meu querido, que pudesse avaliar o que pensei 

#
nesse momento, pois talvez me perdoasse. Estava to assustada, 
to confusa e desesperada! A nica coisa em que conseguia 
pensar claramente era que voc tentaria salvar-me. No sabia 
se estaria disposto a salv-la a ela e achei provvel que no 
estivesse, pois no era a mesma coisa! E eu no podia correr 
esse risco! A Bella  minha gmea, tinha de fazer tudo quanto 
pudesse por ela. Por isso continuei a mentir. Mas sentia-me 
miservel, sentia-me e ainda me sinto. E  tudo  tudo e 

muito, como por certo pensar. Devia ter confiado em si. Se 
tivesse confiado... 
Assim que os jornais publicaram a notcia de que Jack Renauld 

fora preso, acabou-se tudo. A Bella nem sequer quis 
esperar para ver como as coisas corriam. 
Estou muito cansada, no posso escrever mais. 

Comeara a assinar com o nome de Cinderela, mas riscara 
e escrevera antes Dulcie Duveen. 
Era uma carta mal escrita e confusa, mas ainda hoje a 
guardo. 
Poirot estava comigo quando a li. Deixei cair as folhas de 
papel e fitei-o. .  


Soube sempre que era... a outra? 
Soube, meu amigo. 
Porque no me disse? 
Para comear, porque quase me parecia incrvel que voc 


pudesse cometer semelhante erro. Tinha visto as fotografias... 
As irms so muito parecidas, sem dvida, mas de modo 
nenhum indistinguveis. 


E o cabelo louro? 
Tratava-se de uma cabeleira, usada por causa do contraste 
engraado que produzia no palco. Ou acha possvel que, 


#
no caso de gmeas verdadeiras, uma seja loura e outra morena? 
Porque no mo disse naquela noite, no hotel, em 
Coventry? 

Voc mostrou-se muito senhor dos seus mtodos, mon 
ami, muito peremptrio respondeu Poirot, secamente. No 
me deu a mnima oportunidade. 

Mas depois? 

Ah, depois! Bem, antes de mais nada, sentia-me magoado 
com a sua falta de confiana em mim. Alm disso, queria ver 
se os seus... sentimentos aguentariam a prova do tempo. Por 
outras palavras, queria ver se se tratava realmente de amor ou 

de um entusiasmo passageiro. No devia t-lo deixado laborar 
tanto tempo no seu erro. 
Acenei afirmativamente, mas o tom em que me falava era 
to afectuoso que no fui capaz de me sentir ressentido com 
ele. Olhei para as folhas da carta e, de sbito, apanhei-as e 
estendi-lhas. 

Leia. Gostaria que lesse. 
Leu, em silncio, e depois olhou para mim e perguntou: 
-Que o preocupa, Hastings? 
Aquela atitude parecia inteiramente nova em Poirot, que 
dir-se-ia ter abandonado por completo os seus ares trocistas. 
Assim poderia dizer-lhe o que queria sem excessiva dificuldade 

Ela no diz... ela no diz... enfim, se gosta de mim 
ou no! 
Poirot olhou para as folhas de papel e afirmou: 

Acho que est enganado, Hastings. 
Onde diz? perguntei, inclinando-me ansiosamente para 
a frente. 
Diz-lho em todas as linhas da carta, mon ami redarguiu 

#
o detective, a sorrir. 
Mas onde poderei encontr-la? A carta no tem endereo 
nenhum. Traz um selo francs, mais nada. 
No se enerve! Deixe o caso com o pap Poirot. Desencant-la-ei 
para si assim que dispuser de cinco minutinhos. 

CAPTULO XXVII 
A Histria de Jack Renauld 

Parabns, M. Jack! disse Poirot, apertando corajosamente 
a mo do rapaz. 
O jovem Renauld procurara-nos assim que o tinham libertado, 

antes mesmo de partir para Merlinville, a fim de se juntar 
a Marthe e  me. Stonor acompanhava-o e a sua alegria e boa 

disposio contrastavam fortemente com o ar triste e plido 
do jovem. Era evidente que este estava  beira de um colapso. 
Embora liberto do perigo imediato que pairara sobre ele, as 
circunstncias da sua libertao eram to dolorosas que no 
lhe permitiam sentir alvio total. Sorriu melancolicamente a 
Poirot e disse, em voz baixa: 


Suportei tudo para a proteger, e afinal no valeu a pena! 


No poderia esperar que a rapariga aceitasse o preo da 
sua vida observou Stonor, irritado. Ela no poderia deixar 
de entregar-se assim que viu que voc ia direitinno para a 
guilhotina. 


Eh. mafoi,e que ia mesmo! exclamou Poirot. 
A continuar daquela maneira, ficaria com a morte, de 


raiva, do Dr. Grosier a pesar-lhe na conscincia. 
Creio que ele foi um idiota bem-intencionado, mas preocupou-me 
horrivelmente confessou Jack. Como compreendem, 
no lhe podia fazer confidncias... Mas, meu Deus, que 


acontecer a Bella? 


#
No seu lugar, no me inquietaria desnecessariamente 
aconselhou Poirot. Os tribunais franceses so muito indulgentes 


quando se trata de juventude, beleza e crime passionnel. 
Um advogado competente arranjar montes de circunstncias 
atenuantes. No ser nada agradvel para si, -claro... 


Isso  o que menos me importa. Sabe, M. Poirot, em 
certo sentido sinto-me culpado do assassnio do meu pai. Se 
no fosse eu e a minha ligao com a rapariga, ele a esta hora 
estaria vivo e so. E depois, o meu maldito descuido, quando 
levei o sobretudo dele... No consigo deixar de me sentir responsvel 


pela sua morte. Perseguir-me- para sempre! 
No, no... murmurei, apaziguador. 
Claro que  horrvel para mim pensar que a Bella matou 


o meu pai prosseguiu Jack , mas eu tratara-a vergonhosamente. 
Quando conheci Marthe e compreendi que at a andara 
enganado, devia ter escrito a Bella e explicado tudo, honestamente. 
Mas tinha tanto medo de uma discusso e de que o 

assunto chegasse aos ouvidos de Marthe, tinha tanto medo de 
que esta pensasse que houvera algo mais do que na realidade 
houvera que... enfim, fui um cobarde e fiquei  espera de que 
a coisa morresse por si prpria. Limitei-me a deixar-me levar 
na onda, sem me aperceber de que levava a pobre pequena ao 
desespero. Se ela me tivesse apunhalado, como sups, no me 
teria dado mais do que o castigo merecido. E a coragem tremenda 

com que se apresentou agora... Eu aguentaria at ao 
fim, acreditem. 
Calou-se, durante uns momentos, e depois prosseguiu, mas 
mudando de assunto: 

O que continuo a no perceber  o motivo por que o 
velhote andava em trajos menores e com o meu sobretudo, 

#
fora de casa, quela hora da noite. Suponho que acabava de 
se livrar dos tipos estrangeiros e que a minha me no se enganou 


ao julgar que eram duas horas quando eles apareceram. 
Ou... ou foi tudo preparado? Quero dizer, a minha me no 
pensou... no podia ter pensado... que tinha sido eu? 
Poirot apressou-se a tranquiliz-lo: 


No, no, M. Jack, no tenha receios a esse respeito. 
Quanto ao resto, explicar-lho-ei um destes dias. Creia que  
muito curioso. Mas importa-se de nos contar exactamente o 
que aconteceu nessa noite terrvel? 


H pouco que contar. Vim de Cherbourg, como lhe disse, 
a fim de ver a Marthe antes de partir para o outro extremo do 
mundo. O comboio chegou atrasado e eu resolvi atalhar atravs 
do campo de golfe. Da penetraria facilmente no terreno da 
Villa Marguerite. Estava quase a chegar quando... 
Calou-se e engoliu em seco. 


Quando? 


Ouvi um grito horrvel. No foi um grito alto, foi antes 
uma espcie de exclamao estrangulada, que me assustou. 
Fiquei um momento paralisado, como que pregado ao cho, e 
depois contornei um arbusto... Estava luar. Vi a cova e um 
vulto cado de bruos, com o cabo de um punhal a sair das 


costas. E depois... depois... levantei a cabea e vi-a. Olhava 
para mim como se visse um fantasma (deve ter sido mesmo 
isso que pensou a meu respeito, ao princpio), com o rosto 
despido de toda a expresso pelo horror. A seguir deu um 
grito, virou-se e fugiu. 
Parou, a tentar dominar a emoo. 


E depois? insistiu Poirot. 
Francamente, no sei. Fiquei um momento parado, num 


#
atordoamento, antes de compreender que o melhor era safar-me 
dali para fora o mais depressa possvel. No me passou pela 
cabea que suspeitassem de mim, mas tive medo de que me 
obrigassem a depor contra ela. Fui a p at St. Beauvais, como 
lhe disse, e a arranjei um carro para Cherbourg. 
Bateram  porta e um mandarete entrou e entregou um 
telegrama a Stonor, que o abriu. 

Mrs. Renauld recuperou a conscincia anunciou. 
Ah: exclamou Poirot, levantando-se de um pulo. 
Vamos todos para Merlinville, imediatamente! 


Partimos  pressa. Stonor, a instncias de Jack, aquiesceu 
em ficar e fazer tudo quanto pudesse por Bella Duveen. Poirot, 
Jack Renauld e eu partimos no carro do rapaz. 
A viagem levou pouco mais de quarenta minutos. Ao aproximarmo-nos 


da porta da Villa Marguerite, Jack Renauld olhou 
interrogadoramente para Poirot: 
E se fossem  frente, para darem  minha me a notcia 
da minha libertao... 
Enquanto voc a d pessoalmente a Mademoiselle Marthe,? 
interrompeu-o Poirot, a rir. Pois sim. Alis, ia precisamente 

propor-lhe isso. 
Jack Renauld no esperou por mais nada. Parou o carro, 
saiu e correu pelo carreiro de acesso  porta principal acima. 
Quanto a ns, seguimos no automvel at  Ville Genevive. 

Poirot, lembra-se da nossa chegada aqui, no primeiro 
dia? Esperava-nos a notcia da morte de M. Renauld... 


Ah, sin, lembro! Tambm no foi assim h tanto tempo... 
207 
Mas quantas coisas aconteceram desde ento! Especialmente a 
si, mon ami! 

Poirot, que fez no sentido de encontrar Bei... quero 

#
dizer, Dulcie? 
Acalme-se, Hastings. Tratarei de tudo. 
Est a demorar muito tempo resmunguei. 

Poirot mudou de assunto e sentenciou, enquanto tocava  
campainha: 
Ento foi o princpio e agora  o fim. E, bem vistas 

todas as coisas, o fim parece-me muito pouco satisfatrio. 
Sem dvida concordei, a suspirar. 
Voc est a ver a questo do ponto de vista sentimental. 

Hastings, mas no era a isso que me referia. Esperemos que 
Mademoiselle Bella seja tratada com indulgncia... e, no fim 
de contas, Jack Renauld no pode casar com as duas... Eu 
estava a falar do ponto de vista profissional. No se tratou de 
um crime bem organizado e metdico, como um detective 
gosta. A mise en scene planeada por Georges Conneau, sim, 
essa foi perfeita, mas o desenlace... ah, no! Um homem morto 
por acidente em consequncia de um ataque de clera de uma 
rapariga.. Francamente, que ordem e que mtodo h nisso? 
E, no meio de um ataque de riso da minha parte, provocado 
pelas peculiaridades de Poirot, Franoise abriu a porta. 
Poirot disse-lhe que tinha de falar imediatamente com 
Mrs. Renauld e a velha criada conduziu-o ao andar de cima. 
Eu fiquei na sala. Poirot reapareceu passado algum tempo. 

Vous voil, Hastings! Sacr tonnerre, temos temporal  

vista! 
Que quer dizer? 
Nunca imaginaria que as mulheres fossem to inesperadas! 
Olhe, vm a Jack Renauld e Marthe Daubreuil avisei, 


a olhar pela janela. 
Poirot saiu da sala a correr e foi ter com o jovem casal aos 
degraus exteriores. 


#
No entrem disse a Jack.  melhor no entrarem. 


A sua me est muito transtornada. 
Bem sei, bem sei murmurou Jack. Vou imediatamente 
ter com ela. 
J lhe disse que no v.  melhor. 
Mas a Marthe e eu... 
De qualquer modo, no leve Mademoiselle Marthe consigo. 
Suba, se insiste, mas creia que faria bem se ouvisse os 


meus conselhos. 


Atrs de ns, na escada, soou uma voz que nos fez estremecer 
a todos: 
Agradeo-lhe os seus bons ofcios, M. Poirot, mas eu 


prpria exprimirei os meus desejos. 
Olhmos, boquiabertos. Apoiada em Lonie, Mrs. Renauld 
descia a escada, com a cabea ainda ligada. A francesinha chorava 


e rogava  ama que voltasse para a cama. 


A senhora mata-se, assim! Est a fazer o contrrio do 
que o doutor recomendou! 
Mas Mrs. Renauld continuou a descer. 


Me! gritou Jack, e deu um passo em frente. 
Mas ela conteve-o, com um gesto: 
J no sou tua me e tu no s meu filho! A partir deste 


dia, renego-te! 


Me! repetiu o moo, estupefacto. 
Ela pareceu hesitar momentaneamente, compadecer-se da 
angstia que transparecia da voz do rapaz. Poirot esboou um 
gesto de apaziguamento, mas, acto contnuo, ela recuperou o 
domnio de si mesma: 


Ests manchado pelo sangue do teu pai, s moralmente 
responsvel pela sua morte. Desobedeceste-lhe e desafiaste-o por 


#
causa dessa rapariga e a maneira cruel como trataste outra 
originou a sua morte. Sai da minha casa. Amanh tomarei as 
providncias necessrias para que nunca toques num centavo 
que seja do seu dinheiro. Singra no mundo como fores capaz, 
14 -VAMP. G. 2 


com a ajuda da rapariga que  a filha da pior inimiga do 
teu pai! 
E lentamente, penosamente, virou-se e subiu a escada. 
Ficmos todos aparvalhados, totalmente apanhados de surpresa 


pela cena a que acabvamos de assistir. Jack Renauld, 
debilitado por tudo quanto j sofrera, cambaleou e quase caiu. 
Poirot e eu corremos a ampar-lo. 


Ele est muito abatido murmurou o detective a Marthe. 
Para onde podemos lev-lo? 


Para casa, para a Ville Marguerite. Trataremos dele, a 
minha me e eu. Meu pobre Jack! 
Levmos o rapaz para a moradia, onde ele se deixou cair 
numa cadeira, num estado de semi-atordoamento. Poirot tocou-lhe 


na testa e nas mos. 


Tem febre. A longa tenso, agravada agora por este 
abalo, comea a produzir os seus efeitos. Metam-no na cama, 
enquanto Hastings e eu chamamos um mdico. 
Assim fizemos e, depois de examinar o rapaz, o doutor 
declarou tratar-se simplesmente de um caso de tenso nervosa. 
com absoluto descanso e sossego, o jovem poderia estar quase 
bom no dia seguinte. No entanto, se acontecesse nais alguma 
coisa que o excitasse, corria o perigo de uma febre cerebral. 
Seria aconselhvel ficar algum toda a noite com ele. 
Por fim, depois de termos feito tudo quanto podamos, 
deixmo-lo ao cuidado de Marthe e da me e seguimos para a 


#
cidade. J passava da nossa hora habitual de jantar e estvamos 

ambos esfaimados. Entrmos no primeiro restaurante 
que encontrmos e acalmmos a fome com uma excelente 
omeleta e um no menos excelente entrecte. 

Vejamos agora onde passaremos a noite disse Poirot, 
depois de encerrada a refeio com o caf. Experimentamos 

o nosso velho conhecido Hotel ds Bains? 
Foi para l mesmo que nos dirigimos, sem hesitar. Sim, 
messieurs podiam acomodar-se em dois bons quartos com vista 
para o mar. Foi ento que Poirot fez uma pergunta que me 

surpreendeu: 
Miss Robinson, uma senhora inglesa,j chegou? 
J, sim, monsieur. Est na saleta. ,, 
Ah! 
Poirot perguntei, indo atrs dele pelo corredor fora, 

quem diabo  Miss Robinson? 

Poirot respondeu-me, todo sorridente: 
Arranjei-lhe um casamento, Hastings! 
Mas... 
Nem mas, nem meio mas! replicou Poirot, e empurrou-me 
amigavelmente para dentro da saleta. Julga que desejo 
gritar aos quatro ventos o apelido de Duveen, em Merlinville? 

Era de facto Cinderela, que se levantou para nos cumprimentar. 
Apertei-lhe ambas as mos e os meus olhos disseram 

o resto. 
Poirot pigarreou: 
Ms enfants, de momento no temos tempo para sentimentalismo. 
Temos que fazer. Mademoiselle, conseguiu fazer o 
que lhe pedi? 
Em resposta, Cinderela tirou da malinha um-objecto embrulhado 


#
em papel e estendeu-o silenciosamente a Poirot. Este 
abriu-o e eu quase dei um pulo: era o punhal que eu supunha 
ter sido atirado ao mar.  estranha a relutncia das mulheres 
em destrurem os objectos e documentos mais comprometedores! 

Trs bien, ms enfants! Estou satisfeito consigo, mademoiselle. 
Agora v descansar, pois o Hastings e eu temos que 

fazer. V-lo- amanh. 
Aonde vo? perguntou a rapariga. 
Amanh saber. 
Seja aonde for que vo, irei tambm. 
Mas, mademoiselle... 
J lhe disse, tambm vou. 

#
Poirot compreendeu que seria intil discutir. 

Pois venha, mademoiselle. Mas no ser divertido... e at 
 provvel que no acontea nada. 
A rapariga no respondeu. 
Partimos vinte minutos depois. Escurecera por completo e 
a noite estava abafada e opressiva. Poirot seguiu na direco 
da Vile Genevive, mas quando chegou  Ville Marguerite 
parou. 

Desejaria certificar-me de que corre tudo bem com Jack 
Renauld. Venha comigo, Hastings. Acho melhor mademoiselle 
esperar aqui; Madame Daubreuil seria capaz de dizer alguma 
coisa que a ofendesse. 
Abrimos a cancela e subimos o carreiro. Quando contornmos 

o lado da casa, chamei a ateno de Poirot para uma 
janela do andar de cima: na persiana estava vivamente recortado 
o perfil de Marthe Daubreuil. 
Ah, deve ser naquele quarto que encontraremos Jack 
Renauld! exclamou o meu amigo. 
Madame Daubreuil abriu-nos a porta. Disse-nos que Jack 
Renauld estava praticamente na mesma, mas que talvez preferssemos 

ver com os nossos prprios olhos. Levou-mos ao 
quarto do andar de cima. Marthe Daubreuil bordava, junto de 
uma mesa sobre a qual estava um candeeiro. Levou o indicador 
aos lbios, quando entrmos. 
Jack Renauld dormia num sono agitado, a virar a cabea: 
de lado para lado e ainda com um rubor de febre nas faces. 
-O mdico volta? perguntou Poirot, baixinho. 

No, a no ser que o chamemos. Ele est a dormir, e 
isso  o principal. A maman fez-lhe uma tisana. 
Sentou-se de novo a bordar, quando samos do quarto. 
Madame Daubreuil acompanhou-nos. Desde que tomara conhecimento 

#
da sua histria passada, encarava aquela mulher com 
interesse crescente. Parou  porta, de olhos baixos e com o 
mesmo sorriso enigmtico e tnue de sempre. De sbito, tive 

medo dela, como se tem medo de uma bonita serpente venenosa. 

Espero que no a tenhamos incomodado, madame 
disse Poirot delicadamente, quando ela abriu a porta para 
sarmos. 

Absolutamente nada, monsieur. 

A propsito acrescentou Poirot, como se lhe tivesse 
acudido de repente uma ideia , M. Stonor no esteve hoje em 
Merlinville, pois no? 
No percebi aonde ele queria chegar, mas isso no queria 
dizer nada, quando se tratava de Poirot. 
>Que eu saiba, no respondeu a mulher, imperturbvel. 

No teve nenhum encontro com Madame Renauld? 

Como quer que saiba, monsieur? 
Tem razo. Pensei que talvez o tivesse visto chegar ou 
partir... Boas noites, madame. 

Porque... comecei. 

Deixe os porqus para outra altura, Hastings. Haver 
tempo suficiente para isso, mais tarde. 
Reunimo-nos a Cinderela e dirigimo-nos apressadamente para 
a Ville Genevive. Poirot olhou uma vez para trs, para a janela 
iluminada e para o perfil de Marthe, debruada sobre o bor- 
dado. 

Ele pelo menos est a ser guardado murmurou. 
Quando chegmos  Ville Genevive, Poirot escolheu um 
stio atrs de uns arbustos,  esquerda do caminho de carros: 
embora ali tivssemos boa visibilidade, estvamos completamente 

ocultos de olhares curiosos. A moradia encontrava-se 

#
totalmente s escuras. com certeza j estavam todos deitados 
e a dormir. Encontrvamo-nos debaixo do quarto de Mrs. Renauld, 
cuja janela reparei que se encontrava aberta Pareceu-me 

ser nessa janela que o olhar de Poirot se fixava. 
Que vamos fazer? perguntei, baixinho. 
Vigiar. 


Mas... 
No espero que acontea nada na hora mais prxima 
ou talvez, at, nas duas horas mais prximas, mas... 
As suas palavras foram interrompidas por um grito prolongado 


e agudo: Socorro! 
Brilhou uma luz no quarto do primeiro andar do lado 
direito da casa. Fora da que viera o grito. Enquanto olhvamos, 
desenhou-se na persiana a sombra de duas pessoas que pareciam 
lutar. 


Mille tonerres! praguejou Poirot. Ela deve ter mudado 
de quarto! 
Desatou a correr e bateu desesperadamente  porta principal. 

Depois correu para a rvore do canteiro e trepou por ela 
acima com a agilidade de um gato. Segui-o, quando ele tomou 
balano e entrou pela janela aberta. Olhei por cima do ombro 
e vi Cinderela a chegar ao ramo atrs de mim. 

Tenha cuidado! recomendei. 

Mande ter cuidado  sua av! replicou-me. Isto  
brincadeira de crianas para mim. 
Poirot atravessara o quarto deserto como uma flecha e 
batia  porta que dava para o corredor. 
Fechada  chave pelo lado de fora! gemeu. Ser 
preciso muito tempo para a arrombar. 
Os gritos de socorro tornavam-se cada vez mais fracos. 

#
Havia desespero nos olhos de Poirot. Uni os meus esforos aos 
dele e atirmu-nos  porta. 
A voz de Cinderela, calma e desapaixonada, chegou at ns, 
da janela: 


Chegaro tarde de mais. Creio que s eu poderei fazer 
alguma coisa. 
Sem que tivesse tempo de estender sequer a mo para a 
deter, deu-me a sensao de que saltava no espao. Corri para 
a janela e olhei para fora. Horrorizado, vi-a suspensa do telhado 
pelas mos, avanando aos solavancos na direco da janela 
iluminada 


Cus, vai-se matar! gritei. 


Esquece-se de que  acrobata profissional, Hastings. Foi 
a Providncia que a fez insistir em acompanhar-nos esta noite. 
S rogo a Deus que chegue a tempo! Ah! 
Um grito de absoluto terror encheu a noite quando a rapariga 


desapareceu atravs da janela do lado direito. Depois 
ouvimos a voz clara de Cinderela: 


No, no conseguir! Apanhei-a, e os meus pulsos so 
como ao! 
No mesmo instante, Francoise aibriu cautelosamente a porta 
da nossa priso. Poirot afastou-a sem cerimnias e desarvorou 
pelo corredor fora, direito s outras criadas, que estavam 
agrupadas junto da ltima porta. 
-Est fechada  chave por dentro, monsieur. 
Ouviu-se o som de uma queda pesada, no interior. Passados 
momentos, girou uma chave na fechadura e a porta abriu-se, 
devagar. Cinderela, muito plida fez-nos sinal para entrarmos. 


Ela est salva? perguntou Poirot. 
Est, cheguei mesmo a tempo. J estava exausta. 


#
Mrs. Renauld estava meio deitada, meio sentada na cama, 
a respirar a custo.  


Quase me estranguloumurmurou, com dificuldade. 
A rapariga apanhou uma coisa do cho e estendeu:a a Poirot. 
Era uma escada enrolada, de corda de seda muito fina, mas 
forte. 


Para a fuga disse Poirot. Pela janela,-enquanto ns 
batamos  porta. Onde est... a outra? 
A rapariga desviou-se um pouco e apontou. No cho jazia 
um vulto envolto num tecido escuro qualquer, uma prega 
do qual lhe ocultava o rosto. 


Morta? 
Creio que sim. 
Deve ter batido com a cabea no guarda-fogo de mrmore 
da lareira 
Mas quem ? perguntei, agitado. 


A assassina de M. Renauld, Hastings, e quase a assassina 
de Madame Renauld. 
Intrigado e sem compreender, ajoelhei, levantei a prega de 
tecido e deparou-se-me o belo rosto sem vida de Marthe 
Daubreuil. 
CAPTULO XXVIII 
Fim da Viagem 
So confusas as recordaes que guardo dos restantes acontecimentos 


dessa noite. Poirot parecia surdo s minhas repetidas 
perguntas, todo entregue  tairefa de censurar Franoise por 
no lhe ter dito que Mrs. Renauld mudara de quarto de dormir. 
Agarrei-lhe num ombro, decidido a chamar a sua ateno e 
fazer-me ouvir: 


Mas voc devia saber! exclamei. Esteve a falar com 


#
ela esta tarde! 
Poirot dignou-se reparar momentaneamente em mim: 


Levaram-na-numa cadeira de rodas para um sof do 
aposento do meio, o seu quarto de vestir explicou. 
Mas, monsieur, a senhora mudou de quarto quase imediatamente 


depois do crime! exclamou Franoise. As recordaes... 
eram muito deprimentes! 
Ento porque no fui informado? berrou Poirot, dando 


murros na mesa, numa fria incontida. Pergunto-lhe, porque 
no fui informado? No passa de uma velha completamente 
imbecil! E a Lonie e a Demise no so melhores. Uma trempe 
de idiotas! A vossa estupidez quase causou a morte da. vossa 
patroa. Se no fosse esta corajosa criana... 
Calou-se e, atravessando o quarto na direco da jovem, que 
cuidava de Mrs. Renauld, abraou-a com um fervor muito 
gauls, o que, confesso, me causou uma certa irritao. 
Fui arrancado ao meu estado de torpor mental por uma 


ordem enrgica de Poirot, que me mandou chamar imediatamente 


o mdico, para examinar Mrs. Renauld. Depois disso, 
que chamasse a Polcia. E, para aumentar a minha indignao, 
acrescentou: 
No lhe valer a pena voltar c, a seguir. Eu terei muito 
que fazer e no poderei atender, e aqui a mademoiselle est 
desde j nomeada enfermeira. 
Retirei-me com a dignidade possvel e depois de cumprir as 
ordens recebidas regressei ao hotel. No compreendia praticamente 

nada do que sucedera. Os acontecimentos daquela noite 
pareciam-me fantsticos e impossveis. Ningum respondera s 
minhas perguntas, ningum parecera sequer ouvi-las. Meti-me 
na cama, furioso, e dormi o sono dos desnorteados e absoluta


#
mente exaustos. 
Quando acordei o sol entrava a jorros pelas janelas abertas 
e Poirot, sorridente e aperaltado, estava sentado a meu lado. 


Acordou, finalmente! Grande dorminhoco me saiu, 
Hastings! Sabe que so quase onze horas da manh? 
Gemi e levei a mo  cabea. 


Devo ter estado a sonhar... Imagine, sonhei que encontrmos 


o corpo de Marthe Daubreuil no quarto de Mrs. Renauld 
e que o senhor declarou que ela assassinara M. Renauld! 
No sonhou. Tudo isso  verdade. 
Mas Bella Duveen matou M. Renauld. 

>No matou nada, Hastings! Disse que matou, sim, mas 

procedeu assim para salvar o seu amado da guilhotina. 
O qu?! 
Lembra-se da histria de Jack Renauld? Eles chegaram 

ao mesmo tempo ao cenrio do crime e cada um julgou que o 
outro era o criminoso. A rapariga fitouo, horrorizada, e depois 
soltou um grito e fugiu. Mas quando soube que o tinham 
acusado do assassnio, no pde suportar semelhante ideia e 
acusou-se para o salvar de morte certa. 
Poirot recostou-se na cadeira e uniu as pontas dos dedos, 
num gesto familiar. 

O desfecho do caso no me agradava nada observou, 
sentenciosamente. Tive desde o princpio a impresso de que 
estvamos perante um crime premeditado e cometido a sangue-frio 

por algum que se limitou (muito inteligentemente, diga-se) 
a utilizar o estratagema do prprio M. Renauld para despistar 
a Polcia. O grande criminoso (como por certo se lembra de eu 
lhe ter observado)  sempre supremamente simples. 
Acenei com a cabea, 

#
Para confirmar tal teoria o criminoso devia conhecer 
em absoluto os planos de M. Renauld, o que nos conduzia a 
Madame Renauld. Os factos, porm, no confirmavam qualquer 
teoria que a inculpasse. Havia mais algum que pudesse ter 
conhecimento deles? Havia, Soubemos pelos prprios lbios de 
Marthe Daubreuil que ela ouvira a discusso de M. Renauld 
com o vagabundo. Se ouviu isso, poderia muito bem ter ouvido 
tudo o mais, especialmente se M. e Madame Renauld cometeram 

a imprudncia de discutir os seus planos sentados no 
banco. Lembre-se da facilidade com que voc ouviu a conversa 
de Marthe com Jack Renauld, sentado nesse mesmo banco. 

Mas que motivo poderia Marthe ter para assassinar 

M. Renauld?> perguntei, admirado. 
Que motivo? O dinheiro! M. Renauld era diversas vezes 
milionrio e por sua morte (pelo menos Jack assim julgava) 
metade dessa imensa fortuna seria para o filho. Recapitulemos 

o caso do ponto de vista de Marthe Daubreuil. 
Marthe ouve as conversas de Renauld e da mulher. At 
ento, ele tinha sido uma agradvel fonte de rendimento para 
as Daubreuils me e filha, mas tencionava escapar-lhes das 
garras. Ao princpio, talvez a ideia da rapariga fosse impedir 
que isso acontecesse, mas essa ideia deu lugar a outra mais 
ousada e que no horrorizou a filha de Jeanne Beroldy! 
M. Renauld atravessava>-se inexoravelmente no caminho do seu 
casamento com Jack. Se este desafiasse o pai, ficaria reduzido 
 pobreza, perspectiva que no agradava nada a Mademoiselle 
Marthe. Duvido que ela tenha alguma vez querido saber de 
Jack Renauld para alguma coisa. Sabia simular emoo, mas 
na realidade pertencia ao mesmo tipo frio e calculista da me. 
Duvido tambm que estivesse muito certa do seu poder sobre 

#
o afecto do rapaz. Estonteara-o e fascinara-o, mas, separado 
dela e seria faclimo ao pai dele consegui-lo, poderia 
perd-lo, No entanto, com M. Renauld morto e Jack herdeiro 
de metade dos seus milhes, o casamento poderia efectuar-se 
sem demora e, com a mesma cajadada, ela ficaria rica mas 
rica a srio, nada que se comparasse com os mseros milhares 
de francos que at ento tinham sido extrados  vtima. O crebro 
inteligente de Marthe apreendeu a simplicidade do plano. 
Seria to fcil! M. Renauld andava a planear todas as circunstncias 

da sua morte, ela teria apenas de entrar em cena no 
momento apropriado e transformar a farsa em triste realidade. 
E a<gora o segundo ponto que me conduziu infalivelmente a 
Marthe Daubreuil: o punhal! Jack Renauld mandou fazer trs 
recordaes. Deu uma  me e outra a Bella. No seria, portanto, 

muitssimo provvel que tivesse dado a terceira a 
Marthe? 
Resumindo, pois, havia quatro pontos contra Marthe 
Daubreuil: 


1. Marthe Daubreuil podia ter ouvido os planos de 
M. Renauld; 
(2) Marthe Daubreuil tinha interesse directo em causar a 
morte a M. Renauld; 
(3) Marthe Daubreuil era filha da-tristemente famosa Madame 
Beroldy que, na minha opinio, foi moral e virtualmente 
a assassina do marido, embora tenha sido a mo de Georges 
Conneau que desferiu o golpe mortal; 
(4) Marthe Daubreuil era a nica pessoa, alm de Jack 
Renauld, com possibilidade de ter o terceiro punhal em seu 
poder. 
Poirot fez uma pausa e pigarreou. 


#
Claro que quando soube da existncia da outra rapariga 
de Bella Duveen, compreendi que havia a possibilidade de ela 

ter matado M. Renauld. A soluo no me agradou muito, 
confesso, porque, como lhe observei, Hastings, um perito como 
eu gosta de encontrar um adversrio da sua craveira. No entanto, 

temos de aceitar os crimes como eles nos aparecem e 
no como gostaramos que fossem. No me pareceu muito provvel 

que Bella Duveen andasse por a a passear com um corta-
papel na mo, mas, claro, ela podia ter vindo j com qualquer 
ideia de se vingar de Jack Renauld. Quando se apresentou e 
confessou o crime, pareceu que estava tudo acabado. Contudo, 
eu no estava convencido, mon ami, eu no estava convencido. 
Voltei a recapitular o caso minuciosamente e cheguei  
mesma concluso anterior. Se no tinha sido Bella, a nica 
outra pessoa que podia ter cometido o crime era Marthe Daubreuil. 

Mas no tinha sombra de prova contra ela! 
Foi ento que voc me mostrou a carta de Mademoiselle 
Dulcie e eu vi uma possibilidade de deslindar o assunto de uma 
vez por todas. O punhal primitivo foi roubado por Dulcie 
Duveen e atirado ao mar em virtude de, como ela pensava, 
pertencer  irm. Mas se, por qualquer acaso, no fosse o da 
irm, e sim o que Jack Daubreuil dera a Marthe Daubreuil, 
ento ento o punhal de Bella Duveen ainda estaria intacto! 
No lhe disse nem uma palavra a tal respeito, Hastings (no era 
altura para romance), mas procurei Mademoiselle Dulcie, disse 

o que me pareceu necessrio dizer-lhe e encarreguei-a de procurar 
entre as coisas da irm. Imagine a minha euforia quando 
ela me procurou (segundo as minhas instrues) como Miss 
Robinson, trazendo a preciosa recordao consigo! 
Entretanto, dera alguns passos no sentido de obrigar 

#
Marthe Daubreuil a vir para campo aberto. Por ordem minha, 
Madame Renauld expulsou o filho e declarou a sua inteno 
de, no dia seguinte, fazer um testamento que o impediria para 
sempre de tocar num centavo que fosse da fortuna do pai. 
Foi um passo desesperado, mas necessrio, e Madame Renauld 
estava absolutamente disposta a correr o risco .. embora, infelizmente, 


no se tenha lembrado de me informar de que mudara 


de quarto. Suponho que partiu do princpio de que eu sabia. 
, Aconteceu tudo como estava previsto: Marthe Renauld fez 
uma derradeira e ousada tentativa para deitar a mo aos 
;| milhes de Renauld... e falhou! 
O que no consigo compreender  como ela conseguiu 
entrar l em casa sem ns a vermos observei. Parece-me 
um autntico milagre. Deixmo-la na Villa Marguerite, segui-


ms directamente para a Villa Genevive... e ela chegou l pri


meiro do que ns! 
Ah, mas ns no a deixmos na Villa Marguerite! Ela 
saiu de casa pelas traseiras, enquanto ns conversvamos com 
a me no vestbulo. Foi a que, como se costuma dizer, enrolou 


Hercule Poirot! 
Mas... e a sombra na persiana? Ns vimo-la da estrada. 
Eh bien, quando olhmos para cima Madame Daubreuil 


j tivera tempo, embora  justa, de correr para o primeiro andar 


e substituir a filha. 
Madame Daubreuil? 
Sim. Uma  velha e outra  jovem, uma  morena e outra 


 loura, mas, para os efeitos de uma silhueta numa persiana, os 
seus perfis So singularmente parecidos. Nem eu suspeitei, fui 
trs vezes imbecil! Pensei que dispunha de muito tempo, que ela 
s se arriscaria a entrar na villa muito mais tarde. Tinha miolos, 


#
a bonita Mademoiselle Marthe! 
E qual era o seu objectivo, ao pretender assassinar Mrs. 
Renauld? 

Toda a fortuna passaria ento para o filho da vitima. 
Alm disso, teria sido suicdio, mon ami. Encontrei no cho, 
junto do corpo de Marthe Daubreuil, um pedao de algodo, 
um frasquinho de clorofrmio e uma seringa com uma dose 
fatal de morfina. Est a compreender? Primeiro o clorofrmio 
e quando a vtima estivesse inconsciente a picadinha da agulha. 
De manh o cheiro do clorofrmio ter-se-ia dissipado por completo 

e a seringa encontrar-se-ia onde cara da mo de Madame 
Renauld. Que diria o excelente M. Hautet? Pobre mulher! 

Que lhe disse eu? O abalo causado pela alegria foi demasiado, 
em cima de tudo o mais! No lhe disse que no me surpreenderia 

se o seu crebro ficasse transtornado? Muito trgico, em 
todos os aspectos, este caso Renauld! 
No entanto, Hastings, as coisas no correram exactamente 
como Mademoiselle Marthe planeara. Para comear, Madame 
Renauld estava acordada e  sua espera. Houve luta, mas 
Madame Renauld ainda estava fraqussima, o que significava 
que restava ainda uma ltima esperana a Marthe Daubreuil. 
A ideia do suicdio teve de ser posta de parte, mas se ela 
pudesse silenciar Madame Renauld com as suas mos fortes, 
fugir graas  sua escadinha de seda enquanto ns nos atirvamos 

como doidos ao lado interior da ltima porta e chegar 
 Villa Marguerite antes de ns l voltarmos, seria difcil provar 
fosse o que fosse contra ela. No entanto, foi-lhe dado xeque-mate, 

no por Hercule Poirot, mas sim pela petite acrobate 
dos pulsos de ao! 
Meditei em toda a histria. 

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Quando comeou a suspeitar de Marthe Daubreuil, 
Poirot? Quando ela nos disse que ouvira a discusso, no 
jardim? 
O detective sorriu. 
Meu amigo, lembra-se quando chegmos a Merlinville 
no primeiro dia? E da bela rapariga que vimos parada  cancela 
da moradia. Voc perguntou-me se no vira uma jovem deusa 
e eu respondi-lhe que vira apenas uma rapariga com olhos. 
Foi assim que pensei em Marthe Daubreuil desde o princpio: 
a rapariga dos olhos ansiosos! Porque estava ansiosa? No por 
causa de Jack Renauld, pois ignorava que ele estivera em Merlinville 


na vspera. 
A propsito, como est Jack Renauld? 
Muito melhor. Ainda se encontra na Villa Marguerite, 


mas Madame Daubreuil desapareceu. A Polcia procura-a 
Acha que estava conluiada com a filha? 


Nunca o saberemos. Madame sabe guardar os seus 


segredos... e eu duvido muito que a Polcia consiga encontr-la. 
J disseram a Jack Renauld? 
Ainda no. 
Vai ser um choque terrvel para ele. 
Naturalmente. No entanto, Hastings, duvido que o seu 


corao alguma vez tenha estado seriamente preso. At agora, 
temos considerado Bella Duveen como um passatempo e Marthe 
Daubreuil como a rapariga que ele amava, realmente. Mas eu 
creio que se invertssemos os termos ficaramos mais perto da 
verdade. Marthe Daubreuil era muito bonita, imps-se a tarefa 
de fascinar Jack e conseguiu-o. Lembre-se, porm, da estranha 
relutncia dele em romper com a outra rapariga e veja como 
se disps a morrer na guilhotina para no a incriminar. Tenho 


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c o pressentimentozinho de que, quando souber a verdade, 

ficar horrorizado, revoltado, e o seu falso amor fenecer. 
E Giraud? 
Oh, teve uma crise de nervos e foi obrigado a regressar 

a Paris! 

Sorrimos ambos. 

Poirot demonstrou ser um bom profeta. Quando, finalmente, 

o mdico considerou Jack Renauld em condies de ouvir a  
verdade, foi o meu amigo belga quem lha revelou. O choque 
foi, de facto, terrvel, mas Jack refez-se melhor do que eu 
poderia ter imaginado. A dedicao da me ajudou-o a vencer 
aqueles dias difceis e agora me e filho so inseparveis. 
Havia ainda outra revelao a fazer. Poirot informara Mrs. 
Renauld de que conhecia o seu segredo e fizera-lhe ver que 
Jack no deveria ser deixado na ignorncia do passado do pai. 
Ocultar a verdade nunca serve de nada, madame! Seja 
corajosa e diga-lhe tudo. 
Mrs. Renauld aquiesceu, com o corao pesado, e o filho 
ficou a saber que o pai que amara tinha na realidade sido um 
fugitivo da justia. Uma pergunta hesitante foi logo respondida 
tranquilizadoramente por Poirot: 

Sossegue, M. Jack, o mundo nada sabe. Tanto quanto me 

parece, no tenho obrigao nenhuma de informar a Polcia 

do que sei. Ao longo de todo o caso agi no para ela, mas sim, 

em nome do seu pai. A justia alcanou-o, finalmente, mas no 

h necessidade nenhuma, de se saber que ele e Georges Conneau 

eram uma e a mesma pessoa. 

Claro que muitos aspectos do caso continuaram a parecer 

confusos e intrigantes  Polcia, mas Poirot explicou tudo de 

um modo to plausvel que as dvidas se foram gradualmente 

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dissipando. 
Pouco depois de regressarmos a Londres, vi um magnfico 
modelo de co de caa a adornar a prateleira da chamin de 
Poirot. Em resposta ao meu olhar interrogador, acenou com a 
cabea> e explicou: 

Mais ou, recebi os meus quinhentos francos! No  um 
animal esplndido? Chamo-lhe Giraud! 
Poucos dias depois Jack Renauld visitou-nos, com uma expresso 

muito resoluta. 

Vim despedir-me, M. Poirot. Parto para a Amrica do Sul 
quase imediatamente. O meu pai tinha grandes interesses nesse 
continente e eu tenciono comear nova vida l. 

Vai sozinho, M. Jack? 
Minha me acompanha-me... e conservarei Stonor como 
meu secretrio. Ele gosta das terras do mundo distantes. 
No vai mais ningum consigo? 

Jack corou. 
Refere-se...? 
Refiro-me a uma rapariga que o ama muito ternamente, 


tanto que esteve disposta a dar a vida por si. 


Como ousaria pedir-lho? murmurou o rapaz. Depois 
de tudo quanto aconteceu, poderia ir ter com ela e... Que raio 
de histria manca lhe havia de contar? 


Ls femmes tm uma habilidade maravilhosa para arranjar 
muletas para histrias mancas desse gnero. 
Sim... mas eu fui um idiota to grande! 


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Todos ns o somos, uma vez ou outra observou o meu 
amigo, filosoficamente. 
Mas o rosto de Jack endurecera. 
H outra coisa mais. Sou filho do meu pai. Algum 
casaria comigo, sabendo isso? 

Disse que  filho do seu pai e aqui o Hastings dir-lhe-ia 

que eu acredito na hereditariedade... 
Ento... 
Espere. Conheo uma mulher, uma mulher corajosa e 

forte, capaz de imenso amor, de supremo sacrifcio... 

O rapaz levantou a cabea e os seus olhos adoaram-se. 
A minha me! 
Sim.  filho da sua me, tanto como do seu pai. V ter 

com Mademoiselle Bella e conte-lhe tudo. No oculte nada... e 
veja o que ela diz! 
Jack pareceu irresoluto. 
V ter com ela mas j no como rapaz e sim como 
homem, como um homem vergado pelo destino do passado 
e pelo destino do presente, mas com esperana numa vida nova 
e maravilhosa. Pea-lhe que a compartilhe consigo. Talvez no 
se tenha apercebido disso, mas o vosso amor um pelooutro foi 
posto  prova pelo fogo e saiu vencedor. Ambos se mostraram 
dispostos a dar a vida pelo outro. 
E quanto ao capito Hastings, humilde cronista destas pginas? 
Fala-se em que ir reunir-se aos Renaulds num rancho do 
outro lado dos mares, mas para rematar esta histria prefiro 
regressar a certa manh no jardim da Villa Genevive. 

No lhe posso chamar Bella, visto no ser esse o seu 
nome, e Dulcie parece-me muito pouco familiar, no estou 
habituado. Portanto, tem de ser Cinderela. Cinderela casou 
com o prncipe, como se lembra. Eu no sou prncipe, mas. . 

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Ela interrompeu-me: 
Tenho a certeza de que ela o avisou! Compreende, ela 
15-VAMP. G. 2 

no se podia transformar numa princesa, afinal era apenas uma 

moa de cozinha... 
 a vez de o prncipe interromper. Sabe o que ele disse? 
No. 
Diabo disse o prncipe, e beijou-a! 

E juntei o gesto  palavra. 
FIM 

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